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Camané: “Era miúdo e já ouvia fados como se fossem histórias”

Fadista regravou fados de Marceneiro num de disco de homenagem a um dos seus grandes ídolos.

11 de outubro de 2017 às 18:52

Ainda ninguém tinha ousado fazê-lo em disco: gravar os fados originais de Alfredo Marceneiro, música e letra. Camané presta agora tributo a uma das  vozes que mais o influenciou ao longo da carreira. Para ouvir estão fados como 'Cabaré', 'Quadras Soltas', 'Senhora do Monte', 'Empate a Dois', 'Despedida' e claro, 'A Casa da Mariquinhas'. O disco 'Camané canta Marceneiro' conta ainda com a participação de Carlos do Carmo no tema 'A Lucinda Camareira'. 

Há uma pergunta que se impõe para início de conversa. Porquê um disco só com fados de Marceneiro?

Curiosamente, nunca pensei em vir a fazer um disco como este. Toda a minha vida eu cantei fados do Marceneiro, mas sempre com letras novas. Há já dez anos, por exemplo, que termino sempre os meus espetáculos com o fado ‘Cravo’ do Marceneiro, mas com poema do João Ferreira Rosa. Tudo isto aconteceu muito de repente, quando comecei a pensar num disco novo.

Mas este disco é gravado com os poemas originais!

Sim, porque uma das coisas que sempre me fez muita confusão foi o preconceito que havia em relação às letras do fado. A verdade é que alguns dos melhores poetas da poesia popular eram do fado, como o Linhares Barbosa, o Carlos Conde, o Henrique Rêgo ou o Gabriel Oliveira. E todos eles escreveram e muito bem para o Marceneiro.

E se ninguém traz essas letras do fado para o presente dificilmente as novas gerações os podem conhecer!

Sim. Eu recordo-me de ser miúdo e de ouvir esses fados com muita atenção como se fossem histórias. Estes fados merecem ser ouvidos. Um dia, depois de um espetáculo em que fiz uma pequena homenagem ao Marceneiro, decidi então fazer um disco só com fados que ele cantou.

Sempre disse que o Marceneiro era uma das suas grandes referências. Sentia de alguma forma que lhe devia este tributo?

O facto de toda a vida ter cantado Marceneiro já foi sempre uma forma de lhe prestar tributo. O que eu pensei é que me iria dar um gozo enorme cantar estes fados. Alguns deles transportam-nos para uma vivência do amor e da vida que já não vivemos. Há outros fados que falam do quotidiano, e ainda outros com temáticas bastante atuais com o ‘remorso’ ou a ‘culpa’. Há muita gente que hoje ouve fado mas que nunca ouviu Marceneiro e acho que é importante que conheçam esta linguagem do fado.

Tendo em conta a admiração que sempre teve por Marceneiro e a relação que sempre teve com os seus fados, como é que foi, até do ponto de vista emocional, pegar em temas que estão tão identificados com aquela pessoa?

O que eu fiz foi pegar naqueles fados e torná-los meus. Não tentei em momento algum imitar o Marceneiro, nem conseguia (risos). O que está aqui gravado é a minha visão e a minha interpretação de hoje daqueles fados. Foi como ter ido ao passado e trazer um pouco de mim para o presente. O fado também é muito isto.

Mas houve a preocupação da sua parte em não ficar colado ao Marceneiro?

É muito difícil ficar colado àquela forma de cantar porque somos os dois muito diferentes, mas há coisas que até fiz questão de cantar como ele cantava, algumas formas emotivas que ele empregava. Em alguns pormenores, eu inspirei-me, de facto, muito nele.

O Linhares Barbosa escreveu uma vez que o Marceneiro "tem na garganta um não sei quê de estranho"!

Sim. Ele, não tendo uma grande voz, conseguia chegar às notas mais incríveis. E acho que ele ensinou muito a muita gente.

Recorda-se da primeira vez que ouviu Marceneiro?

Sim. Devia ter uns sete ou oito anos.

Em que circunstâncias?

Foi em casa. Havia por lá um disco que tinha um título em inglês chamado ‘Tha Fabulous Marceneiro’. Era um LP que até está no museu do fado. Acho que a minha mãe ainda tem uma cópia lá em casa. A primeira vez que ouvi fado e ouvi Marceneiro tudo aquilo foi muito estranho para mim. Só depois é que começou a entrar. Tudo foi uma aprendizagem para mim.

E chegou a conhecer o Marceneiro pessoalmente?

Sim. Tinha uns dez anos. Foi numa festa de homenagem ao próprio Marceneiro, numa noite em que eu tirei uma foto com a Amália e o Carlos Conde, um poeta muito conhecido e que era muito irónico na sua maneira de escrever. E o Marceneiro estava lá. Naquele altura, tudo aquilo era muito engraçado porque eu ouvia os discos em casa e depois acabava por encontrar essas pessoas pessoalmente. Tive essa sorte.

Mas como é que foi esse encontro com o Marceneiro?

Fiquei simplesmente a olhar para ele com cara de parvo (risos). Ele já era muito velhinho, mas eu nem tive coragem de lhe ir falar. Isto foi há quarenta anos. É verdade que toda a gente lhe ia falar, mas eu era uma criança e fiquei ali, simplesmente a olhar.

Embora já fosse conhecedor e admirador da obra de Marceneiro, gravar este disco levou-o a fazer algum tipo de pesquisa sobre o fadista?

As coisas que eu sei sobre o Marceneiro fui aprendendo a vida toda, sobretudo nas conversas até às seis da manhã com os fadistas mais antigos nas casas de fado. Toda a gente deste meio sempre ouviu muitas histórias sobre o Marceneiro. Quando fui cantar para o Fado Menor [casa de fados no Bairro Alto], tinha eu 19 anos, um dos guitarristas era o Carvalhinho, que era um dos grandes guitarristas do Marceneiro. Sempre tive a sorte de privar com pessoas que me falavam muito dele. Os próprios familiares do Marceneiro sempre fizeram parte da minha vida e, portanto, histórias não faltam.

Como por exemplo?

Eh pá, são tantas. Ele era, por exemplo, uma pessoa que praticamente só saía de casa à noite. Um dia saiu com um pulôver de caxemira vestido, que a mulher lhe tinha dado, encontrou um miúdo cheio de frio e deu-lho. Quando ele chegou a casa, a mulher ralhou com ele porque julgou que o tivesse perdido em algum lado. E depois ele era uma pessoa com muito bom gosto e muito honesta. Quando ele não gostava daqueles fados a que chamava ‘cantiguinhas’, dizia logo.

Acredita que é preciso uma certa maturidade para interpretar estes fados do Marceneiro?

Quando eu comecei a gravar, aos 2o anos, nunca me passou pela cabeça gravar estes fados. Sempre pensei fazer o meu repertório. Nunca pensei cantar letras que já tinham sido cantadas. Hoje faço isso porque também já tenho o meu percurso. Mas não é preciso ouvir-me a mim para gostar de Marceneiro. Espero que as pessoas entendam a minha paixão ao cantar estes fados.

Diz que é amigo dos familiares do Marceneiro. Que feedback tem deles relativamente a este disco?

Eles ficaram muito contentes porque nunca ninguém, de geração nenhuma, pegou nas coisas do Marceneiro e as cantou à sua maneira, mas sem desvirtuar nada. E é isso que eu faço neste disco.

Espetáculos só para o ano

O disco ‘Camané Canta Marceneiro’ só começará a ser apresentado ao vivo no próximo ano. "Quero montar um espetáculo bem intimista em salas fechadas, provavelmente em teatros, porque acho que é como este repertório funcionará melhor", explica o fadista que  revela a ambição de montar um espetáculo especial. "Passar isto para o palco é uma coisa que tem que ser muito bem pensada, até porque eu quero um espetáculo muito cuidado ao nível do ambiente e do cenário", adianta Camané. Os primeiros concertos devem arrancar em março. Depois disso, o novo disco deverá também ser apresentado ao vivo no estrangeiro.

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