Adriana Calcanhotto inicia hoje em Lisboa uma pequena digressão por palcos lusos. Em entrevista ao CM, a cantora brasileira explica quais as diferenças que a distinguem da ‘menina Partimpim’.
Correio da Manhã – O disco ‘Adriana Partimpim’ versa sobre o universo infantil. É um ‘regresso’ à infância?
Adriana Calcanhotto – Não o encaro como um resgate da minha infância. É um disco (e um espectáculo) sobre a maneira que só as crianças têm (e que depois se perde) de lidarem com o Mundo. No espectáculo ‘Partimpim’ não são apenas tocados instrumentos, mas também brinquedos, objectos do universo infantil.
– De qualquer forma, o título do disco está relacionado com uma ‘alcunha’ da sua infância...
– “Partimpim foi um nome que inventei para mim. Apresentava--me como Adriana Partimpim e não como Calcanhotto. O meu pai achou tão engraçado que ainda hoje continua a chamar-me assim. Mais tarde, acabei por assumi-lo como um heterónimo”.
– Em que é que a Adriana Partinpim é diferente da Calcanhotto?
– A Partimpim tem como uma meta mudar o Mundo, é por isso que ela faz música. A Calcanhotto não lida com essa ideia: é muito contida para ter uma meta dessas.
– Tem sempre uma grande preocupação estética e conceptual nos seus trabalhos.
– Dá-me imenso prazer encadear a música, as palavras e as imagens. Os meus espectáculos, mais do que recitais de música, são teatro. Há uma grande componente cénica e uma grande preocupação com os cenários e os figurinos.
– No tema ‘Formiga Bossa Nova’ contou com a colaboração de António Chaínho. Como surgiu essa parceria?
– Quis remeter para o disco aquele barulhinho da guitarra portuguesa, que parece patinhas de formigas. Considero o António um músico excepcional, que tem um objectivo de que sou cúmplice: contaminar o Mundo com a guitarra portuguesa.
– Qual tem sido a reacção dos mais pequenos a este espectáculo?
– Ficam hipnotizados e muito concentrados e, os adultos, por seu turno, comovidos. Não é um espectáculo só para crianças. É muito bonito visualmente e colorido.
– É filha de um músico e nasceu num país com grande tradição em vozes femininas. De que forma tudo isto a influenciou?
– O facto do meu pai ser músico deu-me o privilégio de ouvir muita música e descobrir vários estilos. Ouvi quase todas aquelas cantoras que prezam muito os textos e as palavras e tudo isso foi uma influência fortíssima. Mas também não me encaixo na tradição das cantoras de Música Popular Brasileira (MPB) porque eu tenho um projecto híbrido, sou também autora e desenvolvo outros projectos. Não me sinto pressionada pela tradição.
– E como concilia a tradição com o experimentalismo?
– Não pensando sequer nisso, fazendo as coisas como elas surgem. O projecto Partimpim impulsiona a experimentação sem assustar as pessoas que, regra geral, têm uma certa resistência às experiências. Na verdade, a experimentação é, em primeiro lugar, uma coisa do mundo infantil.
– Gravou poemas de Alexandre O’Neil e Mário de Sá Carneiro. Planeia revisitar mais autores portugueses?
– Claro. Espero gravar mais alguma coisa de autores portugueses ou mesmo fazer um trabalho integralmente dedicado a essa ideia.
– Há alguns anos acrescentou um ‘T’ ao apelido. Porquê?
– Na verdade, o meu nome original é com dois ‘T’, mas no início da minha carreira as pessoas tiveram uma dificuldade enorme em escrevê-lo correctamente e, por isso, decidi retirar a dupla consoante. Mas depois comecei a pensar que se os brasileiros conseguem escrever Schwarzenegger correctamente por que não haviam de fazê-lo com Calcanhotto?
DIGRESSÃO PERCORRE PORTUGAL
Adriana Calcanhotto apresenta ‘Partimpim’ no Coliseu dos Recreios hoje, amanhã, pelas 22h00 e domingo, às 18h00. Os preços dos bilhetes para os espectáculos em Lisboa custam entre 20 e 60 euros.
Nos dias 21 e 22, a cantora ruma ao Coliseu do Porto, espectáculos para os quais os bilhetes custam entre 40 e 20 euros. O início está marcado para as 22h00. A digressão de Calcanhotto por palcos lusos inclui ainda Aveiro onde, a 24, actua no Cais da Fonte Nova. Aqui, os bilhetes custam 10 euros. O Pavilhão Multiusos, em Guimarães recebe-a a 25, para um espectáculo único, para o qual os bilhetes podem ser adquiridos por 10 e 30 euros.
Filha de um baterista de jazz, que tocou com Elis Regina, Adriana Calcanhotto estreou-se a cantar em pequenos bares de Porto Alegre, a sua cidade onde nasceu há 39 anos.
Actualmente é um dos nomes mais representativos da nova geração da música brasileira, tendo já editado oito discos: ‘Enguiço’, ‘Senhas’, ‘Fábrica do Poema’, ‘Maritmo’, ‘Público’, ‘Perfil’, ‘Cantada’ e ‘Adriana Partimpim’. Nos seus trabalhos, contou com a colaboração de alguns dos maiores nomes da música brasileira, casos de Chico Buarque ou Dorival Caymi.
Apaixonada pela magia das palavras, Calcanhotto escolhe criteriosamente os poemas que grava, entre os quais se podem encontrar versos de autores portugueses como Alexandre O’Neil ou Mário de Sá Carneiro.
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