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Correio da Manhã

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Natalina José: “A minha reforma não me deixa parar”

Aos 73 anos, a popular actriz anda em digressão com a companhia de Octávio de Matos, onde ganha à bilheteira.
1 de Outubro de 2012 às 01:00
Natalina José iniciou a sua carreira artística como cantora, mas o amor à representação acabou por falar mais alto
Natalina José iniciou a sua carreira artística como cantora, mas o amor à representação acabou por falar mais alto FOTO: João Miguel Rodrigues

Correio da Manhã – Cinquenta anos de teatro merecem um balanço. Costuma fazê-los?

Natalina José – Não. Mas em cinquenta anos de trabalho, há coisas que me orgulho de ter feito. Os programas com a Marina [Mota], por exemplo, mulher que que este País esqueceu.

– Esqueceu?

– E não só ela. O Camilo de Oliveira, por exemplo. É outro caso flagrante. Um homem sem idade, que nunca foi homenageado. Depois de morto, não interessa nada. As pessoas têm de ser estimadas em vida...

– Sente-se maltratada?

– Ignorada. Nunca fiz uma capa de revista ou jornal, por exemplo. Parece que este País não gosta da cultura e dos seus artistas.

– Começou na música, ao vencer um concurso de fado...

– É verdade. O maestro Alves Coelho Filho gostou de me ouvir, levou-me para a televisão e depois para a revista que estava a preparar. Acabei por ir fazendo umas rábulas, de que gostei tanto que deixei as cantigas.

– No teatro, cumpriu a vocação?

– No teatro fiz de tudo. Aliás, acho que na minha carreira só me falta fazer Ópera. De resto, estreei-me numa opereta, fiz comédia, drama, teleteatro, telenovela, cinema, telefilmes...

– Mas a revista foi especial?

– Fiz revista quando a revista estava no auge. Quando o Parque Mayer tinha quatro teatros a funcionar em pleno, esgotados. Graças a Deus apanhei isso.

– Tem saudades desses tempos?

– Não sou saudosista, mas guardo boas recordações daqueles tempos. E das pessoas especiais com quem pude trabalhar.

– Quem gosta de recordar?

– Tive a felicidade de trabalhar com a Aida Baptista, que me ensinou muito. Só de a ver em palco. Era um fenómeno. Depois a Ivone Silva, com quem trabalhei oito anos. Era uma mulher excepcional. E depois a Marina.

– Quando começou a trabalhar com a Marina Mota já era um nome consagrado...

– Mas ela ensinou-me muito, apesar de ser mais nova. Nós aprendemos sempre com as pessoas de grande talento e ela é um verdadeiro piolho de teatro. 

– Agora voltou à revista, com a companhia do Octávio de Matos?

– Há cinco anos que andamos em tournée, com duas revistas diferentes. Como as câmaras deixaram de ter dinheiro para nos pagar, vamos à bilheteira.

– Não pensa parar e descansar?

– Com a reforma que eu tenho? Recebo 363 euros por mês. A minha reforma não me permite parar. E não gosto de estar parada.

– Na sua apreciação, o meio artístico melhorou ou piorou em 50 anos?

– Piorou em quase tudo. Não se investe na qualidade. Nunca mais se fez um ‘Sabadabadu’ [com Camilo de Oliveira e Ivone Silva], por exemplo.

– E os salários?

– Hoje, paga-se menos do que quando comecei. E o trabalho é muito mais escravizante. Vai-se para o estúdio às oito e termina-se às duas ou trêsda manhã. A produção de telenovelas tornou-se uma fábrica.

PERFIL

Natalina José da Silva Soares nasceu a 10 de Janeiro de 1939, no Estoril, onde reside. Fez 32 revistas, interpretou teatro, televisão e cinema. Fez tournées como cantora e actriz. Foi a Melhor Actriz de Revista de 1987. Tem uma filha de 42 anos e um neto com 13.

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