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Esteves sem Metafísica: quando um peito inquieto sabe contemplar

Dois anos depois da estreia, Teresa Esteves Fonseca já trabalha no segundo disco de originais. O pretexto para fazer uma pequena retrospetiva de um ainda curto trajeto mas que este ano já a levou ao Nos Alive.

05 de outubro de 2026 às 18:34

É um dos projetos mais excitantes e apreciáveis da nova música portuguesa. Em tempos em que a palavra corre rápido, Teresa Esteves da Fonseca prefere adorná-la e servi-la com tempo em pratos limpos. Não há grandes explicações filosóficas, nem interpretações extraordinárias do mundo e muitos menos pretensões metafísicas. Há canções que pretendem apenas fazer-se ouvir, que reclamam apenas por atenção para lá da espuma dos dias. "Sei que toda a música que se faz em Portugal e que não está imediatamente ligada ao mainstream, leva sempre muito tempo a levantar voo e implica muito trabalho", diz a cantora que, em 2024, se lançou nas lides profissionais com o sugestivo nome artístico de Esteves Sem Metafísica. Na altura, o disco 'de.bu.te' denunciava "um peito inquieto que sabe contemplar" e que hoje parece certo que veio para se dar de volta a quem a quiser escutar. 

O seu ainda curto percurso culminou em julho deste ano no Nos Alive, naquela que foi a sua primeira grande apresentação num festival onde nunca tinha estado. Foi ali que encerrou inesperadamente a digressão, depois de ter assistido, na véspera, ao concerto de Nick Cave. A experiência foi uma prova de fogo que veio deixar caminho aberto para o futuro. "Foi uma coisa que não estava muito à espera. Estávamos muito limitados de tempo e era o último dia, mas a verdade é que acabou por juntar muita gente e ser uma experiência inesperadamente boa". Pela frente até poderá estar agora uma experiência no estrangeiro, isto depois de já ter sido falada em Espanha. "Há uma pequena relação Portugal-Irlanda que tem a ver com uma obsessão muito antiga que tenho com aquele país e com a música Irlandesa. Está já alguma coisa a ser preparada com uma cantora Irlandesa" revela. 

Na calha está, entretanto, um novo disco que em breve poderá começar a fazer-se ouvir e no qual a palavra volta a ser personagem central. Sempre. Sem concessões. "É um disco que vai continuar a ter uma componente literária muito grande. Não quero dar uma de intelectualoide porque eu não me considero uma intelectual mas sim uma consumidora de literatura. Mas é, para mim, uma coisa que é muito estrutural e muito importante", diz, revelando: "Há um escritor português meio esquecido que vou usar como ponto de partida que é o Ruben A". 

Foi lá onde nasceu, na Arruda dos Vinhos, entre a paisagem e a tranquilidade da natureza que Teresa começou a interessar-se pelos caminhos da música. "Ela sempre esteve presente na minha vida desde cedo. É uma coisa que vem de casa e do facto de ter estado desde muito cedo ligada a coros de igreja e de ter aprendido a tocar com amigos", explica, lembrando ainda as viagens de carro com a família. "O meu pai fazia compilações e nós fazíamos essas viagens inteiras a ouvir música". 

Formada em Artes e Humanidades pela Faculdade de Letras de Lisboa, iniciou o seu percurso criativo entre a crítica literária e musical, com textos publicados na revista Brotéria (publicação cultural de inspiração cristã) desde 2018. Ainda frequentou casas de fados e sempre andou mais à vontade com a voz do que com a guitarra. "Tocar sempre fiz muito sozinha em casa e demorei até tocar fora porque nunca tinha muita segurança das minhas capacidades como guitarrista. Depois começou a dar-me mais gozo", diz. A profissionalização aconteceu quase de forma inesperada. "Foi um passo que eu não estava propriamente a querer dar no sentido de querer fazer disto vida, mas quando comecei a compôr fui-me cruzando com músicos e entusiasmei-me", remata.  

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