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O COOL DJAVAN

"A linha do homem é recta, curva é a linha de Deus". Esta chave do conceito artístico de Gaudí pode muito bem sintetizar a intenção e a tensão do concerto "Milagreiro", que o cantor brasileiro Djavan revelou no Casino de Espinho, no arranque da mini--digressão portuguesa.

29 de junho de 2003 às 00:00

Enleante, sinuosa, circulante e envolvente, plena de curvas femininas, eis a linha lírico-musical desenhada numa prestação intimista e exuberante em que o samurai da MPB voltou a "caetanear o que há de bom" na sua sina de cantautor.

Era quase meia-noite, quando Djavan Caetano Viana subiu a "Ladeirinha", singela cançoneta, assente na dinâmica camerística do seu quarteto. Muito além da uma da manhã, parecia que uma “big band” tinha invadido o palco, quando o concerto “Acelerou” numa atmosfera dançante ao ritmo pop de "Eu Te Devoro" e "Lilás" ou no embalo nordestino do baião "Farinha".

MILAGRE SEM CÁSSIA

As dezenas de fãs que se abeiraram do palco - com o destacamento feminino em maioria - corresponderam ao apelo do alagoano, hábil a ponto de operar o milagre de arrancar a plateia da passividade bem comportada.

Para essa mutação, "Milagreiro" foi providencial. Imbuída de uma mística exótica, que a morte de Cássia Eller coroou de mitificação, esta melodia de contornos flamencos foi abordada por um “cool” Djavan num solo depurado, compensando a ausência da aura dramática da voz da cantora.

Logo a seguir, antes de revisitar a contagiante "Pétala", interpretou "Imagina", tema de Jobim-Chico Buarque, que nunca gravou, da banda sonora do filme "Para Viver Um Grande Amor", no qual entrou como actor. Esta graciosa valsa bossa novística fechou o círculo da toada lânguida de um repertório que faz nascer a flor do amor até na "Linha do Equador".

Esta parceria com Caetano Veloso comprova que Djavan injecta um balanço "jazzy" mesmo quando mora na melancolia. Se em "A Rota do Indivíduo(Ferrugem)” a austeridade solística impera, arrisca o arrojo da linha curva inserindo a trepidação do pagode em “Flor de Lis” ou ensaiando em “Meu” um samba camerístico capaz de fazer escola .

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