Benfica lamenta morte de "um dos seus mais ilustres adeptos", António Lobo Antunes
Clube da Luz sublinha a "ligação afetiva" de décadas que o escritor manteve com a instituição.
O Benfica manifestou esta quinta-feira o seu "profundo pesar" pela morte do escritor António Lobo Antunes, aos 83 anos, classificando-o como uma "referência maior da cultura portuguesa contemporânea" e um dos seus "mais ilustres adeptos".
Em comunicado, o clube da Luz sublinha a "ligação afetiva" de décadas que o escritor manteve com a instituição, notando que a paixão de Lobo Antunes pelo Benfica "tantas vezes atravessou a sua própria obra e os seus testemunhos públicos".
"A sua voz singular na literatura portuguesa expressou sempre uma identidade profundamente enraizada no benfiquismo", refere a nota do clube.
O Sport Lisboa e Benfica recordou ainda passagens marcantes do autor sobre a sua relação com o clube, nomeadamente o impacto simbólico que o futebol tinha durante a Guerra Colonial, período em que o escritor serviu como médico em Angola.
"Entre as muitas palavras que dedicou ao clube, permanece particularmente marcante a recordação dos tempos da Guerra Colonial, quando afirmava que 'enquanto o Benfica jogava, não havia guerra', sublinhando a dimensão simbólica e emocional que o Benfica representava mesmo nos momentos mais difíceis", lê-se no comunicado.
O clube da Luz evocou também a ambição e a ironia do escritor, lembrando o momento em que Lobo Antunes confessou o desejo de ser "o Águas da literatura", numa alusão ao histórico capitão benfiquista José Águas.
"Com o desaparecimento de António Lobo Antunes, Portugal perde um escritor maior e o Sport Lisboa e Benfica um adepto cuja genialidade, pensamento e paixão pelo Benfica ficarão para sempre na memória coletiva do benfiquismo", lê-se na nota de pesar.
O clube endereçou as "mais sentidas condolências" à família, amigos e admiradores do autor, associando-se ao luto de todos os quanto "reconhecem na sua obra e na sua vida um legado maior da cultura portuguesa".
O escritor António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX, morreu esta quinta-feira aos 83 anos.
Por diversas vezes apontado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura, António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 01 de setembro de 1942, licenciou-se em Medicina, pela Universidade de Lisboa em 1969, tendo-se especializado em Psiquiatria, que mais tarde exerceu no Hospital Miguel Bombarda. Optou pela escrita a tempo inteiro em 1985, para combater a depressão que dizia ser comum a todas as pessoas.
"Nunca soube verdadeiramente fazer outra coisa que não escrever", declarou o escritor à agência Lusa, em 2004, quando já tinha recebido o Prémio União Latina (2003) pelo conjunto da obra, e a lista de distinções já ia do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) ao Melhor Livro Estrangeiro publicado em França ("Manual dos Inquisidores") e ao reconhecimento pela Feira do Livro de Frankfurt (1997), na Alemanha.
O seu primeiro livro, "Memória de Elefante", surgiu em 1979, logo seguido de "Os Cus de Judas", no mesmo ano, sucedendo-se "Conhecimento do Inferno", em 1980, e "Explicação dos Pássaros", em 1981, obras marcadas pela experiência da guerra e pelo exercício da Psiquiatria, que depressa o tornaram um dos autores mais lidos em Portugal.
A República Portuguesa condecorou-o com o Grande Colar da Ordem de Sant'Iago da Espada, em 2004 e, em 2019, com a Ordem da Liberdade. França deu-lhe o grau de "Commandeur" da Ordem das Artes e das Letras, em 2008.
Foi Prémio Camões em 2007.
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