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Correio da Manhã

Cultura
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A portuguesa que dançou com Che

Quando Vítor Norte entra em palco e fala com Manuel Coelho, é com um sorriso nos lábios que o público reconhece, no corpo destes actores, duas figuras históricas bem conhecidas: Silva Pais, o último director da PIDE (a polícia política do Estado Novo), e Rosa Casaco, subdirector da instituição, também conhecido como ‘o menino bonito de Salazar’ e a quem se atribui o assassinato do general Humberto Delgado.
17 de Março de 2007 às 00:00
Durante ‘A Filha Rebelde’, recém-estreado no Teatro D. Maria II, haverá outras razões para sorrir com a história verídica de Annie, a filha de Silva Pais, nascida e criada sob o signo da ditadura mas que um dia, farta da vida burguesa que levava, decidiu abraçar a revolução e ficar em Cuba.
Oliveira Salazar, com a sua típica fala titubeante, e Che Guevara a fumar o inevitável charuto, são outras das figuras históricas que os espectadores reconhecerão numa Sala Garrett de palco aberto (cenário de José Manuel Castanheira), onde se assiste, em constantes recuos e avanços no tempo, ao drama da mulher que recusou ser uma bonequinha fútil e se transformou numa operária de pulso.
Essa é, pelo menos, a leitura da encenadora Helena Pimenta: se nas primeiras cenas vemos uma Annie (Ana Brandão) profundamente irritante, caprichosa e, por vezes, histérica, à medida que o tempo passa e ela se despe, literalmente, de acessórios, num striptease simbólico, para vestir um fato militar, assistimos ao amadurecimento da heroína que só quando arregaça as mangas para trabalhar encontra um sentido para a vida.
Quando Annie Silva Pais abandonou o marido e partiu para Cuba, deixando pai e marido em muito maus lençóis, a censura apressou-se a abafar o caso. Foi preciso esperar até 2002 para que a história tivesse algum destaque nos jornais, numa reportagem que valeu o Prémio Gazeta a José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz.
No ano seguinte, saía o livro e foi a partir dele que a dramaturga Margarida Fonseca Santos escreveu a peça que estará no Nacional até 20 de Maio e com a qual a actual direcção do Teatro quer reflectir sobre momentos-chave da nossa História recente.
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