Espetáculo estreia a 1 de abril no Teatro Tivoli, em Lisboa.
A comédia musical inspirada na vida de José Sócrates, que se estreia a 1 de abril no Teatro Tivoli, em Lisboa, é sobretudo um retrato da "portugalidade", assegura o argumentista Henrique Dias, afastando intenções políticas e hipóteses de processo.
"Sr. Engenheiro - Alegadamente um Musical" é uma sátira que se inspira "nos factos da vida" do antigo primeiro-ministro José Sócrates e da realidade político-social portuguesa, produzida pela UAU, com texto de Henrique Dias e encenação de Rui Melo, que esta terça-feira apresentaram o elenco, em conferência de imprensa.
Assumindo que é uma "produção ambiciosa", cujo orçamento vai rondar os 600 mil euros, "um valor acima da média em Portugal", entre Lisboa e Porto, o diretor geral da UAU, Paulo Dias, assumiu o objetivo de atingir um público acima das 50 mil pessoas.
O espetáculo parte de factos públicos e conhecidos sobre José Sócrates, que Portugal acompanhou durante anos nos noticiários, nos jornais e nas conversas de cafés, e que foram transformados em comédia na tradição da crónica de costumes, com uma abordagem humorística, explicou a produção.
A história começa nas Beiras e termina no início do julgamento e conta com o ator Manuel Marques a interpretar o papel de José Sócrates, enquanto os restantes atores fazem várias personagens, essas sim, "fictícias", adiantou Rui Melo.
Entre os intervenientes nesta peça, apresentada como "Era uma vez um primeiro-ministro que queria muito uma casa em Paris", contam-se um melhor amigo, um advogado, uma assessora, uma ministra, uma procuradora, uma filha, uma ex-mulher, quatro ex-namoradas, muitos jornalistas, um motorista e um entregador de pizzas, especificou o encenador, acrescentando que a "mãe [apenas] está presente num objeto", sem dizer qual.
"Envolve várias pessoas. Até a nós. A forma como reagimos a isto também está retratada. É um retrato da sociedade em relação a este fenómeno que se passou. O espetáculo não pretende influenciar nada. Não esperem um manifesto político, isto não pretende ser um espetáculo político. Longe disso, é para divertir, é sobre o que é, na sua essência, a Portugalidade", explicou Henrique Dias.
"O próprio cartaz está cheio de microfones. Foram dez anos de microfones. No espetáculo há muitas coisas caricatas que as pessoas viram e de que se vão rir", acrescentou o diretor Paulo Dias.
Questionado sobre receia ser alvo de um processo, o argumentista afirmou que "hoje em dia pode acontecer qualquer coisa", aludindo ao caso do processo que envolveu a humorista Joana Marques e a dupla musical Anjos, mas rejeitou essa hipótese salientando que "mais do que a liberdade de expressão, está em causa a liberdade de criação artística".
"Não faz sentido pensar nisso, porque estamos a trabalhar no campo da ficção e do humor. É uma sátira, é pegar em factos e levar ao exagero", afirmou, acrescentando que os acontecimentos "são todos públicos e notórios", levados ao "exagero", ao "absurdo", muito "mais longe do que a realidade".
O autor do texto disse ainda ter conhecimento de que José Sócrates se "mostrou indignado", num canal televisivo, com este espetáculo, mas foi perentório: "não podemos estar preocupados com o visado, estamos a trabalhar para o público".
Lembrando que até há relativamente pouco tempo essa questão dos processos nunca se punha, Henrique Dias lamentou que se vivam dias em que "isto é um problema" e considerou tratar-se de um mau "sinal de saúde da nossa sociedade".
"Eu não quero chegar a uma sociedade onde o humor e a criação artística começam a ter este crivo, ainda por cima a nossa sociedade, que sempre teve essa tradição de liberdade", defendeu, exemplificando com o caso das Produções Fictícias ou do Contrainformação, em que quem não gostava "nunca teve a veleidade de dizer que ia pôr um processo".
"Está-se a criar um hábito e um medo na sociedade portuguesa que não é nada bom para o panorama artístico, criadores, músicos, pensadores, atores, para ninguém (...) realmente, as coisas mudaram um bocadinho nos últimos anos, infelizmente", criticou o argumentista.
Sobre a sua interpretação, Manuel Marques admitiu que é uma "grande responsabilidade" e que vai ter de se distanciar do Sócrates dos 'sketches' da televisão e "preparar outro Sócrates", de preferência que "cante muito bem".
O espetáculo estreia no dia 01 de abril, dia das mentiras, "não podia ser outra data" -- brincou Paulo Dias -, e terá uma banda ao vivo, com piano, bateria, baixo, violoncelo, guitarra e viola de arco.
A música é da responsabilidade de Artur Guimarães, que será também maestro e conduzirá os músicos Tom Neiva, André Galvão, João Valpaços, Marcelo Cantarinhas e Inês Nunes ou Carlos Domingues.
O elenco é ainda composto por Alexandre Carvalho, Brienne Keller, Jorge Mourato, Marta Andrino, Miguel Raposo, Samuel Alves, Silvia Filipe, Sissi Martins e Rita Cruz.
O espetáculo vai estar em cena no Teatro Tivoli BBVA até 10 de maio, seguindo depois para o Porto, onde se apresentará no Coliseu entre os dias 14 e 17 de maio.
José Sócrates, 68 anos, foi deputado pelo Partido Socialista, ministro e primeiro-ministro de Portugal entre 2005 e 2011.
Em 21 de novembro de 2014, foi detido no aeroporto de Lisboa quando regressava de Paris. A situação, inédita em Portugal, tinha por base suspeitas de crimes de corrupção, fraude fiscal, branqueamento de capitais, confirmadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
Entre os arguidos também detidos estavam o amigo de José Sócrates e uma das figuras centrais do processo, Carlos Santos Silva, e o motorista do ex-governante, João Perna.
Sócrates, que esteve cerca de nove meses em prisão preventiva, conheceu a acusação do Ministério Público em outubro de 2017, envolvendo 28 arguidos de 189 crimes.
De um longo e polémico processo judicial, José Sócrates responde atualmente por 22 crimes: três de corrupção, 13 de branqueamento de capitais e seis de fraude fiscal qualificada.
O julgamento decorre desde 3 de julho de 2025 no Tribunal Central Criminal de Lisboa.
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