Paulo Macedo, presidente executivo da Caixa Geral de Depósitos, traçou o percurso de recuperação financeira e transformação digital que permitiu à instituição consolidar a liderança no mercado português
“A União Europeia condicionou a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos por parte do Estado português ao facto de a Caixa conseguir obter o empréstimo de mil milhões de euros junto de operadores internacionais privados, com base numa equipa de gestão e num plano apresentado a investidores que têm tantas centenas ou milhares de opções, depois de seis anos consecutivos de prejuízos”, afirmou Paulo Macedo, presidente executivo da Caixa Geral de Depósitos (CGD), durante o programa Economia Sem Fronteiras, no canal Now, de que Miguel Frasquilho é anfitrião.
Foi decisivo para a recapitalização e a segunda tranche de 500 milhões acabou por ser financiada em condições mais favoráveis, o que “foi uma vitória”, como sublinha Paulo Macedo. Não esquece o impacto na reputação da CGD das comissões de inquérito parlamentar, “mas hoje em dia somos o banco com maior reputação”.
O plano estratégico durou quatro anos e contemplou uma reorganização da presença internacional, com a alienação de ativos considerados não estratégicos, como as operações na África do Sul e em Espanha, um profundo exercício de governance e a modernização dos sistemas de risco e de concessão de crédito, impulsionada pela crescente exigência dos supervisores a partir de 2014.
Paulo Macedo reconhece que houve uma transformação estrutural do modelo de negócio. O cliente, hoje em dia, “pretende ter uma experiência através da app, sem ir ao balcão, idêntica à que tem na sua vida particular ou profissional com outras instituições digitais”. Estes processos de digitalização e automação implicam investimentos em tecnologia e em capital humano. A CGD investe cerca de 200 milhões de euros por ano em tecnologia e é o banco em Portugal com mais clientes digitais.
“Consegue-se hoje fazer com menos pessoas uma quantidade muito maior de transações e prestar muito mais serviço”, afirma. Paulo Macedo deu como exemplo as máquinas VTM (Virtual Teller Machine), presentes em quase todas as agências, que permitem operações mais alargadas do que os tradicionais multibancos, ou os seguros recentemente disponibilizados diretamente pela aplicação móvel.
Foram recrutadas mais de 1.500 pessoas ao longo da reestruturação e prevê contratar cerca de mil colaboradores nos próximos cinco anos, com perfis comerciais e orientados para data analytics, controlo interno, compliance e inteligência artificial. Paulo Macedo salienta a liderança de mercado da CGD em depósitos, em crédito, na parte do crédito especializada, em fundos de investimento e em cartões de débito e, na sua opinião, são líderes “porque as pessoas gostam do serviço, não é porque somos públicos ou deixamos de ser públicos”.
O BNP Paribas classificou o processo como o turnaround bancário mais bem-sucedido da Europa. “O ano de 2026 vai ser o décimo ano de lucros, e já superámos largamente quer o valor acumulado na instituição, quer o valor distribuído ao acionista”, afirma Paulo Macedo. Salientou que a CGD representa hoje mais de 90% dos dividendos que o Estado recebe, além de uma parte muito significativa do IRC. A Caixa Geral de Depósitos chega ao seu 150.º aniversário, em abril, numa posição de liderança que poucos antecipavam há uma década.
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