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Zélia Duncan e Zeca Baleiro estão em Portugal para dois espetáculos inéditos. Dia 7 no Coliseu do Porto e dia 8 no Campo Pequeno
Portugal ainda só conhecia a Zélia Duncan e o Zeca Baleiro a solo. O que é que se pode esperar dos dois juntos em palco?Zeca Baleiro - Estamos loucos para saber (risos). Nós temos vindo a fazer este projeto juntos há já três anos no Brasil, mas ainda não tinhamos vindo a Portugal. Surgiu de uma forma inesperada, de um convite para um projeto de duos, mas depois dele decidimos continuar em digressão, mesmo sem nenhum disco gravado. E tem sido um exercício muito interessante porque, entretanto, já fizemos dez canções juntos. Acho que aqui em Portugal se vai inaugurar um novo momento neste projeto porque é a primeira vez que tocamos para um público fora do Brasil. Na verdade não sabemos bem qual será o impacto. Mas claro que esperamos o melhor (risos).
E este espetáculo que trazem é exatamente o mesmo que apresentaram no Brasil, ou por ser em Portugal prepararam algumas mudanças? Zélia Duncan
Um músico consegue redescobrir-se quando partilha o palco com outro? ZB
ZD - É isso (risos). E quando se juntam é uma loucura (risos).
ZB - Tudo isto tem sido muito enriquecedor. Até esta coisa de compôr juntos obriga a um certa generosidade e desapego. É preciso fazer pequenas concessões saudáveis.
ZD - Tudo isto é muito gostoso. Temos toda a intimidade para dizer o que pensamos do trabalho do outro. Vamos negociando prazeirosamente...
Mas discutem muito? ZD
ZB - As dicussões são sempre em prol do espetáculo... na medida do possível, claro (risos)
ZD - E na medida do impossível também (risos)
Como é que os vossos caminhos se cruzaram?
ZD - Conhecemo-nos num programa de televisão no Brasil chamado 'Altas Horas'. Esbarrámos-nos no camarim. Na altura, ele andava com um projeto lindo com uma poetisa brasileira que eu adoro chamada Hilda Hilst. É uma poeta completamente obscura que o Zeca foi buscar. Ele musicou poemas dela e convidou algumas mulheres para cantar. Claro que eu aproveitei quando nos encontrámos na TV e disse-lhe que gostava de ser uma dessas sortudas. Até lhe perguntei: "Quanto é para cantar no seu disco?" (Risos). Se faltar uma vaga eu estou a fim.
ZB - Essa foi a primeira colaboração artística que nós fizemos.
Afinal de contas o que é que cada um de vocês mais gosta no outro?
ZB - Que cilada (risos)... A zélia tem muitas qualidades. Eu já a conhecia antes e já admirava esta veia pop que ela tem que fala ao coração. E depois também a vi trilhar outros caminhos que tem muito a ver com uma certa inquietação, de não se conformar com o lugar conquistado. Devolvendo o elogio que ela já me fez antes (risos) ela tem a capacidade de lançar a luz sobre coisas obscuras e brilhantes. Eu acho que o artista é muito esse garimpeiro que cria a sua própria obra. E depois é uma cantora com uma personalidade incrível.
ZD - O Zeca tem esta coisa de saber olhar fora do umbigo. Ele tem uma editora, por exemplo, que dá visibilidade a artistas da terra dele do Maranhão que é uma terra linda. Ele até escreve peças e livros para crianças. O Zeca é um cara incrível, com uma cabeça aberta. E como eu gosto muito de aprender, eu acho que tenho aprendido muito com o Zeca.
Vocês já atuaram várias vezes em Portugal. Como é a vossa relação com o nosso país?
ZB - Quando vim a Portugal pela primeira vez nos anos 90 eu tive uma sensação curiosa que experimentei poucas vezes na vida. Era como se tivesse vindo a um local que já conhecia de alguma maneira. Isso pode explicar-se de várias formas. Uma delas é familiar. Eu tenho umas tias da Ericeira, que inclusive carregam esse sobrenome, que eu não conhecia e que só soube da sua existência dessa primeira vez que vim a Portugal. Eram tias tipicamente portuguesas que falavam com expressões tipicamente portuguesas e faziam uns bolinhos muitos portugueses. E acho que de alguma forma senti que pertencia a isso. Depois vieram outros encantamentos, nomeadamente pelo povo português que é encantador, o carinho pela música, e o futebol que eu sempre acompanhei lá no Brasil. Fiz muitos amigos dentro da música, dividi o palco com Sérgio Godinho, o Jorge Palma e o Pedro Abrunhosa.
ZD - Eu não tenho antepassados portugueses, mas o meu pai é baiano e sempre me falou de Portugal. Depois em minha casa sempre se leu Eça de Queirós e Fernando Pessoa. E sempre criei um imaginário sobre Portugal. Acho que Portugal e Brasil têm muitos pontos em comum e eu tenho muito orgulho deles. Mesmo esta dorzinha no peito vem da melancolia e da saudade que os portugueses levaram lá para o Brasil no sec.XVI. Eu costumo dizer que nem tudo o que é triste é bonito, mas quase tudo o que é bonito é triste (risos). O que me interessa é emocionar-me com as coisas. Em Portugal eu até me emociono com um pastel de Belém (risos).
Como é que vocês, até pelo facto de serem artistas, têm lidado com os tempos conturbados que se vivem no Brasil? ZD
ZB - Houve uma derrocada no Brasil e há culpados que têm que ser julgados mas não há nada que justifique a obscuridade política que estamos vivendo hoje com um cara como o Temer que é um rato político. Eu acho que este é um tempo de obscuridade que ainda deve durar uns anos, mas eu acredito muito na força do povo brasileiro. Acho que a gente vai sair desse tempo que é uma pequena idade-média que estamos a atravessar.
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