Apareceu nos ecrãs em 1958 onde ficou durante 12 anos. Será para sempre uma figura da TV.
Um ano depois de começar a emitir pela primeira vez, a RTP foi ao Liceu Francês, em Lisboa, fazer uma reportagem sobre uma peça de Molière em que participava uma professora de trabalhos manuais perante a qual a equipa da televisão ficou imediatamente rendida.
Maria de Lourdes Modesto, assim se chamava a jovem professora, foi logo ali convidada para fazer um programa cultural na televisão. Recusou o que lhe propunham, mas aceitou fazer um outro formato, orientado para o público feminino.
O primeiro programa tinha como tema os arranjos de flores, mas Maria de Lourdes optou por mostrar como cozinhar e comer alcachofras, com uma naturalidade tal que durante 12 anos cozinhou em direto frente às câmaras de televisão, sem nunca se atrapalhar ou perder a espontaneidade que sempre a caracterizou.
Foi por isso a pioneira portuguesa do ‘live cooking’ (e uma das primeiras caras conhecidas da televisão portuguesa) e o sucesso do formato, que partiu da sua paixão pela cozinha alentejana, levou-a a estudar a culinária francesa e as tradições gastronómicas portuguesas.
O ‘The New York Times’ chamou-lhe, num artigo de 4 de março de 1987, ‘Portugal’s Julia Child’, em alusão à cozinheira americana que se tornou uma celebridade da televisão.
Passaram mais de seis décadas da sua estreia televisiva e a jovem Maria de Lourdes que levou uma pétala à boca no primeiro programa comemorou 91 anos no dia 1 de junho com mais um livro (tem mais de duas dezenas publicados, além de traduções de obras internacionais): ‘Coisas Que Eu Sei’ (Ed. Oficina do Livro), compilação de crónicas sobre cozinha nacional e receitas, com ilustrações de João Pedro Cochofel.
Nele estão as duas receitas que publicamos na página ao lado, ambas da cozinha do Barreiro. "Folheando qualquer caderno de receitas de cozinha de uma família barreirense, é flagrante a presença das cozinhas do Alentejo e do Algarve" o que, explica, não é de estranhar: "Contam-se por dezenas as histórias sobre gente daquelas terras que, vindas por aí acima em busca de melhor vida, chegando ao Barreiro viram ali a terra ‘prometida’. Por lá ficaram, mantendo e influenciando a cultura local com muitos dos seus hábitos."
Maria de Lourdes diz que no seu caderno de receitas da região encontrou "verdadeiras pérolas". "Sobre a sopa de amêijoas que a seguir descrevo, direi apenas: magnífica! Já à chibança de bacalhau, cujo nome me obrigou a consultar os dicionários, terei de fazer um comentário.
O que quererá dizer ‘chibança’? Segundo apurei, nada mais nada menos do que prosápia, bazófia. Se gosto mesmo do nome, não o posso considerar menos apropriado: a chibança do Sr. Raposeiro [um senhor de Pegões, que em 1961 enviou à cozinheira duas receitas da sua lavra] está longe de ser um embuste, é uma coisa mesmo boa. Mantenha-se o nome, porque é giro, e um mistério para quem vem de fora", escreveu.
Pelo caminho deixa ainda sugestões.
Sobre a curgete, "um forte aliado das dietas de emagrecimento", Maria de Lourdes diz que "como gordura, prefere o azeite, e a sua polpa suave incita-nos a ligá-la ao alho, ao tomate e aos aromas do manjericão, do tomilho e da hortelã". E também conselhos: "Se aproveitou a hora de almoço para ir ao ginásio e ficou sem tempo para almoçar, a sanduíche é a solução para ter ao mesmo tempo uma refeição ligeira, equilibrada e até gastronómica."
Em ‘Coisas Que Eu Sei’, Maria de Lourdes Modesto reflete sobre a cozinha tradicional portuguesa, resgata sabores da sua infância e partilha receitas com história (entre as quais a dos crepes Suzette e a das areias de Cascais), outras incontornáveis - como arroz-doce, pudim flã ou marmelada -, além de saberes em torno dos pilares da nossa alimentação.
Trabalho publicado originalmente na revista Domingo em junho de 2021
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