Os trabalhos de escavação arqueológica regressaram à Quinta de S. Pedro, em Corroios (Seixal), naquela que poderá ser a última tentativa de encontrar material de interesse histórico-arqueológico na necrópole medieval-moderna.
Iniciada em 1994, a intervenção arqueológica trouxe à superfície um importante conjunto de ossos humanos e também vários objectos que permitiram conhecer as populações em Corroios nos sécs. XV e XVI.
Os trabalhos estão a ser realizados por jovens voluntários acompanhados por uma equipa do Ecomuseu Municipal do Seixal, liderada pelo arqueólogo Jorge Raposo. Participam igualmente especialistas do Centro de Arqueologia de Almada e elementos do Agrupamento 585 (Corroios) do Corpo Nacional de Escutas.
Apesar de ainda não terem sido encontrados quaisquer vestígios novos, o que até agora foi achado constitui um espólio de grande importância para a história do concelho. História que mudou em 1994, quando obras de terraplanagem nas proximidades da antiga ermida da Quinta de S. Pedro deixaram à mostra diversas sepulturas.
“Até ao momento, foram exumados cerca de 200 indivíduos, entre homens, mulheres e crianças, que terão sido sepultados entre a segunda metade do séc. XIII e início do séc. XVII”, explicou ao Correio da Manhã Jorge Raposo.
O estudo antropológico das ossadas, realizado no Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra, deu a conhecer as práticas sociais associadas à morte, as características físicas, os hábitos alimentares, os cuidados de saúde, as principais actividades físicas praticadas e as patologias dos habitantes de Corroios no final da Idade Média e início da Idade Moderna.
“Esta era uma zona pouco povoada com uma população dedicada à produção agrícola. O estudo antropológico define um padrão de actividade física intensa, compatível com o que seria de esperar de quem enfrentou a dureza do trabalho no campo”, observou o arqueólogo.
O esqueleto mais antigo encontrado data de meados do séc. XIII (1260) e o mais recente de príncipios do séc. XVII (1610-20).
DIETA CARIOGÉNICA
Em termos de idade, foram exumados desde fetos até indivíduos com idades a rondar os 60 anos. “Esta longevidade é rara, já que na altura a esperança média de vida oscilava entre os 40 e os 50 anos”, comentou aquele responsável.
Além de apresentarem estaturas baixas ou medianas, estes indivíduos quase não tinham dentes, o que prova uma dieta cariogénica, rica em hidratos de carbono. Entre as patologias detectadas, destacam-se as lesões no calcâneo, problemas de crescimento e um caso de tuberculose numa mulher que terá morrido entre os 19 e os 24 anos.
Nas sepulturas, foram ainda encontrados diversos objectos, como fragmentos de cerâmica, faiança e vidros, pedaços de ferro, alfinetes que prendiam a mortalha e moedas antigas colocadas na mão da pessoa enterrada.
As ossadas humanas bem como os objectos encontrados vão ficar em reserva no Ecomuseu Municipal e, posteriormente, serão reunidos num Centro de Interpretação a instalar na Quinta de S. Pedro.
As escavações prosseguem até final do Verão, à vista de quem estiver interessado: nos dias úteis, basta deslocar-se ao local mas ao fim-de-semana é exigida uma inscrição prévia para o número de telefone 21 227 62 90.
ACHADOS IMPORTANTES
Além das campanhas de escavação realizadas na Quinta de S. Pedro, a zona de Corroios foi alvo de diversas intervenções que trouxeram à luz o dia achados importantes para o conhecimento das populações do passado.
Entre 1983 e 1984, na Igreja Paroquial de Corroios, foram descobertas ossadas dos sécs. XV e XVII. Já na Quinta do Rouxinol foi encontrada uma olaria romana, com alguns fornos que datam do séc. II e princípio do séc. V. Outra vila romana – séc. I e séc. IV – foi achada na Quinta de S. João, situada na outra margem da baía do Seixal.
OSSADAS REVELAM INFORMAÇÕES VALIOSAS
OS ENTERROS
No final da Idade Média, início da Moderna, as pessoas eram enterradas em valas simples, sem caixão ou espólio. As valas eram reutilizadas para colocar mais do que um indivíduo, o que poderá, eventualmente, ilustrar algum laço de parentesco entre as pessoas sepultadas. Os indivíduos eram enterrados no solo segundo a orientação cristã clássica (Nascente/Poente): envoltos num sudário, os corpos foram deitados sobre o dorso, com as pernas unidas e esticadas e os braços cruzados sobre o peito ou o ventre.
AS PESSOAS
A grande maioria dos ossos estava em bom estado de conservação e o seu estudo forneceu informações valiosas sobre os indivíduos: cerca de 1,60 metros de altura para homens e 1,50 para mulheres, geralmente muito robustos, com patologias que revelam ausência de higiene oral e de cuidados médicos bem como a prática de dietas alimentares ricas em hidratos de carbono e frutos. Eram frequentes as patologias infecciosas e traumáticas, com particular incidência nas de carácter degenerativo, ao nível das articulações e não só.
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