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MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

O FADO DA FAMÍLIA CARMO

Há vinte e cinco anos, Carlos do Carmo revolucionava o panorama do fado com ‘Um Homem na Cidade’, disco com músicas de Fernando Tordo e Paulo de Carvalho, entre outros, e poemas de Ary dos Santos, que acabou por se tornar uma referência maior da música portuguesa e da cidade de Lisboa.

23 de outubro de 2004 às 00:00

Quase 30 anos depois, a cidade cresceu, tornou-se multicultural e viu nascer uma nova geração de fadistas. Dentro das suas próprias referências e contextos culturais, esses artistas, entre os quais se inclui Gil do Carmo, o filho, reuniram-se para fazer uma releitura do mítico álbum e homenagear o fadista que melhor cantou Lisboa.

“É o destino”, reconheceu Gil do Carmo num tom grave. Pai e filho estão sentados lado a lado, na casa da família, no centro de Lisboa, para falar do Fado e da homenagem em que Gil também participou e, por isso, é inevitável falar da herança genética. “Há um traço comum entre a forma de cantar da minha avó, Lucília do Carmo, do meu pai e a minha. É o fado. Quando se fala de fado, da portucalidade e daquilo que somos, há palavras que foram tantos anos mal empregues que até temos medo de as pronunciar. Mas é o destino”.

O tributo ‘Um Novo Homem na Cidade’ surgiu de uma produtiva conversa entre Tozé Brito e o produtor Nuno Faria, a quem coube a tarefa de seleccionar as vozes que iriam dar corpo a esta revisitação, que deixou Carlos do Carmo “emocionado”.

“Nunca pensei ser alvo desta homenagem. Tenho até dificuldade em falar porque não consigo libertar-me da emoção. É uma ideia muito bonita por se tratar da nova geração de fadistas e pela participação de artistas com estéticas musicais diferentes, como a Sara Tavares, o Ivan Lins, o Tito Paris ou o Martinho da Vila, um homem que tem tantos anos de carreira como eu tenho de vida. Ouvi-lo a cantar ‘O Homem das Castanhas’ em samba é uma gracinha”, afirmou.

Consciente da responsabilidade que é ser filho de Carlos do Carmo, algo que encara com “naturalidade”, Gil do Carmo sente-se um “privilegiado” por participar neste tributo: “Ter sido escolhido para cantar um dos meus fados favoritos, o ‘Cacelheiro’, é um privilégio. Além disso, este disco está um passo à frente, porque todas as abordagens tentam pensar num futuro”.

Um futuro que passa obviamente pela nova geração de fadistas que participam no álbum: “Vejo-os com muita alegria porque é a certeza de que o fado vai continuar. Tem quem o ame, quem o cante e quem o toque. Claro que o tempo vai encarregar-se de fazer uma triagem, em função do empenho, do talento e da modéstia de cada um, mas há aqui casos de franca carreira e desejo ardentemente que isso aconteça”, disse Carlos do Carmo.

‘Novo Homem na Cidade’ não se esgota na tradicional função de tributo. Além do acento na lusofonia, este é um disco que reflecte também o actual momento de rejuvenescimento do fado, exibindo nomes como Mariza, Ana Moura, Kátia Guerreiro, Joana Amendoeira, Camané e Pedro Moutinho, entre outros.

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