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Cultura

Morreu autor de ‘O Que Diz Molero’

O escritor e jornalista Dinis Machado, que morreu ontem, aos 78 anos, vítima de cancro do pulmão, lançou apenas seis livros durante a sua vida – alguns originais que deixou vão chegar às livrarias nos próximos meses – mas bastou- -lhe uma obra para conquistar lugar de destaque na literatura portuguesa.

4 de Outubro de 2008 às 00:30
Morreu autor de ‘O Que Diz Molero’
Morreu autor de ‘O Que Diz Molero’ FOTO: Antonio Cotrim, Lusa

Tinha 47 anos, passagens por muitos jornais e três livros policiais quando, em 1977, escreveu ‘O Que Diz Molero’, onde Mister DeLuxe e Austin lêem o relatório elaborado por Molero sobre a vida (e as figuras pitorescas que nela aparecem, como o ‘Peida Gadocha’) de alguém referido apenas como 'o rapaz'.

'Foi o primeiro ‘best-seller’ do pós-25 de Abril, apesar de ele ter aparecido com aquilo sem saber que era um grande livro', disse ontem ao CM o escritor e editor Francisco José Viegas, que conviveu com um autor que 'nunca largou as cigarrilhas' e foi um escritor 'da rua'. 'Ainda hoje não há oralidade na literatura portuguesa como em ‘O Que Diz Molero’', acrescenta Viegas.

Também recordada por Nuno Artur Silva, que em 1994 adaptou para o teatro o livro de Machado, é a modéstia do autor. 'Disse até ao último momento para não nos metermos naquilo. ‘Vejam lá... Isso é capaz de não ser bom para vocês. Vão perder dinheiro.’', insistia antes da estreia. Depois ficou emocionado – e foi contrariado pela bilheteira.

O corpo do escritor ficou ontem em câmara ardente na Igreja da Encarnação, no Chiado, e o funeral segue hoje, às 16h00, para o cemitério do Alto de S. João.

POLICIAIS SOB PSEUDÓNIMO

Entre as obras que Dinis Machado deixou inéditas uma delas aparecerá nas livrarias com outro nome na capa. ‘Blackpot’, que a Assírio & Alvim prevê editar em 2009, é mais um dos livros policiais em que o português recorreu ao pseudónimo Dennis McShade, autor de ‘Mão Direita do Diabo’, ‘Requiem para D. Quixote’ e ‘Mulher e Arma com Guitarra Espanhola’, todos escritos em 1967 e 1968.

PERFIL

Dinis machado nasceu em Lisboa há 78 anos e ao longo de toda a vida foi um homem da cidade. Em especial doBairroAlto, onde recolheu as memórias que deram origem a ‘O Que Diz Molero’. Fez carreira como jornalista desportivo e crítico de cinema.

"UM GRANDE ESCRITOR E EXCELENTE CONVERSADOR" (Mário Zambujal, Escritor e amigo de Dinis Machado)

Correio da Manhã – O que se diz e se sente ao perder um grande amigo como o escritor Dinis Machado?

Mário Zambujal – Além do sofrimento automático que se sente ao receber uma notícia destas, tende-se a dizer coisas bonitas sobre o amigo que perdemos.

– Como recorda a sua obra?

– Era um grande escritor, com uma produção relativamente pequena, mas que fica gravado como um grande nome da Literatura Portuguesa, em especial por ‘O Que Diz Molero’. Há uns anos fiz uma apresentação de um livro dele – ‘Reduto Quase Final’ (1989) – que era muito amargo, escrito numa fase quase de desistência em que ele parecia estar até a despedir-se dos seus leitores...

– Esse acabou mesmo por ser o seu último livro...

– E eu disse mesmo na apresentação que ele não tinha o direito de desistir, que tinha quase a obrigação de continuar a brindar os portugueses com a sua prosa extraordinária.

– Como homem e amigo, como o lembrará?

– Como um homem de Lisboa, do Bairro Alto, conhecedor da Lisboa profunda e castiça. Era um grande senhor e um excelente conversador. Passávamos horas à conversa. Era um grande prazer falar com ele.

– De que assuntos conversavam em especial?

– Sobre cinema, muito. Livros, banda desenhada, pela qual ele era um total apaixonado... Futebol e mulheres, claro.

– Como se conheceram?

– Nos anos 70 fomos apresentados pelo fotógrafo Augusto Cabrita, que já não está entre nós. E saímos muito, a bares, beber copos, também com o Cardoso Pires, que já faleceu. Mas nos últimos tempos não me tinha cruzado com o Dinis Machado; a vida leva-nos para caminhos diferentes... Mas é muito amargo receber a notícia da morte dele.

 

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