Eric Frattini fala sobre ‘Mossad – Os Carrascos do Kidon’, o seu mais recente livro, onde revela as origens e principais operações dos serviços de inteligência israelitas
CM - O que é a Mossad?
Eric Frattini - Mossad é uma sigla utilizada para representar o Instituto para Inteligência e Operações Especiais, criado a 1 de Março de 1951 por ordem do primeiro-ministro israelita, David Ben Gurion. Actualmente, a Mossad é uma linha mais defensiva e de segurança de Israel, tal como o serviço de inteligência de qualquer outro país do Mundo. No entanto, no caso de Israel, converge no grande conflito que se vive no Médio Oriente, entre árabes e israelitas, desde 1948.
- É um grupo que nasceu do desejo de vingança dos israelitas, após o holocausto da II Guerra Mundial?
- Acredito que, no caso de Israel, as palavras ‘vingança’, ‘segurança’ e ‘sobrevivência’ formam uma mesma explicação num mesmo teatro geopolítico e estratégico com o é o Médio Oriente. Para Israel em geral, e para o Mossad em particular, não existe sobrevivência sem segurança e não há segurança sem violência… Talvez seja esse o pensamento de todas as partes envolvidas no conflito e, por isso mesmo, talvez nunca se consiga chegar a um acordo para a paz na região.
- Acredita na vingança como meio para solucionar um problema?
- Uma questão difícil de responder, quando direccionada a alguém que não viveu no Médio Oriente. Quando me pedem para explicar o que ocorre na região, utilizo sempre o mesmo exemplo. Imagine-se que eu (Palestina) entro num bar em que também está o ex-pugilista Mike Tyson (Israel). Começo então a implicar com ele, com empurrões, atentados, bombardeamentos com mísseis… A certa altura, Tyson irá levantar-se e utilizar a sua força contra mim, sem tentar controlar a sua potência. É isto que acontece com as operações militares de Israel contra Gaza e os palestinianos. Israel não sabe controlar a sua força de resposta e essa potência desmesurada utilizada nas suas represálias faz com que aumentem as críticas diplomáticas internacionais contra Israel.
- A unidade Kidon, da Mossad, afirmou que não seriam assassinados ou feridos familiares de terroristas. No entanto, em casos como o do líder do Hezbolah, Abbas Musawi, líder do Hezbollah, a esposa e o filho também foram mortos…
- A afirmação foi feita por Meir Amit, director da Mossad e autor das normas que o Kidon deveria seguir. Em todas as guerras existem danos colaterais. No livro relato como o Kidon matou, na cidade norueguesa de Lillehammer, um empregado de mesa chamado Ahmed Bouchiki. Bouchiki era muito parecido com Ali Hassan Salameh, chefe supremo da organização Setembro Negro e principal responsável pelo homicídio dos atletas israelitas durante os Jogos Olímpicos de Munique. O Kidon matou o empregado à saída do cinema. Em 1996, o governo israelita, liderado por Shimon Peres, reconheceu oficialmente, 26 anos depois, que Bouchiki não era terrorista. Torrill Larsen e a sua filha, familiares de Bouchiki, receberam importante indemnização de Israel. Tal como disse, e passei por 17 guerras, há sempre vítimas inocentes, mesmo quando essa guerra se passa nas sombras.
- Porque decidiu escrever este livro?
- Na verdade, e mantendo as distâncias, a Mossad de Israel é como a Máfia em Itália, todos sabem que existe mas ninguém fala sobre isso. Nos cinco anos que passei como correspondente em Jerusalém, não ouvi uma única vez um israelita falar sobre a Mossad, nem mesmo num bar ou numa festa. Ninguém fala do Instituto. Foi esta a razão que me levou a escrever o livro e tenho certeza de que nunca será publicado em Israel. Também acho que nenhum cidadão israelita poderia escrever um livro sobre este assunto, pois não iria conseguir distanciar-se o suficiente para manter a objectividade sobre um assunto tão delicado.
- Quais os principais obstáculo que encontrou?
Sem dúvida, o local onde procurar a informação. Esse foi o principal entrave na hora de escrever esta obra. E depois, quando a encontrava, tentar aceder-lhe. Quando se trata um tema relacionado com os serviços de inteligência, a maior parte da informação ou é secreta ou é semi-restrita. Por exemplo, para documentar o caso de Khaled Meshal [líder do Hamas], foi a própria Comissão dos Serviços de Inteligência do Parlamento de Israel quem me facultou a informação; ou para a Operação Garibaldi, tive a sorte de encontrar Peter Malkin [ex-operativo da Mossad] em Washington, onde vivia reformado com a sua filha e netos, tendo-me relatado toda a sua história. Os obstáculos surgiam quando localizava um documento e, de repente, esse ficheiro desaparecia misteriosamente, ou quando conseguia uma informação/documento de uma fonte e esta não voltava a contactar-me. Aos poucos fui preenchendo as lacunas, até conseguir escrever os 19 capítulos e 11 biografias de directores da Mossad que constituem o livro.
- Quanto tempo demorou a reunir toda a informação necessária para terminar a obra?
- Posso dizer que foram uns 20 anos, desde 1989, quando comecei a recolher informações. Depois, durante a minha estadia no Médio Oriente, entre 1989 e 1993, e finalmente entre 1997 e Dezembro de 2010, em que reuni o maior bloco de informação e documentação do livro.
- Como teve acesso aos documentos sobre as diversas operações da Mossad?
- As fontes variaram, desde o Parlamento de Israel e o GID [Serviços de Inteligência da Jordânia], para o caso Meshal; a polícia uruguaia no caso Cuckurs; a Guardia Civil de Espanha no caso Maxwell; a polícia francesa na operação ‘Barba Azul’; a ASIO [Serviço de Inteligência] australiana para o caso Vanunu; a polícia de Malta para o caso de Shiqaqi; a Interpol para informações no caso ‘Raquete’. Como se pode ver, as minhas fontes são muito diversas…
- E quanto às fotos que acompanham os documentos?
- Exactamente o mesmo. Muitas são do meu arquivo privado, tal como as fotos de todos os directores da Mossad ou da própria sede dos Serviços de Inteligência Israelita, o qual é proibido fotografar. Depois, fui reunindo o resto do material ao longo dos anos através de fontes policiais, de serviços de inteligência, agências federais norte-americanas, etc..
- Também contactou com agentes ou ex-operacionais da Mossad?
- Sim. Alguns participaram em operações que relato neste livro e mesmo um ex-katsa (agente operacional) da Mossad que leu o manuscrito e me ajudou a ajustá-lo, em termos históricos. Outros antigos katsas leram a obra e deram a sua opinião. Uma das mais interessantes que ouvi dizia que o meu livro tem 75 por cento de realidade, 20 por cento de lenda e 5 por cento de ficção. Uma boas percentagem, tendo em conta que o livro fala sobre a Mossad.
- Teve alguma represália por escrever sobre algumas operações cuja existência os serviços de inteligência israelitas continuam a negar?
- (Risos). Espero que não me enviem uma unidade Kidon para me fazer uma visita. Tal como disse, antes de terminar o livro, este foi lido por vários agentes dos serviços de inteligência, não apenas de Israel, e ficaram realmente muito impressionados, não tanto pelo livro em si ou pelas operações nele relatadas, mas sim por ter conseguido reunir tanta informação sobre um dos serviços secretos mais herméticos que existe.
- Que diferenças existem entre a Mossad, o Aman e o Shin Bet?
- A Mossad ocupa-se das operações de inteligência no exterior do país. Já o Aman, tem a seu cargo as informações referentes à inteligência militar. Por seu turno, o Shin Bet (Serviço Geral de Segurança) ocupa-se de tudo o que é segurança e contra-espionagem no interior do país. Os serviços de inteligência encontram-se agrupados no Varash, comité composto pelos chefes dos serviços secretos, que reporta directamente ao primeiro-ministro. A Mossad conta depois com o Kidon, tal como o Shin Bet tem o AMARN, destacamento especial encoberto que opera em território palestiniano.
- Como escolheu as operações a relatar nesta obra?
- A escolha foi fácil. Apenas incluí no livro as operações sobre as quais tinha informação suficiente para completar um capítulo. Houve outras que não incluí ou porque não tinha material suficiente ou porque rasto do Kidon nelas é demasiado ténue.
- Viveu em Beirute, Nicósia, Jerusálem… Presenciou algum dos episódios que descreve neste livro?
- A operação ‘Tycoon’, quando o Kidon liquidou o magnata da imprensa Robert Maxwell, ao largo das Ilhas Canárias. Assisti ao seu funeral no Monte das Oliveiras, em Jerusalém. Também acompanhei a polémica em torno do erro da Mossad, aquando da sua tentativa de assassinato de Khaled Meshaal, do Hamas, na capital da Jordânia, em que lhe tentaram colocar veneno no ouvido através de um aerossol. Estava na Jordânia nesses dias.
- Como foi entrevistar Yasser Arafat, Ariel Sharol ou Yitzhak Rabin?
- Todos eles são grandes políticos e fazem parte da história do Médio Oriente. Talvez aquele com que tinha menor ligação tenha sido Arafat. Entrevistei-o duas vezes, sendo que a primeira ainda foi em Tunes. Lembro-me que me expulsou do seu escritório quando lhe perguntei a sua opinião sobre um ditado israelita que diz que “um palestiniano não perde nunca a oportunidade de perder uma oportunidade”. Ofendeu-se bastante e os seus guarda-costas levaram-me até à saída. Na segunda ocasião, em Ramala, tive mais cuidado para não o ofender. Quanto a Rabin, defini-lo-ia como ‘o homem das mil caras’. Entrevistei-o pela primeira vez em 1989, quando era ministro da Defesa do governo de Unidade Nacional. Foi nessa altura que, referindo-se à Intifada disse: “Partirei os braços ao primeiro palestiniano que atirar uma pedra”. Mais tarde, encontrá-lo-ia em várias ocasiões, enquanto correspondente em Israel. Durante as negociações em Madrid para a paz no Médio Oriente e quando ele soube que deveria ser o homem a dar o primeiro para a paz com os palestinianos.
- Como comenta as declarações de Meir Dagan, director da Mossad, quando este afirma que “a execução de um terrorista é uma ferramenta do Estado para evitar ataques e reforçar a dissuasão”?
- Para mim, o melhor terrorista é o terrorista morto. Quem pensa o contrário, certamente nunca sentiu o efeito do terrorismo ou testemunhou os ataques. Assisti a actos terroristas em Jerusalém, Madrid, Londres, Nova Iorque, Iraque, Afeganistão, Bilbao… Quem opina o contrário, mente. Coloquemos um caso extremo aos leitores: Imagine que tem à sua frente um terrorista que sabe, com toda a certeza, que colocou um engenho explosivo potente num centro comercial de Portugal. Curiosamente, esse espaço costuma ser frequentado pelos seus familiares, mãe, filhos, cônjuge… E não tem telemóvel para poder alertá-los para que abandonem o local. Como conseguirá que o terrorista confesse o local onde escondeu a bomba em menos de 30 minutos? O que fazer? O tempo começa a passar… Só já tem 25 minutos para decidir o que fazer… 20 minutos… 10 minutos… Ou o entrega à polícia e aos juízes, enquanto a bomba explode matando várias pessoas, entre os quais a sua família, ou corta dedos ao terrorista até que ele confesse onde está a bomba? Este é o dilema com que se deparam muitas vezes as nossas forças policiais e corpos de segurança. Gostaria de saber o que faria cada leitor neste caso. Eu, pessoalmente, cortaria dedos do terrorista até me dar a localização exacta da bomba.
- Após a morte de Bin Laden, vivemos num Mundo mais seguro, como afirma o presidente do EUA, Barack Obama?
- Não. O terrorismo da al-Qaeda mudou muito nos últimos cinco anos. Vejamos, como exemplo, o novo terrorismo islâmico. Há cinco anos, um cidadão do norte de África entrou em Espanha ilegalmente no porão de um camião. Não sabia ler ou escrever. Em cinco anos, não só aprendeu a escrever e a ler, como se tornou especialista em comunicações através das redes sociais. Conseguiu recrutar por toda a Europa, em nome da al-Qaeda, mais de um milhar de jihadistas para combaterem no Afeganistão. Viria a ser detido numa casa na costa espanhola. Neste momento, há sete serviços de inteligência interessados em interrogá-lo. Este é o novo terrorismo da al-Qaeda. Temos de estar sempre vigilantes…
PERFIL
Eric Frattini nasceu há 48 anos em Lima, no Peru, tendo viajado depois com a família para Espanha. Foi correspondente do Canal Plus, jornal ‘Cinco Días’ e Cadena Ser no Médio Oriente. Actualmente, é professor de Investigação Jornalística na Universidade Camilo José Cela, em Madrid. É autor de uma dúzia de livros traduzidos para várias línguas.
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