Até 2026, o país vai receber 140 mil milhões de euros em fundos europeus.
O economista alemão Friedrich Sell acredita que Espanha atravessa uma crise profunda a vários níveis, defendendo a intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI) no país, na gestão e controlo dos fundos europeus.
"Não sou contra a atribuição de fundos europeus a Espanha, mas acredito que a transferência não deve ser imediata, nem em grande volume", sublinhou o professor emérito da Universidade da Bundeswehr (Forças Armadas) de Munique, apontando uma "crise profunda" nos três pilares da democracia, executivo, legislativo e judicial.
"Existe uma crise no Governo, com uma coligação muito fraca e sem maioria, uma crise no parlamento porque o maior partido da oposição não conseguiria formar governo e continua seriamente afetado por processos judiciais, e há ainda uma crise no sistema judicial (...) É por isso que a economia espanhola e o Estado espanhol atravessam uma grande crise", destacou.
Espanha apresentou, em 07 de outubro, o Plano de Recuperação, Transformação e Resiliência da Economia Espanhola com a estratégia para a próxima década. Até 2026, o país vai receber 140 mil milhões de euros em fundos europeus.
"Devemos ser cautelosos porque, ao ver as notícias, percebemos que o Governo anuncia que chegarão milhões da Europa. Falam ainda de que haverá uma chuva de euros sobre as regiões espanholas, o que torna o Governo não confiável. A minha suspeita é que esses recursos, se puderem, serão alocados ao consumo público e não ao investimento", acrescentou.
Para Friedrich Sell, a intervenção do FMI no país é necessária, afastando más memórias da entrada da 'troika' (constituída pela Comissão Europeia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu) nos países do sul da Europa.
"Desta vez não é o caso de austeridade, bem pelo contrário. O FMI viria com muito dinheiro proveniente de países europeus, mas agora com uma outra abordagem em que a Comissão e o FMI poderiam trabalhar em conjunto, o FMI começaria com o processo, mas a Comissão mais tarde poderia assumir quando o processo estiver bem encaminhado", salvaguardou.
O economista, que esteve recentemente um mês e meio em Portugal, considera que os dois países ibéricos atravessam situações muito diferentes, começando por lembrar os primeiros anos do Governo de António Costa.
"Houve inicialmente alguma apreensão na Comissão Europeia, sentida em alguns países europeus, de que tivesse sido constituído um Governo muito à esquerda, e em que não se pudesse confiar tanto em relação ao quadro macroeconómico, que é tão importante para a Comissão Europeia. No entanto, o que temos assistido, pelo menos de fora, é que Costa fez um trabalho bastante moderado no campo macroeconómico e parece ser um parceiro confiável para os países europeus", realçou.
O economista alemão tece ainda elogios ao combate à pandemia de covid-19, considerando que, até agora, as medidas de contenção foram tomadas atempadamente.
"Ao que parece, as medidas foram tomadas relativamente cedo e também, ao contrário de Espanha, não existe um aparente conflito dentro do Governo ou entre o Governo central e as regiões de Portugal e isto é uma vantagem clara sobre Espanha. A isto soma-se o que senti nos restaurantes, nas ruas e nas lojas, de que os portugueses estão a reagir com muita disciplina e paciência à pandemia e presumo que não seja o mesmo em Espanha", concluiu.
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