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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

As empresas que moldam Portugal

O fio condutor que une uma farmacêutica de excelência global, uma produtora de vinhos alentejanos premiada e o maior banco público português é a convicção de que a sustentabilidade não é um custo nem um slogan; é a própria estratégia de negócio.

11 de junho de 2026 às 09:09

Cerca de 10% dos produtos aprovados pelo FDA (Food and Drug Administration) norte-americano em 2025 passaram pelas instalações da Hovione, que tem 2.600 trabalhadores distribuídos por fábricas em Portugal, na Irlanda, em Macau e nos Estados Unidos. A chave deste sucesso, segundo António Dinis, Head of External Affairs da Hovione, está na aposta sistemática no conhecimento. “Nos últimos 10 anos, tivemos mais de 30 pessoas doutoradas dentro da empresa e 70% ficaram na empresa”, revelou, sublinhando que esta retenção de talento altamente qualificado é determinante para manter uma posição competitiva assente no conhecimento e não nos custos.

A sustentabilidade entrou pela porta da exigência dos clientes, que são as grandes farmacêuticas mundiais, que, já com o seu Scope 1 e Scope 2 sob controlo, se viraram para a cadeia de abastecimento. A resposta da Hovione foi a criação de um sistema de eco-labeling que quantifica o impacto ambiental de cada processo, permitindo apresentar alternativas sustentáveis aos clientes de forma transparente e objetiva. O resultado foi ainda mais longe e, ao otimizar processos em vez de multiplicar equipamentos, a empresa conseguiu triplicar a produção num dado equipamento, aceder a incentivos à descarbonização internacionais e aumentar a rentabilidade. “Esta é uma forma simples de ter a sustentabilidade a ter um impacto na rentabilidade”, concluiu António Dinis.

Do solo às pessoas

Na Rocim, produtora vitivinícola do grupo Movicortes, a sustentabilidade não nasceu de uma diretiva interna nem de uma pressão regulatória. “Começa logo nas vinhas com a criação de biodiversidade, na preservação do ambiente e na poupança deste desgaste do solo”, explicou Catarina Vieira, CEO do Grupo Movicortes e sócia-gerente da Rocim, que dirige a empresa produtora de 1,6 milhões de garrafas por ano, com presença no Alentejo, Douro, Lisboa, Algarve, Dão e Açores.

Os exemplos concretos multiplicam-se, desde os ensaios de poda tardia (crop forcing) para obter vinhos com maior acidez natural em meses mais frescos, aos contadores em todas as torneiras de água, cujos resultados são partilhados semanalmente com todos os colaboradores, à eliminação do plástico e aos painéis fotovoltaicos.

A empresa integra ainda o Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA), certificação única no mundo, com equivalente apenas na Califórnia, que a Rocim adotou desde o início, em 2015. Mas Catarina Vieira insistiu que a sustentabilidade só se sustenta com as pessoas certas. “As empresas são projetos e pessoas certas. Temos que estimá-las, retê-las, proporcionar-lhes tudo o que a empresa conseguir para que elas queiram trabalhar e não só estar”.

A banca como alavanca da transição

Bárbara Costa Pinto, administradora executiva da CGD, enquadrou o debate com dados da ONU. O Global Emissions Gap Report de 2025 indica que, mantendo as políticas atuais, o mundo chegará ao fim do século com um aumento médio de temperatura de 2,8 graus, muito acima do limite de 1,5 a 2 graus fixado no Acordo de Paris. “Por muito que hoje se fale de outros assuntos, a verdade é que a sustentabilidade e as questões climáticas continuam na agenda do dia”, avisou.

O papel da CGD neste contexto assenta em três eixos: canalização de crédito para projetos sustentáveis, gestão dos riscos ESG e integração transparente destes fatores, evitando greenwashing. No plano estratégico 2025-2028, o banco estabeleceu uma meta de 7,5 mil milhões de euros em financiamento sustentável, mais do triplo do período anterior.

Explicou ainda que o banco tem equipas de advisory especializadas que ajudam a estruturar emissões obrigacionistas, sustainability-linked loans e estruturas de financiamento mais complexas. Depois, há o financiamento ESG por finalidade, como um carro elétrico ou um painel solar, e ainda uma diferenciação positiva tanto de spread como de comissionamento para as empresas com melhor rating ESG e para os financiamentos com características ESG.

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