Estranhas estas contradições que os tempos nos trazem: num País em que os valores parecem cair mais desamparados todos os dias, a cada passo, redescobre-se – ou reinventa-se, melhor dizendo – o Fado.
Que é, nos seus múltiplos contornos, nas diferentes matizes que atravessam a sua longa, e por vezes conturbada, história, um inequívoco símbolo mas também uma imagem viva e palpitante da nossa identidade. E que, nos anos mais chegados, nos tem permitido coleccionar nomes e tendências que legitimam o uso da palavra e o gozo efectivo da renovação. Mariza e Cristina Branco, Ana Sofia Varela e Kátia Guerreiro, Joana Amendoeira e Ana Moura são porta-vozes desse reencontro. Mas, permitam-me o livre exercício da subjectividade, talvez a mais completa "porta-bandeira" seja mesmo Mafalda Arnauth, que, ainda antes dos 30 anos, chega ao seu terceiro disco, "Encantamento" (ed. EMI-VC, a publicar amanhã, segunda, 26). E que sabe torná-lo, mais uma vez, imprescindível.
Vale a pena ouvi-la proclamar, como se de um "manifesto" se tratasse, a atitude que soube trazer para o Fado. Está no poema que escreveu para "Sem Limite", um dos 14 passos encantados deste álbum: "E abri as asas/E fui voar/E fui ser tudo o que eu sempre quis/Que o meu limite/Sou eu que traço/E que desfaço/Sempre que eu assim quiser". É assim, a sós com as fronteiras da Alma e do Sentimento, que se vai desenhando esta colecção de quadros que, distintos, são afinal irmãos de sangue. Muitas vezes sem "o suor e as lágrimas" que, por exagero ou por defeito, tantas vezes se colam ao Fado. Para que não restem dúvidas, volta a estar tudo explicadinho pela cantora (se quiserem chamem-lhe fadista), autora e, em aventura peregrina, produtora deste "Encantamento". Cito "Pode Lá Ser": "Troca esse fado, dá a volta à alma/E faz um canto menos só/Troca essa dor por algo melhor/Mesmo que seja em tom menor".
Por outras palavras, digo eu, não é obrigatório que se respire tragédia ou desgraça, desventura ou solidão quando se olha de frente para o Fado. Já outros o provaram? Claro que sim. Os grandes sabem-no bem. E a eles se junta, agora mais do que antes (em "Mafalda Arnauth" e em "Esta Voz Que Me Atravessa", os dois capítulos precedentes deste percurso singular), Mafalda Arnauth. Que ganha ao "primeiro assalto", com "As Fontes", um poema de Sophia Mello Breyner Andresen que parece ter sido escrito para esta voz. Que arrisca puxar ao Fado clássicos como "No Teu Poema" (José Luís Tinoco) e "Cavalo À Solta" (Fernando Tordo). Que não tem medo de abordar a "Canção" com que João Braga fez reviver António Botto. Que sustenta o encontro com o "mestre" João Ferreira-Rosa e que arrisca o diálogo improvável com uma voz do "jazz", Mónica Ferraz. Que espalha originais de primeira linha e os canta, de forma fluente e cheia, mais encantatória do que nunca.
Para quem viva fase de "Encantamento", há mesmo quadras que valem como ofertas de amor: "Mas também se perde o tempo que se tem/P'ra gastar só quando chega a Primavera/Veste um fato de saudade amor e vem/Que é Inverno, mas eu estou à tua espera". Ou: "Então rasguei o dia sem ter medo/E nem pedi licença para amar/Acorda coração, ainda é cedo/O amor bate-te à porta e quer entrar". O "estado de graça" não acontece só, também se escolhe e acolhe. "Bendito Fado, Bendita Gente" é o título de outro dos momentos de ouro de um disco cheio de pedras preciosas. Acrescente-se, em nome de tudo: bendita Mafalda.
n Eis um daqueles casos em que se festeja o regresso à unanimidade: depois da revelação com "On How Life Is" e de algumas reticências que se levantaram em torno de "The Id", MACY GRAY volta incólume ao seu estatuto de primeira linha da "new soul" com um portentoso "The Trouble With Being Myself" (ed. Sony), dorido, sensual, autobiográfico q.b. Até Beck dá uma ajudinha a um álbum enorme, que não hesita em juntar a balada ao "funky" quase radical. Uma aventura compensadora… e ainda aquela voz!
n Há algumas semanas, falou-se aqui da espera por "Lovers Speak" (ed. Telstar, ainda sem distribuição portuguesa), disco que interrompe oito anos de silêncio de JOAN ARMATRADING, a mulher de "Down To Zero" e "Love and Affection". Ora bem: sem pretender inovar, despida de alguns toques "modernistas" que chegaram a atirá-la para o pacote dos descaracterizados, a "velha senhora" faz questão de mostrar que, a quem sabe, nunca esquece. Canta, produz, escreve e compõe como nos melhores tempos. Boa!
n Tem uma das vozes mais serenas e seguras das cantadeiras de baladas e "mid tempos" de contornos "soul". Conseguiu canções de impacto, de referência e que a colocaram bem alto no "ranking" das cantoras da nova geração – lembrem-se de "Life" e de "You Gotta Be". Por isso custa mais perceber que, após anos sem notícias, DES'REE volte a dar sinal com um "objecto" tão morno (morto?) como "Dream Soldiers" (ed. Sony). Procura-se um pico, uma chama e… nada. Certinho não chega. Sobretudo na "soul".
n … E depois do "fogacho" que a campanha da Vodafone lhes proporcionou, catapultando "Bohemian Like You" para o papel de êxito mundial, os DANDY WARHOLS retornam a uma confrangedora mediania, cheia de tiques e truques para tentar compensar a falta de ideia e as falhas das canções. "Welcome To The Monkey House" (ed. EMI-VC) não convence, nem com convidados como Nile Rodgers, Tony Visconti ou Simon Le Bon, nem com a produção de Nick Rhodes (outro ex-Duran Duran). O bocejo é o desfecho provável.
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