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Na abertura do Encontro Fora da Caixa, em Almeirim, Paulo Moita de Macedo procurou enquadrar os desafios do futuro sustentável, identificando algumas das principais variáveis que influenciam a sustentabilidade do mundo e das empresas.
“Temos uma grande dependência dos combustíveis fósseis, mas, por exemplo, já não temos essa dependência na eletrificação e na eletricidade, e em algumas energias renováveis. Uma das grandes conclusões dos economistas é que a indústria devia ser muito mais eletrificada do que basear-se em combustíveis fósseis”, afirmou Paulo Moita de Macedo, presidente-executivo da CGD, durante o Encontro Fora da Caixa realizado ontem no Cine-Teatro de Almeirim em que também foram galardoadas as empresas vencedoras da 3.ª edição dos Prémios Caixa ESG.
A intervenção de Paulo Moita de Macedo teve como tema o enquadramento do futuro sustentável, ou seja, encontrar algumas das principais variáveis que tornam este mundo e as empresas mais ou menos sustentáveis. Partiu da celebração dos 250 anos dos Estados Unidos da América, “que condiciona e modela ainda mais os destinos do mundo do que há décadas”, e seguiu pela questão da deriva geopolítica, ou seja, “tudo o que acontece em termos de guerras, ou de confrontações, ou de ameaças, as transformações da ordem mundial, à energia, ao papel das terras raras, aos riscos económicos, à bolha de IA, aos datacenters, às questões climatéricas e às questões europeias”.
Sobre a inteligência artificial (IA), Paulo Moita de Macedo afirmou que “é composta por um conjunto de camadas, em que estão as matérias-primas raras, os chips, a cloud, o software, e depois, no fim, a inteligência artificial”. Entre os seus fornecedores estão empresas chinesas e norte-americanas, e as exceções holandesa e alemã.
Explicou que os grandes investimentos no mundo em termos de inteligência artificial estão nos Estados Unidos e na China, embora, de facto, os Estados Unidos tenham um grande, grande peso. “Falamos de muitos milhares de milhões de euros e este investimento massivo tem de ser financiado. Uma parte importante é feita pelas maiores empresas de cotação bolsista no mundo como a Meta, a Google, a Amazon, etc. Mas depois há uma parte de capital que tem de se ir buscar ao mercado”, referiu Paulo Moita de Macedo.
Sobre a bolha da inteligência artificial, Paulo Moita de Macedo referiu que quando se olha para o S&P500 são as empresas tecnológicas que mais crescem e há muitas empresas sustentadas pelos seus bons resultados. “É o que devemos ter na nossa mente quando olhamos para empresas, investir ou não. Uma coisa é se estão na moda ou não, se estão nas arenas do futuro ou não, se vão gerar profit pools que ainda não estão exploradas e qual o potencial. Mas também devemos ter muita atenção sobre quais são as empresas que, ano após ano, entregam, e que vão continuar a entregar no futuro”. Na sua opinião, “hoje em dia todas as empresas procuram utilizar a inteligência artificial, porque estão convencidas de que a inteligência artificial vai trazer maiores eficiências às empresas, mas ainda se está para ver como”.
“Na questão das alterações geopolíticas e geoeconómicas, vemos que a parte geo ganha de facto uma importância muito grande, porque as empresas têm uma grande dependência do comércio internacional”, afirmou Paulo Moita de Macedo, presidente-executivo da CGD. Esta rede circula por quatro a seis portos do mundo e, “quem domina esta navegação, domina as cadeias de abastecimento das empresas tanto nas importações como nas matérias-primas”.
Estas mutações nas cadeias de abastecimento, que têm sido marcantes desde a pandemia, voltam a fazer com que as empresas, para serem sustentáveis, tenham de passar, por exemplo, a ter uma produção em nearshoring em vez do offshoring, ou seja, deixam de importar a uns milhares de quilómetros e têm a produção mais próxima. Mas como disse Paulo Moita de Macedo, “quando produzo à minha porta, em vez de produzir ou comprar no sítio mais barato, tenho imediatamente um aumento de custos. É mais um fator a pressionar a inflação, já com caráter estrutural”.
Sobre este tema, Cristina Brízido, presidente do conselho de administração da Caixa Gestão de Ativos, salientou que “não estamos perto de um cenário do que os economistas chamam estagflação, um cenário no qual o crescimento é afetado negativamente e, ao mesmo tempo, temos a inflação a disparar. Acreditamos que este efeito é temporário e com um impacto moderado ao nível dos preços da energia, muito embora os dados de inflação da área do euro mostrem que se atingiu os 3%, mais concretamente 3,2%, pela primeira vez desde 2023”.
Na sua comunicação, “Tendências Económicas e de Mercados Financeiros”, Cristina Brízido mostrou ainda que o efeito de acontecimentos disruptivos pode ser diferente. Deu o exemplo do chamado Dia da Libertação, em março de 2025, com o anúncio das tarifas por parte dos Estados Unidos, em que o índice de ações global denominado em euros teve uma queda abrupta de 16%. “Já em 2026, no final de fevereiro, um evento de geopolítica bastante mais relevante do que o de 2025 traduziu-se numa correção um pouco mais tímida nos mercados financeiros e foi seguida de uma recuperação rápida. Entre o início de 2025 e até 29 de maio, os índices de ações globais valorizaram cerca de 20%”, concluiu Cristina Brízido.
“A banca desempenha um papel absolutamente central e sistémico na prossecução deste objetivo de sustentabilidade”, disse Bárbara Costa Pinto, administradora executiva da Caixa Geral de Depósitos, durante a mesa-redonda, “Empresas que moldam o futuro”, moderada por Magali Pinto, jornalista da CMTV. Bárbara Costa Pinto frisou que, apesar de todos os avanços tecnológicos, como as renováveis, “a verdade é que o que tem sido feito não é suficiente. Por exemplo, o Global Emissions Gap Report das Nações Unidas de 2025, o que nos diz é que as emissões de gases com efeito de estufa globalmente continuam a crescer, isto apesar de na Europa se terem reduzido”.
Bárbara Costa Pinto salientou ainda os eventos climáticos extremos que se fazem sentir cada vez com mais frequência e “Portugal não é exceção com o comboio de tempestades a causar prejuízos estimados em cerca de 5 mil milhões de euros”.
Em termos de sustentabilidade, no caso da Hovione os principais clientes são as grandes empresas farmacêuticas a nível mundial e, por isso, “apanhamos com toda a pressão que é colocada sobre eles”, revela António Dinis, Head of External Affairs da Hovione, e a qualificação dos fornecedores acontece há mais de 10 anos. “As nossas práticas de sustentabilidade são adotadas de uma forma extraordinariamente rigorosa e cumprimos e continuamos no jogo ou não cumprimos e estamos fora”, disse António Dinis. Revelou ainda que implementou recentemente o eco-labeling. Isto significa que “em tudo o que propomos aos clientes conseguimos dizer de uma forma inequívoca qual é o impacto em termos ambientais”.
Além da sustentabilidade, a Hovione joga na inovação a nível mundial em termos farmacêuticos e cerca de 10% dos produtos aprovados pelo FDA em 2025 passaram pelas fábricas da Hovione, revelou António Dinis. A Hovione emprega cerca de 2.600 trabalhadores que estão repartidos por 4 fábricas e vários escritórios em todo o mundo, em Macau, na Irlanda, em Portugal e nos Estados Unidos.
Segundo Catarina Vieira, CEO do Grupo Movicortes e sócia-gerente da Rocim, a sustentabilidade começa logo nas vinhas e na sua produção através da criação de biodiversidade, na preservação do ambiente e na manutenção dos solos, no uso de materiais de floresta, no controlo dos recursos naturais da água, no uso dos painéis fotovoltaicos, no uso dos painéis solares, na construção da própria adega.
Mas, “pode haver tudo isto, mas depois se não houver as pessoas certas no lugar certo não resulta. Nem se trata só de pessoas, trata-se das pessoas certas e isso é cada vez mais difícil de reter e de atrair, o que só se consegue se a cultura da empresa proporcionar bem-estar de uma forma real e não encenada”, garante Catarina Vieira. A Herdade do Rocim, no Alentejo, produz vinhos do Alentejo e outros de outras origens como do Douro, região de Lisboa, Algarve, Dão, Açores num total de cerca de 1,6 milhões de garrafas e tem atualmente 40 colaboradores no universo de 300 do Grupo Movicortes, a que pertence.
No âmbito do ciclo XXI Conversas para o Século, o escritor Gonçalo M. Tavares falou de teatro com o ator Miguel Guilherme, que disse que, no seu trabalho de ator, “talvez o mais enigmático, não sei se também quem assiste pensa nisso, é como um ator se entusiasma a repetir a mesma peça, as mesmas falas dia após dia”. Confessou que chegou a fazer uma peça, Arte, durante mais de um ano. Nas sessões finais, “aquelas palavras já magoavam o cérebro, já não se consegue, já ferem, já não se suporta mais aquelas palavras, já não se suporta mais”.
Gonçalo M. Tavares interrogou o ator sobre como “dizer a mesma coisa precisa, como consegue recuperar uma emoção para o minuto vinte da peça”. Miguel Guilherme disse que “tenta não pensar em emoções, mas pensar no que tem para dizer, não sou propriamente uma espécie de uma máquina de repetir emoções. O que interessa mais é o ator perceber o que está ali a fazer, o que quer dizer àquelas pessoas, e a partir daí, as coisas vão acontecendo. Depois também há um treino técnico, mas há dias em que falha completamente”.
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