A mulher, o marido e o torturador
Teatro dos Aloés está a apresentar 'A Morte e a Donzela' nos Recreios da Amadora.
Em cena há uma casa de praia e uma mulher que fuma cigarro atrás de cigarro. Oespectador ainda não sabe, mas há uma razão para o nervosismo: Paulina (Patrícia André) tem um trauma. O mesmo que é partilhado por todas as vítimas de tortura: as cicatrizes deixadas pela violência não passam. Nem com o tempo.
‘AMorte e a Donzela’, peça de Ariel Dorfman que o Teatro dos Aloés está a apresentar nos Recreios da Amadora até dia 29 já inspirou um filme (com Sigourney Weaver e Ben Kingsley) e conta a história de uma mulher que, um dia, por mero acaso, reencontra o seu torturador. E se vê em situação de inverter os papéis: em vez de estar sujeita à violência, é ela quem passa a poder exercê-la. Oencenador, Jorge Silva, diz que “a peça faz todo o sentido nos nossos dias, em que os extremismos renascem e, com eles, a tentação das ditaduras”.
“Este texto ajuda-nos a lembrar. Ou a não esquecer. A não esquecer o mal que um ditadura provoca e as marcas profundas que deixa nas pessoas”, sublinha. “A ação da peça decorre 17 anos após uma ditudura feroz. Oautor viveu no Chile, mas o texto é suficientemente aberto para permitir colocá-lo em qualquer país”, lembra ainda o encenador, que admite que o autor “não dá respostas”. “Ele questiona-nos: como viver em democracia quando, mesmo ao nosso lado, encontramos o tipo que nos torturou? Perdoa-se? Esquece-se? Faz-se justiça pelas próprias mãos?” No palco, ao lado de Patrícia André estão Nuno Nunes e Gonçalo Amorim. “Gostava muito de poder rodar com este espetáculo, até porque aqui nos Recreios da Amadora só temos dois fins de semana... Retiraram-nos dias de exibição e está a tornar-se dramático para nós, que funcionamos com o boca a boca. Enfim, andamos em reuniões a tentar resolver a situação. Mas para já, no imediato são só dois fins de semana”, conclui.
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