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A JANELA ABERTA AO CONTRA-ATAQUE

Pelo meio de muito "joio", rapidamente transformado em coqueluche e "next big thing", há - a bem de todos - o "trigo", de que se faz o pão da mudança, a farinha para as renovações e revoluções da música popular.

09 de fevereiro de 2003 às 00:00

Neste terreno, os Massive Attack são um autêntico "maná", alimento quase divino para satisfazer apetites. Indisponíveis para um concurso que obedeça à regra da sazonalidade, sendo este apenas o quarto álbum para uma dúzia de anos, são responsáveis por um percurso sem faltas e por uma elasticidade sempre ultrapassada.

Depois de "Blue Lines" (1991), de "Protection" (1994) e de "Mezzanine" (1998), assiste-se amanhã, segunda, 10, ao lançamento mundial de "100th Window". Nem pode, neste caso, dizer-se que a pré-temporada não acumulasse alguns receios: primeiro foi Andrew Vowles, ou Mushroom, que partiu o triângulo, abandonando a seguir à edição de "Mezzanine". Depois, vieram as notícias de bastidores: o segundo elo, Grant Marshall, ou Daddy Gee, não teve participação activa no novo álbum. Restava Robert Del Naja, ou 3D. Chegaria este novo regime de "one man band" para a continuidade?

A resposta que se descobre em "100th Window" dificilmente poderia ser mais categórica. Sem escorregadelas nem concessões (a faixa mais curta do álbum ultrapassa os cinco minutos de duração, mais de metade dobra a fasquia dos sete minutos), é reconfortante verificar que tudo está intacto. E que se deram passos em frente: as guitarras atmosféricas de Angelo Bruschini nunca pautaram tanto os ambientes construídos para cada tema; chamam-se à liça um violino (Stuart Gordon), uma harpa (Skala Kanga) e uma série de arranjos de cordas que, de alguma forma, ajudam a sublinhar e a "humanizar" as canções; Neil Davidge, que já colaborava, como arranjador e produtor (tem no currículo trabalhos com Craig Armstrong, com os Manic Street Preachers e nesse cocktail de génio que é "Moulin Rouge", o desvario musical do realizador Baz Luhrmann), co-assina todos os temas. São trunfos que contam, num disco hipnótico, magnético, delirante mas consciente, contra-corrente mas de acessibilidade garantida.

Depois, os Massive Attack continuam a acertar em pleno na escolha das vozes: Horace Andy, um veterano do "reggae", mantém-se como "residente". Mas este grupo é bendito entre as mulheres: depois de Shara Nelson, de Tracey Thorn (Everything But The Girl) e Nicolette, de Elizabeth Fraser, abrem-se as portas a Sinead O'Connor. Escolha que só é controversa até se ouvirem "What Your Soul Sings", "Special Cases" e "A Prayer For England", esta uma espécie de versão revista e aumentada do marcante "Safe From Harm", do primeiro álbum. Espantoso é que esta mulher possa cruzar o trip-hop dos Massive Attack com o folk irlandês revisitado no seu último álbum, "Sean Nos Nua", e manter o pleno. Caso para dizer: qualquer cançãozinha lhe fica bem...

No conjunto, é um todo soberbo, que vai fazer subir a fasquia dos desafios para o resto de 2003. Com uma suprema ironia: quando os Massive se estrearam em grande, o presidente americano chamava-se George Bush e jogava-se à guerra ao Iraque. Agora, como se não tivessem passado doze anos, o presidente americano chama-se George Bush (mais "w", menos "w") e anuncia-se outra guerra... É verdade que os Massive Attack também não mudaram. De nível, um dos mais altos que nos é oferecido pelo mundo das canções. Mas, por este lado, ainda bem. Não há mal que lhes chegue.

Já se escreveu do disco "Tribalistas" que foi uma das mais fantásticas surpresas de reunião para a música do Brasil. Juntou o "guerreiro" Carlinhos Brown, o "agitador" Arnaldo Antunes e a "inquieta" MARISA MONTE. Agora chega a vez do DVD - com o mesmo título, "Tribalistas" (ed. EMI-VC) - que, além das canções, mostra os ensaios, as conversas, alguns momentos "insólitos". Outro prazer, complementar, de quase uma hora, realizado por Guilherme Ramalho. Edição imprescindível para coleccionador.

É um impressionante desfile de fadistas, mas não só, capaz de juntar Camané a Carlos do Carmo, Lucília do Carmo a João Braga, mais Carlos Ramos e Joana Amendoeira. Mas também Fernando Tordo, Carlos Mendes, Paulo de Carvalho e Tony de Matos. Em 22 criações, fica o retrato rigoroso, que não exaustivo, do compositor MONIZ PEREIRA, mais conhecido como "senhor atletismo". O disco, "40 Anos de Música" (ed. Universal), além da viagem no tempo, vale uma autêntica festa. Portuguesa, orgulhosamente.

Os inexplicáveis revivalismos trouxeram de novo GARY NUMAN (nos anos ontem, líder dos Tubeway Army) para as luzes da ribalta. Nada a opor. A não ser a insistência, em ciclos cada vez mais apertados, do homem se fazer gravar sobre um palco. Agora é "Scarred" (ed. Edel) que dá conta de um espectáculo na Brixton Academy, em 2000. No mínimo, é o quinto "live" desde 1985. Com um problema: as canções que valem a pena são do antigamente e os seus arranjos nem mudam por aí além. Porquê outra vez?

Só a desatenção e a despudorada ditadura anglo-americana explicam a "proibição" das nossas editoras e lojas a muito do que se faz de bom e novo noutras paragens. Caso da França. Descubro (via Internet) um soberbo cantautor normando, SILVAIN VANOT. "Il Fait Soleil" (ed. Labels) é uma pérola: palavras certas, melodias simples, canto linear. Depois, percebo que este já é o quinto álbum do homem, celebrado como herdeiro de Jean-Louis Murat e... Neil Young. Nós, por cá, estamos tão às escuras...

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