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MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

CHAMARAM-ME LOUCO

Tempos antes da primeira edição do Festival Músicas do Mundo de Sines, Manuel Coelho, presidente da Câmara local, falou que tinha a ideia de levar a efeito no castelo da cidade "uma festa com grupos de vários quadrantes geográficos orçamentada em uns 15 mil contos".

27 de julho de 2003 às 00:00

Incrédulos, "os meus amigos chamaram-me maluco".

Agora, cinco anos e outros tantos festivais depois, em Sines todos lhe "dão os parabéns por este investimento voltado para cinco bem estudados objectivos: estimular a sensibilidade dos jovens para a música e a sua diversidade; acabar com os preconceitos dos que pensam que só no Ocidente é que há boa música; contribuir para o desenvolvimento do turismo local; acabar com a tendência de falar mal e acentuar o orgulho dos sineenses pelo que se faz cá na terra".

Ao conceber um festival que não visa o lucro, que mantém um conceito e busca a diversidade, Manuel Coelho provou que a sua ideia, afinal, não era nada tola.

TURBULÊNCIA

Orçado em 220 mil euros, a maior parte deles patrocinados por uma série de empresas encabeçadas pela Galp - também responsável pela poluição ambiente circundante - o Festival Músicas do Mundo de Sines foi nas suas quatro edições anteriores gratuito e este ano o ingresso diário custou a "quantia simbólica" de dois euros. E, segundo o presidente, "este serviço público só não continuou a ser grátis para as pessoas reconhecerem o valor das coisas".

Se, nos anos anteriores "passaram por aqui umas 30 mil pessoas, este ano, que dizem ser de maior crise, esperam-se umas 25 mil". Mesmo que nas duas primeiras noites não se contabilizassem nem metade do perspectivado, o sucesso do evento é um dado garantido, podendo mesmo ser considerado, sem exagero, um dos melhores festivais de músicas do País.

"Estamos a fazer tudo para que, no futuro, este certame se auto-sustente", explicou ao CM. Por enquanto, graças essencialmente ao generoso apoio da Galp, vai vivendo de boa saúde. "Ainda estamos em negociações, mas como lá dentro está a haver uma grande turbulência, ainda não definimos os valores dos patrocínios que eles nos vão conceder".

Para Manuel Coelho, o facto da empresa que mais polui o seu "habitat" ser o principal suporte financeiro do seu evento cultural mais marcante, "é uma questão muito complexa. Estamos a tentar diminuir a poluição e aumentar a oferta turística. Mas, sobre isso, um dia conversamos", rematou.

E, entre um cumprimento e outro aos conterrâneos, lá se foi esquivando por entre a pequena multidão que se reunia em frente ao ecrã gigante pendurado nas paredes exteriores do castelo.

O ALFABETO SONORO DE TRÊS MUNDOS

Em viagens por sons que nenhum fundamentalismo consegue apagar, juntaram-se na segunda noite do Festival Músicas do Mundo grupos do Afeganistão, África do Sul e Brasil. Pernas entrelaçadas, os primeiros debitaram sons de sofisticadas tablas (que produzem um alfabeto) em harmonia com uma curiosa espécie de alaúde, flautas de bambu e um percursor da cítara em vias de extinção. Chamam-se Ensemble Kaboul e fizeram-se acompanhar pela voz de Farida Mahwash, que cantou as tradições e as convulsões que têm assolado o seu povo.

De Joanesburgo vieram as Mahotella Queens, 39 anos de palcos, símbolos da resistência cultural ao “apartheid”. "Aqui somos um só Deus". Em nome da festa mostraram uma panóplia de sons, do gospel ao rhythm n' blues, do zulu à soul, dançaram e fizeram dançar toda a malta.

A frase mais ouvida da boca de Totonho e os Cabra foi "segura a cabra que ela gosta de chifrar", mas outras foram lançadas como rajadas. Iniciado com instrumentos de lata, Totonho depressa integrou nas suas palavras carregadas de humor negro, sons sem rótulo ou movimentos definidos. Como se pretende num festival desta natureza.

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