O novo disco da fadista conta a história de um triângulo amoroso.
Aldina Duarte e Maria do Rosário Pedreira, duas senhoras de peso num único disco. Quem é que desafiou quem?
Foi a Maria do Rosário, curiosamente numa altura em que eu já tinha desistido de gravar discos.
Desistido porquê?
Porque achava que sozinha já tinha ido até onde podia ir. Ou encontrava parceiros criativos ou já não tinha mais por onde evoluir. Sempre fiz tudo sozinha, fui a minha editora e produtora, e cheguei a um ponto em que decidi que não queria fazer mais do mesmo. Por isso estive quatro anos sem gravar.
E como é que a Maria do Rosário Pedreira a conseguiu desafiar?
A Maria do Rosário é uma das minhas melhores amigas, uma das pessoas com quem janto regularmente. Um dia disse-me que tinha tido uma ideia que só eu é que podia executar, que era fazer um romance em verso para eu cantar em fados tradicionais. Inicialmente disse-lhe que não estava interessada em gravar, mas que até podíamos transformar essa ideia num espetáculo. À medida que íamos tendo os nossos jantares, no final ela dizia-me sempre: "Bem, agora vamos trabalhar", o que eu achava uma coisa extraordinária, até porque era eu que estava habituada a dizer "vamos trabalhar" [risos].
E assim o projeto foi nascendo...
Sim. Um dia ela chegou ao pé de mim e disse-me: "Olha, já dividi por capítulos, já defini o tema, que é um triângulo amoroso, uma traição entre duas amigas, e há por aqui uma quadrilheira."
Mas essa ideia de um romance em fados tradicionais pareceu-lhe logo uma coisa exequível ou pareceu-lhe uma loucura?
Não, não. Acreditei que era possível. O difícil seria interpretar, e isso não tinha a certeza se seria capaz. É que há ali fados em que eu sou duas pessoas a falar uma com a outra. Para ser credível tinha de descobrir qualquer coisa que ainda não tinha feito. Há fados em que sou narradora e personagem ao mesmo tempo. E depois não podia esquecer-me de que não estava a cantar fado a fado, estava a contar uma história que tinha um fio condutor, uma maneira diferente de abordar um disco. E isto para mim era um desafio extraordinário do ponto de vista interpretativo.
Era um desafio que estava a precisar, este da Maria do Rosário?
Era, porque apareceu numa altura em que estava bastante confusa. Tenho muito respeito pelo caminho que tenho feito e acho que ser fadista é uma arte superior, mas estava, digamos, muito sozinha.
Sozinha porquê?
Sempre fui uma pessoa muito isolada porque a minha natureza também foi sempre muito solitária. Mas não há qualquer tristeza nisto, porque também tenho um mundo de afetos muito rico: a minha família, os meus amigos, o amor que tenho pelos livros e pela música, a realização no meu trabalho. Mas às vezes há uma solidão intelectual e artística que é difícil e dura. E isso fazia-me sentir isolada. Depois, nos últimos dez anos apareceram pessoas com um talento indiscutível e que fazem muito mais sucesso comercial do que eu.
Mas a Aldina tem um lugar já muito seu!
Eu acho que o meu lugar é intocável, assim como o meu público é muito fiel. Só que o meu caminho é outro e é muito mais lento. A minha matéria criativa são os fados tradicionais. O meu fado não é para levar ao MEO Arena ou para pôr num Rock in Rio. É um fado que exige algum cuidado para ser bem recebido. E é nesse sentido que me sinto um pouco isolada, porque não há muitas pessoas mais novas que queiram fazer este caminho. Só há uma pessoa da minha geração a fazê-lo, que é o Camané.
Mas chocam-lhe estes novos fados que se cruzam com instrumentos pouco tradicionais para o fado ou com novas sonoridades?
Não, nada. Acho que quando deixar de haver abertura em qualquer tipo de arte, caminhamos para o seu fim. A arte tem de ser aberta e livre e, gostando-se ou não, ninguém tem o direito de dizer o que está certo ou errado. O fado não é de ninguém. O fado é de todos.
Mas deve haver limites?
Para mim há, enquanto artista.
E que limite é esse?
O limite é não deixar de ser honesta naquilo que estou a fazer. Se não gosto de uma determinada sonoridade e não acredito num determinado repertório ou atitude, esse é o limite. E acho que as pessoas não podem mentir muito tempo porque não resulta.
Voltando ao disco, a Maria do Rosário teve total liberdade para escrever este romance?
Sim, só lhe pedi o final [risos], porque há um filme do George Cukor chamado ‘Célebres e Ricas’ que tem um final de que gosto muito. São duas amigas que passam por uma série de peripécias, inclusive traições amorosas, e no fim ficam amigas.
Mas isso não é nada comum!
Pois não, e incomoda-me um pouco esta mentalidade feminina. Acho que uma grande amizade não pode ser posta em causa por uma paixão por um desconhecido. Para mim a amizade é soberana, e acho sempre bem que se refaça. E é o caso destas duas amigas.
Então, este é um disco com uma moral?
Sim. Na forma como foi escrito foi quase amoral para haver liberdade total. Mas, sim, há uma moral de que é preciso cuidar das amizades a sério. Pô-las em causa por uma paixão não está certo. E, depois, devemos saber questionar as relações que vivemos.
E não houve a tendência para colocar algo de biográfico em histórias como esta?
No primeiro disco isso não aconteceu porque tive de me ocupar muito com as personagens, como a quadrilheira que é coisa que abomino. Em Chelas, onde vivi, vi coisas gravíssimas vindas da brejeirice e da quadrilhice. Mas no disco tive de pôr de lado este meu trauma para ser credível. No segundo disco já foi diferente, porque é uma banda sonora da história em que às vezes sou eu a falar da história aos bocados.
Este disco tem um produtor improvável, o Pedro Gonçalves, dos Dead Combo. Como é que ele aparece?
O Pedro foi uma sugestão da editora. Achava que ele nem devia conhecer o meu trabalho [risos]. Quando nos conhecemos foi uma amizade fulminante. Passado uma semana já estava em casa dele a conviver com a mulher e com os filhos, coisa que até nem é muito comum em mim porque eu sou muito reservada. Mas as nossas afinidades artísticas eram óbvias e muito importantes para eu lhe confiar a minha vida.
Mas porquê dois discos?
É engraçado porque já depois de gravarmos o primeiro disco, o Pedro andava preocupado com o que podia fazer mais e foi a mulher dele que lhe sugeriu fazer dois discos, um puro da Aldina e outro como lhe desse na cabeça. E isso libertou-o completamente. De repente dei por mim a cantar os mesmos fados, com as mesmas letras, mas com uma sonoridade diferente.
E convidou outros amigos!
Sim, como já não fazia sentido ser personagem, convidei o Camané para fazer do homem, a Ana Moura para fazer da amiga e a Filipa Cardoso para fazer a quadrilheira, porque ela tem um fado muito bairrista. O segundo disco foi talvez o meu maior desafio até hoje, porque tive de inventar uma forma de cantar e ir às minhas referências não fadistas como Nina Simone, Fausto ou Jorge Palma. Emocionei-me muito a cantar. Comovi-me e enterneci-me comigo mesma ao descobrir coisas que tinha dentro de mim que não conhecia.
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