Ana Bacalhau: “Uso os meus medos, inseguranças e dúvidas para avançar”

Após dez anos com os Deolinda, a cantora lança-se a solo com ‘Nome próprio’, um álbum que gira em torno de si mesma.

25 de outubro de 2017 às 12:26
Foto: Marisa Cardoso
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Miguel Araújo, Jorge Cruz, Capicua, Márcia, Samuel Úria ou Nuno Prata foram alguns dos músicos que aceitaram escrever sobre a cantora que se até então estava habituada a dar voz às histórias dos outros, agora canta as suas próprias fragilidades, peculiaridades e defeitos. "Vida Nova é aquilo que mais quero", canta Ana Bacalhau.    

Como é para si ver pela primeira vez o seu nome e sua fotografia na capa de um disco, sem estar associada aos Deolinda?

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[risos] É de facto um pouco estranho, até porque nem com os Deolinda isso tinha acontecido. Nunca tivemos uma fotografia nossa nas capas dos discos. E é estranho porque, de facto, sempre estive habituada a estar na casa da Deolinda. Agora lanço-me aqui com o meu nomezito [risos]. E aproveito para lembrar uma vez mais que Bacalhau é o meu nome verdadeiro [risos]. Este, no fundo, é o concretizar de um sonho antigo, porque quando comecei a cantar eu queria era gravar um disco meu. Acho que é o sonho de quem canta.

E porque é que levou tanto tempo?

Porque a vida me levou por outros caminhos, nomeadamente para as bandas, primeiro com os Lupanar, depois passei ainda por uma banda de jazz e, finalmente, os Deolinda.

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Mas sentiu sempre que fazer uma carreira a solo era uma inevitabilidade?

Não sei se alguma vez o senti como uma inevitabilidade. Senti-o, sim, como um desejo. Mas também sempre meti na cabeça que só faria um disco a solo se tivesse alguma coisa para dizer e se soubesse como dizê-lo, que criasse um mundo sonoro que ligasse todas as minhas influências. Eu não sabia era se alguma vez chegaria a esse nível de maturidade.

E quando é que sentiu que estava pronta?

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Julgo que foi ali em 2013, quando fiz uns concertos a solo com versões de algumas canções que preencheram a minha vida. Aí sim, senti que talvez conseguisse fazer um disco a solo...

...para fugir da zona de conforto!

Sim. Foi isso mesmo que eu quis, sair da minha zona de conforto. Aliás, eu sempre fui um pouco assim. De cada vez que estou confortável na minha pele ou naquilo que estou a fazer tento colocar-me alguns desafios que me deixem desconfortável novamente.

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Mas teve dúvidas?

Ainda tenho [risos].

E como é que se vence isso?

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Não se vence. Utiliza-se isso como combustível. Eu uso muito os meus medos, as minhas inseguranças e as minhas dúvidas para avançar, sem medo de errar. Eu costumo dizer sempre que espero o melhor e preparo-me para o pior. É uma espécie de lema de vida.

E depois de dez anos com os Deolinda, como é que foi cantar pela primeira vez letras que não eram do Pedro?

[risos] Acabei por não sentir grande estranheza, porque na verdade a minha ideia para este disco era diferente. Quando comecei a falar com os autores para este disco, o que eu lhes disse é que nos Deolinda eu cantava histórias de outras pessoas e agora queria cantar- -me a mim. E todos eles souberam ler-me e refletir-me.

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Entre os tais autores estão Jorge Cruz, Capicua, António Zambujo, Nuno Prata, Miguel Araújo e Márcia. Isto só podia dar em Bacalhau gourmet! Está aqui a nata da nata...

[Risos] É isso. Bacalhau com nata [risos].

Andou a bater às portas todas!

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Sim, eu gosto muito de cantar as palavras dos outros e eu sabia muito bem quem é que queria convidar. Todas estas são pessoas que eu admiro muito. Todas elas faziam sentido. Eu tenho influências que vão da Amália aos Pearl Jam. Neste espaço cabe tudo e, por isso, decidi convidar músicos que também se movessem dentro deste universo e que de alguma forma me ajudassem a entrelaçar a música anglo-saxónica com a música de raiz portuguesa.

Portanto esta ‘malta’ foi toda ‘brifada’?

Exatamente. Na minha cabeça eu sempre imaginei algo entre Fausto e António Variações, com matizes de outras paragens. E tudo isto falando sobre mim, claro.

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E eles acertaram sempre à primeira naquilo que queria?

Sim, acertaram logo. Só à Capicua, que tinha feito uma letra mais brincalhona, é que eu pedi que falasse também daquele episódio que eu já contei várias vezes quando era miúda e que era gozada por ser gordinha e por me chamar Bacalhau [risos]. E então ela acrescentou uma quadra a falar disso.

Há aqui algumas letras que são escritas por si. Sentiu essa obrigatoriedade de "este disco é meu, também tenho que escrever"?

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Sim, fazia sentido. Se eu queria cantar-me a mim, então também não há ninguém que me conheça melhor do que eu mesma. E sim, acho que há ali conjuntos de palavras que só eu poderia escrever [risos].

Como por exemplo?

Olha, a expressão ‘só eu mais ninguém não’ é, por exemplo, da minha avó. O ‘menina rabina’, era o que me chamavam em criança. Mesmo a canção ‘Deixo-me ir’ só eu é que a podia escrever, porque só eu sei quando é que me deixo ir.

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E quando é que se deixa ir?

Quando canto [risos]. Por isso fazia sentido escrever sobre a música e o canto como uma terapia.

E escrever sobre si foi tarefa fácil?

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Sim. Eu quando comecei a cantar, cantava Nina Simone ou Janis Joplin, que são cantoras de peito aberto, que cantam as entranhas. E por isso eu também tinha que me expor. Isso era o meu normal. E, portanto, quem vem dessa escola já não tem problemas em cantar sobre si.

Não teme que as pessoas não a vejam descolada dos Deolinda?

A Deolinda é uma enorme parte de mim e se eu estou aqui hoje, à Deolinda o devo. Mas há outras partes de mim que não faz sentido mostrar naquele mundo estético e artístico da Deolinda. E foi disso que eu senti necessidade. Ou seja, conjuntamente à Ana que as pessoas conhecem, a do sorriso e da energia em palco, vou mostrar outras partes minhas. Por isso, espero que as pessoas que vão ver um concerto meu reconheçam a velha Ana, mas que também vejam outra parte minha.

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Falava da ‘menina rabina’ que era em criança. Ainda há muita coisa dessa menina?

Sim. Essa menina não morreu, nem vai morrer nunca. Eu era muito nariz empinado, muito rebelde, e tinha muito aquela coisa de fazer o que me pediam precisamente para não fazer. Mas o tema da ‘Menina rabina’ também fala muito da menina que está à noite no quarto a sonhar e isso ainda tem muito a ver comigo. Eu ainda sonho muito acordada.

E essa menina já sabia que ia ser cantora?

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Eu acho que só percebi isso quando descobri que tinha voz. Mas os meus pais só vieram a saber disso mais tarde.

Que idade tinha?

Já estava no secundário. Deve ter sido por volta do 10º ano.

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E os seus pais não acharam graça!

Não, não acharam [risos]. Eles queriam que eu estudasse e que tirasse o curso. E eu lá lhes fiz essa vontade. Tirei Línguas e Literaturas. Foi um curso que me deu muito gozo e que acabou por me ajudar imenso para a música porque me deu muitas ferramentas para interpretar um texto. Só que depois de terminar o curso meti-me logo na primeira banda.

Entretanto a Ana Bacalhau foi mãe. A cantora também mudou?

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Claro! A maternidade modifica tudo. O primeiro ensaio que tive para este disco já estava grávida. A minha filha Luz [cinco meses e meio] acompanhou-me desde o início deste disco e foi ela que me iluminou. A maternidade mudou muita coisa. Aquilo que podia ser uma fonte de insegurança e sofrimento passei a relativizar. Quando chego a casa e vejo o sorriso que ela me oferece, tudo passa.

E como é que ela reage à sua voz?

Epá! Foi uma das coisas maravilhosas que me aconteceu, porque eu até agora tinha um gato que odiava música [risos], que não gostava de me ouvir cantar nem de tocar. Curiosamente, uma das coisas que ela mais gosta de ouvir são os meus exercícios de voz, o meu aquecimento, quando estou para ali a fazer vocalizos [risos]. É a canção preferida dela.

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