Tempestade Daniel já provocou mais de 5.000 mortos.
O aquecimento das águas do mar, o caos político e a degradação das infraestruturas estão na origem dos efeitos devastadores das inundações que mataram pelo menos 5.000 pessoas na Líbia, segundo vários especialistas.
Na noite de domingo para segunda-feira, rebentaram as duas barragens que retêm as águas do Wadi Derna, o ribeiro que atravessa a cidade de Derna, na costa oriental do Mediterrâneo. As fortes torrentes destruíram pontes e arrastaram bairros inteiros e os seus habitantes de ambos os lados do ribeiro, antes de desaguar no mar.
Esta é a pior catástrofe natural que atingiu a Cirenaica, a província oriental da Líbia, desde o grande terramoto que abalou a cidade oriental de al-Marj em 1963.
A tempestade Daniel, que provocou mais de 5.000 mortos, 7.000 feridos, 10.000 desaparecidos e 30 mil desalojados, formou-se a 04 deste mês e causou mortes e destruição na Bulgária, Grécia e Turquia na semana passada, antes de chegar à Líbia.
Estas tempestades mediterrânicas, com características de ciclones tropicais e furacões, conhecidas como "medicanes" (contração de furacões mediterrânicos), ocorrem apenas uma a três vezes por ano.
Para se formarem, necessitam de fluxos de calor e de humidade, "reforçados por temperaturas quentes à superfície do mar", explica Suzanne Gray, professora do departamento de meteorologia da Universidade de Reading, no Reino Unido.
Segundo vários cientistas que participaram terça-feira numa reunião do Comité Nacional de Impactos Climáticos do Reino Unido, há várias semanas que as águas superficiais do Mediterrâneo oriental e do Atlântico estão dois a três graus Celsius mais quentes, pelo que "é provável" que tal tenha provocado precipitações mais intensas.
"Existe uma ligação direta entre o aumento da precipitação e as inundações. A isto juntam-se as condições climatéricas locais. Este evento em particular é o resultado de um bloco persistente de alta pressão que está atualmente a dissipar-se", explicam os cientistas, sublinhando que, para já, "é difícil" dizer se este tipo de acontecimento se tornará ou não mais frequente no futuro.
Segundo alguns modelos, as alterações climáticas poderão reduzir o número de ciclones no Mediterrâneo, mas aumentar a intensidade, embora a maioria dos cientistas mostre relutância em estabelecer ligações diretas entre fenómenos meteorológicos individuais e as mudanças no clima a longo prazo.
No entanto, a tempestade Daniel "ilustra o tipo de inundações devastadoras que podemos esperar ver mais no futuro" à medida que o mundo aquece, disse Lizzie Kendon, professora de Ciências Climáticas na Universidade de Bristol.
De acordo com o observatório europeu Copernicus, o sobreaquecimento da temperatura da superfície do mar, que absorve 90% do excesso de calor produzido pela atividade humana desde a era industrial, está a conduzir a níveis recorde de calor em todo o mundo, e 2023 será provavelmente o ano mais quente da história.
No entanto, o clima não explica tudo, avançam outros especialistas, que dizem acreditar que a fragmentação do cenário político na Líbia - dilacerado por mais de uma década de guerra civil após a queda do ditador Muammar Kadhafi, no poder de 1969 a 2011 - também contribuiu para esta catástrofe.
O país do Norte de África está dividido entre dois governos rivais: a administração internacionalmente reconhecida e mediada pela ONU, com sede na capital, Tripoli, a oeste, e uma administração separada na região oriental, afetada pelas cheias.
"Os acontecimentos que se desenrolam na Líbia recordam-nos que não existe uma catástrofe natural", afirma Leslie Mabon, professor catedrático de Sistemas Ambientais na Open University do Reino Unido.
"É verdade que as alterações climáticas podem tornar os fenómenos meteorológicos extremos mais frequentes, mais imprevisíveis e mais violentos, de uma forma que pode exceder a capacidade de resposta das nossas infraestruturas e sistemas existentes", observa.
A perda de vidas é também uma consequência da natureza limitada dos sistemas de previsão, alerta e evacuação da Líbia, observa Kevin Collins, professor catedrático da Open University, destacando ainda as deficiências das infraestruturas, do planeamento urbano e das normas de conceção também foram salientadas.
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