A Disney tem longa tradição no território lucrativo da animação tradicional, mas tem sido algo eclipsada desde que adquiriu a Pixar, ainda o mais perfeccionista dos estúdios em matéria de primor visual e argumentos sólidos. Depois de algumas experiências modestas (onde se inclui ‘Kenai e Koda’ ou ‘Chicken Little’), nada como revisitar o modelo de conto de fadas, introduzindo pela primeira vez uma protagonista negra.
‘A Princesa e o Sapo’, que chega esta quinta-feira às salas nacionais, é o mais sólido contributo do estúdio para lembrar as boas memórias cinéfilas conseguidas com ‘A Pequena Sereia’ ou ‘A Bela e o Monstro’. Nesta produção inspirada, onde o desenho mostra que ainda é o território estilisticamente mais livre, nenhum ingrediente está em falta para agradar a largas faixas de público. Não é de estranhar que o filme tenha sido um êxito por onde tem passado e está nomeado para três Óscares (Melhor Filme de Animação e duas indicações para as músicas ‘Almost There’ e ‘Down in New Orleans’, numa banda sonora equilibrada de Randy Newman).
Nesta animação, polvilhada de números musicais dinâmicos, há uma inversão das coordenadas tradicionais das histórias de encantar: aqui o beijo no sapo tem um estranho efeito, a heroína é trabalhadora e modesta, a princesa platinada é irritante e convencida, o cavalheiro cobiçado tem um ego desmesurado e gosta pouco de gente pobre e os animais do pântano não são propriamente afectuosos – tratam-se de um divertido crocodilo que sonha ser trompetista e um pirilampo desdentado.
Tiana, que na versão portuguesa tem a voz de Ana Vieira nas falas e da manequim Nayma nos números musicais, é uma jovem negra com um sonho: abrir um restaurante seu para cumprir o velho desejo do pai. Mas aqui nada é fácil. Um estranho feitiço leva-a para uma jornada atribulada no já referido pântano, enquanto um vigarista com um pacto sombrio sonha com a fortuna e o poder de um príncipe que se vê enredado no corpo viscoso de um sapo.
É certo que já se sabe como tudo vai acabar – em bem! – mas a acção de ‘A Princesa e o Sapo’ finta a maior parte dos lugares seguros dos filmes de animação e diverte-se com isso. Depois, a heroína negra tem um ímpeto incomum e serve de ponte para uma bem disposta viagem por Nova Orleães e o jazz. O facto da história mergulhar neste género musical só tem a ganhar com isso porque se evitam os números xaroposos das baladas que costumam acompanhar este tipo de filmes e dá-se espaço ao swing e a uma dose considerável de improviso.
Realizado por John Musker e Ron Clements, equipa responsável por ‘A Pequena Sereia’ e ‘Aladdin’, o filme não deixa saudades em relação ao fenómeno pomposo do 3D. É um excelente interregno, uma oportunidade para lembrar que a animação tradicional deve manter-se como recurso para histórias em que o aspecto lúdico se traduz em novas visões sobre o imaginário da fábula. Todos saem a ganhar com isso.
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