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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Luís Cília, um dos mais importantes nomes da música de protesto em Portugal, lança a sua primeira biografia

Livro biográfico conta com vários depoimentos e toda a discografia do músico.

27 de dezembro de 2024 às 01:30

Fugiu de Portugal, em 1964, num Fiat 600 a acompanhar um capitão desertor que no dia seguinte deveria embarcar para Moçambique com destino à guerra. “Fui com ele e com a mulher que estava gravidíssima até à fronteira de Vilar Formoso e de lá partimos para França”, recorda ao CM Luís Cília, hoje com 81 anos, mas que à data da fuga tinha 21 acabados de fazer. Quando chegou a Paris encontrou um país que pouco ou nada sabia do que se passava em Portugal e foi lá que começou a denunciar, através da música, a guerra colonial e a falta de liberdade em Portugal. “Em França eu podia cantar abertamente porque, na altura, Portugal era pouco conhecido por lá. As pessoas até confundiam com Espanha.” As realidades eram tão diferentes que quando regressou a Portugal, dez anos depois, após a Revolução, até o acusaram de ser burguês por trazer uma aparelhagem comprada ao músico Paco Ibañez.

Estas e outras histórias estão agora contadas em livro na primeira biografia de Luís Cília, um dos mais relevantes autores da história da música popular portuguesa do século XX e que, juntamente com José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, foi um dos precursores da balada de conteúdo político antifascista no nosso país. Ainda assim desmistifica: “As canções nunca tiveram toda a importância que as pessoas que lhes quiseram dar. Eram apenas um grãozinho de areia que transportávamos.”

O livro agora editado entre nós, e que apresenta importantes depoimentos de figuras como Jorge Sampaio, José Mário Branco, Silvio Rodríguez, Manuel Alegre, Paco Ibañez ou José Saramago, inclui a discografia completa do autor e um CD extra com os temas de bandas sonoras, compostas pelo músico entre 1967 e 2022. “No princípio fiquei muito cético em relação a este livro porque sempre fui o rei das não vendas”, ironiza.

Nascido no Huambo, em Angola, a 1 de fevereiro de 1943, foi por lá que começou a interessar-se por música, “por causa dos discos do Elvis Presley trazidos pelos filhos de uma família amiga que ia muitas vezes à África do Sul”, conta. Em 1959 veio de Angola para Portugal, para prosseguir os estudos, tendo em 1962 conhecido o poeta Daniel Filipe, que o incentivou a musicar poesia. “A ele devo-lhe tudo”, garante Luís Cília. O último disco foi lançado nos anos 90, com poemas de David Mourão-Ferreira. Nos últimos anos tem-se dedicado à composição, nomeadamente para teatro, bailado e cinema.

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