Elogiado em todo o Mundo, alvo de convites e homenagens, o homem que encheu Portugal de orgulho pela distinção do Nobel da Literatura tinha honra da sua humilde origem. Ele próprio o enfatizou no discurso solene que proferiu na cerimónia de entrega do prémio na Real Academia Sueca, em 8 de Dezembro de 1998. Aos notáveis elegantemente vestidos que o ouviam, José Saramago falou dos seus verdes anos, da terra que então cavou e da lenha que recolheu, descalço, ao lado do avô, um camponês pobre e analfabeto.
Saramago foi um homem que se fez a si próprio, um escritor "levantado do chão". Nasceu em 1922 na obscura aldeia ribatejana de Azinhaga, numa família de escassas posses, que se instalou, tinha ele dois anos, numas águas-furtadas em Lisboa. Apesar de viver na capital, passava todos os anos alguns meses na terra natal, a que se sempre se sentiu muito ligado.
O magro salário do pai, polícia na capital, não permitiu a José fazer mais do que dois anos no Liceu Gil Vicente. Transitou para a Escola Industrial Afonso Domingues, onde concluíu, aos 16 anos, um curso de serralharia mecânica, que lhe permitiu trabalhar três anos como operário.
Aparentemente, estava destinado a uma vida obscura e trivial, mas o facto de recorrer com frequência à Biblioteca Municipal, para satisfazer o gosto pelo conhecimento e o prazer da leitura, deixaria prever voos mais altos.
Em 1942, a inclinação pelas letras e números abre-lhe as portas dos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa, para os quais é transferido como auxiliar de escriturário. Entrou em contacto, então, com o mundo da burocracia, onde permaneceu mais de uma década. Em 1943 passou a trabalhar nos escritórios da Caixa de Abono de Família da Indústria da Cerâmica e, em 1949, na Caixa de Previdência da Companhia Indústrias Metálicas Previdente. Os baixos ordenados praticados impõem vida difícil a Saramago, que em 1944, com 22 anos, casa com a dactilógrafa Ilda Reis.
Nada faria prever que aquele funcionário público, sem contactos nos meios intelectuais, iria ser um vulto maior da literatura portuguesa e mundial. Contudo, como revelou muito mais tarde, já aos 18 anos de idade dissera numa roda de amigos: "Ah, eu gostaria de ser escritor!".
Confessou que o fez "sem saber muito bem porquê".
Primeiro romance em 1947
Mas na realidade, no mesmo ano em que nasceu a sua filha Violante, 1947, publicou o primeiro romance. Tinha apenas 25 anos, e conseguiu-o sem qualquer ajuda, num tempo em que era muito difícil editar, num país de elevada taxa de analfabetismo e de reduzida actividade editorial. Despontava assim uma vocação alicerçada em muita determinação.
O título do livro de estreia, ‘Terra de Pecado', foi concebido pela editora (Minerva), que pôs de parte o do próprio autor, ‘A Viúva'. A obra concitou umas poucas críticas literárias, de conteúdo favorável. Incrivelmente, este primeiro passo dado por Saramago na literatura não teve sequência nos 19 anos seguintes. "Ia escrevendo algumas coisas, uns contos, coisas assim...", disse em 1990 sobre aquele interregno.
Tudo se configurou para a materialização dessa lacuna, explicou: não detinha meios, nunca frequentara a universidade e era estranho aos grupos literários. "Vivi sempre assim, à margem", sublinhou, referindo-se a esses anos. Invocou ainda uma segunda razão, carregada de significado: "Simplesmente, achava que não tinha nada para dizer."
Nessas duas décadas Saramago foi observando o que se passava à sua volta. Estruturou o pensamento. Percebeu como funcionava a burocracia estatal e como o Estado a alimentava. Deu o primeiro passo para sair desse meio em 1955, tinha o escritor 33 anos. O labor que desenvolveu na Editorial Estúdios Cor, onde então ingressou, facultou-lhe pela primeira vez o estabelecimento de contactos duradouros com intelectuais. Esse convívio intensificou-se em 1959, ano a partir do qual se dedicou mais aturadamente à tarefa de editor literário, abandonando as funções burocráticas que exercera, cumulativamente, na Companhia de Seguros Previdente, para onde entrara em 1950.
No desempenho da actividade de editor fez-se notar pela capacidade e qualidade de trabalho, embora auferisse um vencimento modesto. Além disso, traduzia livros e escrevia crónicas, "nas quais já se nota uma mão feliz", segundo o escritor e jornalista Baptista Bastos (‘José Saramago, Aproximação a um Retrato', Dom Quixote, 1996).
"A minha vida literária propriamente dita com consistência e continuidade começa em 1966", reconheceu Saramago numa entrevista concedida em 1990 à revista universitária galega ‘Folhas de Cibrão'. Foi, pois, aos 44 anos que sentiu ter algo para dizer, publicando o segundo livro, ‘Os Poemas Possíveis'. Nesse ano, em que escolheu a poesia como forma de expressão literária, iniciou uma ligação íntima com Isabel da Nóbrega. Distinguida dois anos antes com o prémio literário Camilo Castelo Branco, a escritora iria constituir mais um elo na aproximação do filho de Azinhaga às gentes dos meios literários.
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