Em causa está uma reportagem do jornalista Gabor Tanacs, publicada na passada sexta-feira e apagada no mesmo dia do Euronews.
Um jornalista do Euronews na Hungria, detido por um fundo português, denunciou esta terça-feira a retirada de uma notícia sobre empresas de próximos do primeiro-ministro húngaro, num contexto de ameaças à liberdade de imprensa, avançou a Euractiv.
Em causa está uma reportagem do jornalista Gabor Tanacs, publicada na passada sexta-feira e apagada no mesmo dia do Euronews, meio de comunicação social online, sobre a redução das avaliações do mercado de ações de empresas próximas do Governo, liderado pelo partido Fidesz, notando que oligarcas "próximos de Viktor Orbán" estão a "encerrar posições" e a transferir ativos para fora.
A menos de duas semanas das eleições legislativas, as sondagens apontam para a vitória do líder da oposição, o conservador Peter Magyar, pondo fim a 16 anos de governo de Orbán, o primeiro-ministro há mais tempo no poder na UE.
O Euractiv, 'site' de notícias europeias centrado nas políticas da UE, que teve acesso ao artigo e a um email de Tanacs enviado à redação do Euronews, disse que a reportagem foi apagada depois de instruções transmitidas verbalmente pela direção do meio húngaro.
O jornalista descreveu a retirada da reportagem como uma "clara violação da integridade editorial" e sugeriu que podia indiciar uma influência indevida sobre o conteúdo do Euronews.
"Os húngaros viram este fim de semana que a integridade editorial do Euronews foi violada", escreveu, no email citado pelo Euractiv.
"Este é o tipo de intervenção que já vimos milhares de vezes nos 'media' húngaros controlados pelo governo, por isso precisamos de deixar claro que não há espaço para isso no Euronews. Retirar uma notícia precisa de explicação e alguém assumir responsabilidade imediata", defendeu.
Tanascs afirmou que não tinham sido levantadas objeções editoriais antes da remoção do artigo, ao mesmo tempo que apontou para "um potencial conflito de interesses, alegando que o Euronews tem ligações de propriedade a uma das empresas mencionadas", disse o Euractiv.
O principal proprietário da Euronews é o fundo português Alpac Capital, presidido por Pedro Vargas David, que esteve envolvido na aquisição da Vodafone Hungria através do gigante húngaro das telecomunicações 4IG -- uma das empresas referidas no artigo.
O Euronews referiu que "o acordo foi visto por analistas como parte dos esforços de Orbán para expandir a influência sobre o panorama mediático do país".
Em 2021, acrescentou o artigo, Pedro Vargas David foi nomeado para o conselho de administração da 4IG, cargo que ocupou até ao final de 2025. Além disso, o pai de Vargas David foi consultor e é amigo de Orbán.
O Euractiv citou um 'email' do chefe do escritório de Budapeste do Euronews, Attila Kert, a justificar que a história foi apagada porque "uma ligação de acionista ao principal proprietário da Euronews... não foi divulgada" e devia ter sido pedido um comentário à "gestão das empresas em questão".
Kert afirmou que esta foi "a primeira vez que tal intervenção ocorria em mais de 13 anos de história do escritório de Budapeste", acrescentando ser "compreensível que a remoção do artigo tenha causado confusão entre os membros da equipa editorial" e "levantado questões entre os leitores".
O Euractiv procurou um comentário do Euronews e da Alpac Capital, mas não obteve resposta até ao momento da publicação do artigo.
A Lusa também questionou a Alpac Capital, mas sem sucesso até ao momento.
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