Folia com danças, bailinhos, comédias e espetáculos de teatro popular.
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As mulheres começaram a participar "tardiamente" nas danças e nos bailinhos de Carnaval da ilha Terceira, nos Açores, mas a sua presença veio "abrilhantar" estas manifestações tradicionais, defende a investigadora Assunção Melo.
"A entrada das mulheres dá-se, de facto, tardiamente. Há registos de uma dança no Ramo Grande, na década de 1940-50, em que as mulheres começam a entrar, e a partir de então tem sido um fenómeno crescente", adiantou, em declarações à Lusa.
Na ilha Terceira, o Carnaval é celebrado com danças, bailinhos e comédias, espetáculos de teatro popular, com caráter cómico ou trágico, com textos em rima, muitas vezes com crítica social, intercalados com coreografias e música.
Entre o sábado e a terça-feira de Entrudo, perto de 2.000 atores, cantores e músicos amadores percorrem mais de 30 palcos à volta da ilha, atuando de forma gratuita, pela madrugada dentro.
Ainda que existam alguns registos de danças de espada (com tema dramático) com a inclusão de mulheres no século XIX, as manifestações estiveram restritas aos homens, praticamente até aos anos 50 do século XX.
"Quer as danças, quer os bailinhos eram exclusivamente compostos por homens, mesmo quando se exigia uma presença feminina no elenco, esta era interpretada por um homem travestido. O caso ganhava graça no caso dos bailinhos, no caso das danças de espada, nem tanto", lê-se no livro "Carnaval da Ilha Terceira : emoção e catarse", de que Assunção Melo é co-autora.
A inclusão da mulher nas danças e nos bailinhos de Carnaval "tardia e tímida" é explicada por questões "culturais, sociais e políticas".
"As mulheres não entravam como não entravam em muitas outras coisas, em termos da participação ativa na sociedade", apontou a investigadora, formada em história de arte e natural da ilha Terceira.
Assunção Melo lembra que a utilização de homens vestidos de mulheres nas danças de pandeiro (cómicas), nos bailinhos e nas comédias ainda perdura até aos dias deste domingo, mas a participação das mulheres já é bem aceite e veio "abrilhantar a festa e elevar a fasquia".
"O aparecimento em força de mulheres nos bailinhos e danças de Carnaval não poderá ser descurado. Este fenómeno está, normalmente, associado a um incremento qualitativo da manifestação, sobretudo em termos de espetáculo visual", escreve Assunção Melo no livro publicado em 2018.
Segundo a investigadora, foram as mulheres que introduziram no Carnaval um maior cuidado com a imagem dos grupos, tanto na escolha da indumentária e dos adereços, como na "inclusão de coreografias mais ousadas, mais bem conseguidas, com um nível de execução superior".
O traje histórico resumia-se a uma "simples calça preta ou branca", com "camisa branca enfeitada com faixas coloridas ou galões brilhantes e chapéus de mitra".
"A elas se devem a abordagem de temáticas relacionadas com o seu quotidiano, com as suas preocupações. Penteados elaborados, maquilhagem e vestidos criativos têm dado um 'upgrade' à festa, sendo esta uma questão consensual, para já não falar das lindas vozes e primorosa execução instrumental", acrescenta o livro.
Estima-se que a primeira dança de Carnaval com a entrada de mulheres no século XX tenha ocorrido "entre 1940 e 1950", na vila das Lajes, na Praia da Vitória.
"Eram mulheres muito jovens, no transitório entre crianças e adolescentes. As mulheres estavam confinadas a outras tarefas do lar", salientou Assunção Melo.
Só nos anos de 1990 "passou a ser comum a presença de mulheres com o papel de mestras ou de dançarinas", tanto em danças de espada como em danças de pandeiro ou bailinhos.
"Foi uma coisa muito gradual. Eu lembro-me de ser criança e de facto as mulheres apareciam mais nas danças de espada", afirmou a investigadora.
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