<p align="justify" class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 10pt">A propósito da nova animação a que o ator empresta a voz, falámos com Nicolau Breyner sobre de tudo um pouco. Do início de carreira, da família, do cancro que superou, do estado do cinema em Portugal e do novo filme que faz com António-Pedro Vasconcelos, ‘Os Gatos Não Têm Vertigens’. E até do novo projeto que terá com Jeremy Irons...
Correio da Manhã – No seu entender, representar só com a voz, como faz de novo em ‘Gru – O Maldisposto 2’, será também uma forma de representar?
Nicolau Breyner – É uma forma de representar, claro. Para já, o ‘Gru’ é um boneco, não é uma pessoa. E é um boneco que foi concebido numa língua estrangeira.
- Foi um trabalho difícil?
- Sim, não é fácil fazer dobragens. É tudo feito quase à sílaba.
- Ainda por cima com um sotaque...
- Sim, com um sotaque. Agora eu lembro-me de fazer dobragens quando era ainda muito novo para filmes estrangeiros em Portugal. Depois parei, talvez durante 40 anos. E depois fiz estes dois filmes.
- Como é que o Nicolau vê este ‘Gru’? No primeiro filme é um vilão mas agora aparece mais suave...
- Eu gosto muito deste ‘Gru’. É um rezingão, um maldisposto.
- Partilha de alguma dessa ‘má disposição’?...
- Sou completamente assim. Sou maldisposto e às vezes preguiçoso.
- Também temos esse direito, não é?
- Quando se chega à minha idade esse direito está adquirido. Sou rezingão, às vezes também maldisposto. Mas este Gru é um coração de ouro, adora aquelas crianças.
- Lembra-se de quando era assim criança?
- Claro que me lembro. Foi há muitos anos. Lembro-me da minha infância, que foi muito boa. Há cento e tal anos...
- E lembra-se quando esta magia para a representação começou a despertar em si?
- É uma coisa que nasce connosco. Ou se tem ou não tem. Não se aprende a representar. Dentro de nós a capacidade de fazer isto ou aquilo. Depois há aqueles que são fora de série e os outros. Quantos atores espantosos terão escolhido outras profissões? No meu caso quando pensei começar a representar, teria uns doze anos.
- Foi cedo...
- Mas não foi seguido. Entretanto, fiz o liceu, depois entrei para a Faculdade. Entretanto comecei a cantar, adoro cantar ópera. Fui para o Conservatório deixando contrariada a minha família, que era muito conservadora. Depois foi o percurso normal.
- Normal para si, porque para muitas pessoas...
- Normal, porque fui para o Conservatório, acabei o Conservatório, depois entrei numa companhia de teatro. Fiz o percurso normal de um ator na altura.
- O que eu queria dizer é que o Nicolau é ator, mas também encenador, realizador...
- Ah, sim, sim. Sou imensas coisas. Sou ator, sou cantor, sou realizador. Mas isso acho que nasceu um bocado comigo. Cedo me apercebi que havia coisas que gostava de ser eu a fazer. Gostava de ser eu a dirigir as coisas.
- Quando olha para trás na sua carreira imensa, com uma presença enorme na televisão, que programas mais o marcaram?
- É claro que a ‘Vila Faia’ foi um marco na televisão portuguesa, porque era a primeira novela. Foi uma aventura espantosa. Numa altura em que não se fazia ideia de como se fazia uma novela. Mas fizemos.
- Acha que agora as novelas portuguesas já não ficam atrás das brasileiras?
- Já não. Há muito tempo. Vê-se nas audiências. Apesar de terem descido. Por isso, acho que se deve rever o conceito das novelas portuguesas. Acho que os produtores e argumentistas deveriam parar para pensar o porquê de uma série de coisas. Mas acho que provámos que éramos capazes. Já ganhámos prémios. Isso para mim já é muito bom.
- No cinema, paradoxalmente, não demos o salto que deveríamos ter dado.
- Não, faz-se muito pouco cinema em Portugal. O que é isso? Não é nada. Se calhar não se pode fazer mais por razões monetárias. Mas enquanto não fizermos muito cinema, não podemos fazer bom cinema. Fizeram-se uma série de erros. Fizemos o cinema popular, depois o cinema dito comercial, depois o cinema intelectual. Enquanto não se fizer muito cinema em Portugal, isso não é nada.
- O Nicolau continua a ir ao cinema?
- Isso sim. Ainda que seja o cinema a ir mais lá a casa...
- Está agora a trabalhar com o António-Pedro Vasconcelos...
- É um pequeno papel. Mas eu tenho de entrar sempre nos filmes do António-Pedro...
- O que se pode saber desse projeto, ‘Os Gatos Não têm Vertigens’?
- O que se pode saber é que o filme começa com a minha morte. E posso dizer que morro logo. É a “história de um amor que nem a morte separou” como alguém escreveu no jornal. O homem morre, mas aquele amor continua. Quando começa o filme é a minha morte, depois apareço apenas como um fantasma. Só ela é que vê.
- O Nicolau como é que se define melhor: como realizador, como ator, como marido, como pai...
- Nunca me dei ao trabalho de me definir. É uma coisa altamente restritiva.
- São estas perguntas de jornalistas...
- Não, não, eu percebo isso. Mas nós não somos uma coisa. Nós somos feitos de várias coisas. Pelo menos as pessoas como eu, que viveram várias coisas, que foram casados, tiveram desgostos, tiveram alegrias, tiveram amigos, viveram mortes... Viram-se muitos filmes, ouviram-se muitas músicas. Milhões de coisas. Não me consigo definir. Sou um ser humano. Estou a passar por esta vida, que é uma coisa muito breve, fazendo o menos mal possível às pessoas e tirando da vida o melhor que ela tem. Mais nada.
- A última vez que o vi, foi quando foi a apresentação de ‘O Comboio Noturno Para Lisboa’. Como foi essa experiência?
- Foi muito interessante. Estaremos a começar outro num dia destes...
- Ah sim? Com o Bille August?
- Com o Bille August e talvez também com o Jeremy Irons. Há um projeto. Mas, para além de tudo, ficámos amigos. Almoçámos, jantámos, apresentei-lhes amigos meus.
- Apanharam o melhor comboio possível para Lisboa...
- Claro que sim. O Jeremy Irons é espantoso. Tenho vários amigos que não vivem cá e não deixam de ser meus amigos. Por exemplo, o Jô Soares, passam-se meses que não falamos e de repente falamos como se tivesse sido ontem.
- O Nicolau sente que ainda tem alguns projetos para cumprir?
- Acho que sim. Acho que tenho de fazer melhor coisas que tenho feito e deixar de fazer outras. Quero fazer mais e melhor. Tenho uma família ótima. Tenho 72 anos e, graças a Deus, tenho saúde. Tive uma porcaria de um cancro que agora está controlado. Tenho uma saúde ótima. Não me queixo de nada. Quero continuar a trabalhar. Até porque não sou rico. Mas sobretudo porque gosto de trabalhar.
- O que é que o move? É uma procura de felicidade?
- É tudo junto. É uma necessidade. Fiz o que pude fazer, o que me deixaram fazer e o que sabia fazer. A vida passa tão depressa que não dá para imaginar. No outro dia, a minha filha chegou ao pé de mim e disse-me que tinha acabado o curso (Psicologia empresarial). Tem 22 anos, mas parece que o tempo passou num instante.
- Como é que a sua família acompanha a sua carreira? Há partilha, há crítica
- Há crítica, claro. A mim ninguém me liga. O único sítio onde ninguém me liga nenhuma é em casa...
- Para terminar, e voltando ao filme, diria que este é um filme para crianças ou um filme para a família?
- É claramente um filme para a família. Tal como o outro. Mas, a meu ver, este é mais engraçado.
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