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Correio da Manhã

Cultura
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"A História somos nós que a fazemos”

Rui Ramos coordenou e escreveu, com Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, uma nova ‘História de Portugal’. Para desfazer “ideias falsas”.
15 de Novembro de 2009 às 00:30
'A História somos nós que a fazemos”
'A História somos nós que a fazemos” FOTO: Mariline Alves

Correio da Manhã – Porque é importante ler História de Portugal?

Rui Ramos – Há várias razões e a primeira é o reconhecimento de uma identidade colectiva e de um passado comum. Passa-se o mesmo nas conversas em família, em que os parentes contam histórias uns dos outros e dos antepassados, reforçando a relação entre eles. Outro motivo importante é que muito do que acontece no presente é mais compreensível quando conhecemos o passado. E ainda o problema do presentismo. Todas as gerações pensam que o Mundo começa com elas. O conhecimento da História mostra que muitos dos problemas são recorrentes e estruturais. E também já se provou que não funcionam algumas das soluções apresentadas como novas e milagrosas.

– Falta conhecimento da História à nossa identidade nacional?

– Eduardo Lourenço escreveu que sofremos de um excesso de identidade, devido aos mitos e lendas que enfermam algumas visões do nosso passado. Mas do que se trata é olhar o nosso passado com rigor histórico e desfazer as ideias falsas.

– Há exemplos disso na ‘História de Portugal’ que coordenou?

– Sim, desmistifica-se a ideia de Portugal como ‘país de brandos costumes e consensos’. De facto, a ideia surgiu apenas na segunda metade do séc. XIX e foi criada por Fontes Pereira de Melo com objectivos políticos. Mas não há nada que a sustente. Por exemplo, na página 595, refere-se que, entre 1910 e 1921, os confrontos políticos provocaram cerca de 1500 mortos. Uma guerra civil intermitente que não tem nada de brandos costumes. Consensos, compromissos e tolerância exigem um esforço colectivo para manter o debate e a luta política dentro dos limites do respeito mútuo e do pluralismo.

– Encontramos neste trabalho os nossos ‘egrégios avós’?

– Tentámos conjugar a reflexão sobre aspectos sociais e económicos com um estilo de narrativa. Não é uma História de Portugal do tipo crónica, desfiando reis e batalhas, mas também não fica só pelos aspectos estruturais e de conjuntura como outros fazem agora. A História é uma inteligibilidade. A História somos nós que a fazemos, não como queremos, mas em resultado dos confrontos e das circunstâncias. Quisemos enfatizar que a História é relato de realidades dramáticas que quando se viveram estavam sempre em aberto. É fascinante perceber o que estava em causa e porque aconteceu uma coisa e não outra.

– É para maiores de quantos anos esta ‘História de Portugal ‘?

– É para estudantes a partir do Secundário e todos os que tenham um a instrução ao nível da antiga 4ª classe. É acessível pela clareza com que está escrita, embora se recuse a simplificação do que é complexo. Preferimos explicar e fazer uma obra actualizada e sofisticada.

"HOUVE VONTADE DO EXÉRCITO EM SAIR DE ÁFRICA DE FORMA EXPEDITA"

CM – Que visão se dá nas 30 páginas sobre o PREC de 1974-75?

Rui Ramos –Muito do que aconteceu foi determinado pela vontade do exército de sair de África de forma expedita. Concluída a retirada (Angola , 11 de Novembro), o PREC chegou rapidamente ao fim (25 de Novembro) .

– Que protagonistas destaca?

– O general Spínola foi a chave para a falta de resistência, Costa Gomes, Vasco Gonçalves, Melo Antunes e Otelo Saraiva de Carvalho. Nos civis a coragem de Mário Soares, a frontalidade de Sá Carneiro, a resistência de Álvaro Cunhal, a capacidade de Freitas do Amaral.

O LIVRO

‘História de Portugal’ é uma obra de mais de 900 páginas apresentada em edição com bom papel e bem encardernada, com um preço de capa de 39 euros, antes dos descontos usuais nas grandes superfícies. O texto está abundantemente anotado e inclui uma cronologia e muita bibliografia.

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