Com o seu álbum anterior, Marcelo D2 rasgou novos horizontes para a música do Brasil e, no regresso aos discos, com ‘Meu Samba é Assim’, o ex-Planet Hemp revela todo o seu talento e não esquece sequer um ‘recado’ ao presidente Lula.
Correio da Manhã – O título do novo disco, ‘Meu Samba é Assim’, sugere uma declaração de princípios. É mesmo assim?
Marcelo D2 – É essa a intenção, sim, e não apenas na música. Tem a ver com a maneira como dirijo a minha vida. É um disco muito autobiográfico e quis mostrar como toco a minha vida, o meu samba.
– Pode ser entendido como o capítulo final de uma trilogia em direcção ao samba?
– Acho que sim, mas é uma trilogia não pensada. Se o fosse, acho que faria de outro modo. Tentaria uma união maior. Mas é. Os discos todos se casam muito bem, são passos à frente. Não sei se o quarto será assim, mas este fecha uma trilogia de experimentação, a mistura de rap e samba.
– Qual foi a motivação para este disco, depois do êxito de ‘À Procura da Batida Perfeita’?
– A minha empolgação era mostrar que aquilo ‘À Procura...’ era só a ponta do icebergue, que tinha muito mais coisas para se fazer, até que neste disco. Já faria mais dois, agora. Quando acabo um disco parece que fica sempre qualquer coisa de fora. O Mário [Caldato Jr., produtor] diz sempre que a gente não acaba um disco, entrega-o. Bota para vender.
– Neste ‘samba’ recupera uma série de autores quase desconhecidos. É uma preocupação sua?
– Acho que a grande virtude da ‘Batida Perfeita’ foi entupir o disco de referências, e este tem isso também. Tem um excesso de referências e de arranjos elaborados da ‘batida’ e a coisa do rap, mais lento. Este é bem mais lento do que ‘A Batida’. Acho que é muito importante, principalmente para as novas gerações, que nunca ouviram falar em João Nogueira ou Baden Powell e que gostam do modo como eu faço o som e que assim pode ir buscar esses autores. Estou trazendo informação. É um disco de certa maneira pedagógico.
– Há uma canção em que canta: ‘já fui feio e sem dinheiro’. Nunca esquece esses tempos?
– O que nos forma são os pequenos detalhes. Falo isso com o meu filho. Não há tempo perdido, temos de aprender também com os erros. Sou uma pessoa muito agradecida. É importante lembrar isso. Nessa canção falo de uma pessoa que morreu e que me acolheu na sua casa quando eu estava sem dinheiro. Foi a minha família por um tempo. Não posso esquecer isso.
– Qual a melhor recompensa que a música já lhe deu?
– É quando você acaba de fazer o disco, pega ele e ouve. E depois mostra aos amigos. Disco é que nem filho. O melhor momento é quando acaba de fazer e diz: ‘está pronto’. Este é o meu oitavo disco.
– O tema que fecha é ‘Carta ao Presidente’. É um recado a Lula da Silva. Porquê?
– Quando o Lula subiu ao poder, em 2002, escreveu uma carta ao povo brasileiro em que falava das suas ambições como presidente, e eu mostrei-a ao Mário [Caldato Jr.]. Ficámos emocionados e ele achou que tínhamos um dever a cumprir. E decidimos: vamos fazer. De certa maneira é a minha obrigação enquanto cidadão, porque se se quer fazer um país melhor, tem que se aproveitar todos os momentos. Não adianta só enriquecer a família, ter carros e mulheres e não sei o que mais. É um apelo, porque ele podia ter feito um governo tão bom e teve a chance. O Brasil sempre acredita num ‘messias’, numa pessoa que vai chegar lá e mudar tudo, mas mais uma vez se provou que não. O poder muda as pessoas. Ele ainda tem chances de voltar atrás, porque pode ser reeleito.
– Quando volta a palcos portugueses?
– Portugal é um sítio onde gostaria de passar mais tempo. Quero ver se faço uma pequena digressão, vir com o cenário todo.
Em 1993 fundou os Planet Hemp (PH), com Skunk, mas depois da morte deste (‘94) e dos constantes problemas com as autoridades (chegaram a estar presos uma semana, em Brasília) Marcelo D2 experimentou uma carreira a solo. Antes, porém, em ‘97, ainda num disco dos PH, a canção ‘Hip-Hop Rio’ já indicava o caminho que Marcelo queria trilhar; casar a modernidade do hip-hop/rap com a tradição do samba. Um desejo ensaiado no primeiro álbum a solo, ‘Eu Tiro É Onda’, de 1998, mas só plenamente alcançado em 2003, com ‘À Procura da Batida Perfeita’.
Pelo meio, o PH ainda foi lançando discos, mas com o sucesso de ‘À Procura..’ Marcelo ganhou o respeito da crítica e o aplauso do público. Cada vez mais requisitado para ‘shows’, Marcelo investe definitivamente na carreira a solo e acaba de lançar ‘Meu Samba é Assim’.
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