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Correio da Manhã

Cultura

O meu ponto fraco é o coração

Marilyn Manson, músico, volta amanhã ao Pavilhão Atlântico para um concerto em que promete prestar homenagem a Sintra, um dos mais belos locais que diz já ter visitado. Em entrevista ao CM, aquele que já foi apelidado de ‘Anticristo’ reconhece que já não choca ninguém e que, afinal, até é um romântico.
18 de Novembro de 2007 às 00:00
Marilyn Manson promete um espectáculo muito visual, amanhã no Pavilhão Atlântico
Marilyn Manson promete um espectáculo muito visual, amanhã no Pavilhão Atlântico FOTO: direitos reservados
Correio da Manhã – Como será o espectáculo de amanhã em Lisboa?
Marilyn Manson – Pus ideias novas em prática e há lugar para o inesperado. Não tem os mesmos quadros mas é um espectáculo muito visual também. Em Lisboa, os fãs vão ter direito a uma homenagem especial. Vou projectar imagens que filmei há alguns anos, em Sintra. Foi dos sítios mais fantásticos onde já estive. Tem tanta história, mistério. Inspirou-me! Foi lá que tive a ideia de realizar um filme sobre Lewis Carrol.
– Mantém a ideia de filmar ‘Phantamasgoria’ em Portugal?
– Infelizmente não. Será filmado na Europa de Leste, lá para Março.
– Esta digressão pode sair em DVD?
– Sim. Aliás, vão andar umas câmaras no meio da multidão... se os fãs quiserem dar um contributo, estejam à-vontade!
– ‘Eat Me, Drink Me’ é o álbum em que menos fala de política e religião. Já não vale a pena?
– Exactamente. Vivemos num tempo em que já nada choca as pessoas. Ter feito canções críticas foi importante enquanto escritor e artista, mas neste momento o Mundo tem coisas mais importantes para tratar. Eu não consigo competir com certas realidades. Muitos têm dito que ‘Marilyn Manson já não choca ninguém’, mas creio que a coisa mais chocante que poderia ter feito foi este disco, ‘Eat Me, Drink Me’. Porque falo de mim, do amor, dos meus sentimentos. Alguém poderia prever isso? Nem eu me imaginei a fazê-lo. Houve um período de dúvida antes deste disco, porque já nem eu percebia que papel tinha no Mundo.
– Alguma vez pensou desistir?
– Sim e por várias razões. Não perdi apenas o sentido da música, mas da vida. A minha realidade pessoal também estava a estilhaçar-se. O meu casamento tornou--se algo contra o qual lutei toda a vida. Um estilo de vida de ‘passadeira vermelha’ que sempre detestei. Ao fazer ‘Eat Me, Drink Me’ percebi que era incapaz de separar a minha vida pessoal da artística...
– Como superou isso?
– Pintando, fazendo filmes e finalmente voltando à música. Sendo mais eu próprio e dando-me a conhecer ao Mundo dessa forma. Fui muito transparente e humano neste disco, que é um testemunho da minha vulnerabilidade. Afinal, sou igual a qualquer pessoa. Mostra que o meu ponto fraco é o coração. Daí a metáfora do vampiro, do amor na sua forma mais romântica e dramática.
– Agora que reencontrou o amor, vê-se a assentar ou até a ser pai?
– Sempre foi uma possibilidade. Não voltarei a mudar aquilo que sou por causa de uma relação, mas um filho pode acontecer. Claro que é uma grande responsabilidade. Mas acho que até tenho esse espaço na minha vida.
"SENTI-ME UM PRODUTO"
CM – Marilyn Manson é hoje, também, uma marca, um rótulo que faz vender. Como se sente nessa pele?
M.M. – Também por isso pensei desistir. A indústria fez-me sentir um produto porque me queria sempre mais famoso, mais comercial, mais mediático, por caminhos que não tinham nada a ver comigo. Esta indústria está uma treta, mas também está a mudar e isso dá-me esperança! Os artistas vão ter mais liberdade. Já controlei melhor as coisas neste disco e acredito que ainda o farei melhor no futuro.
"ACTO QUASE ESPIRITUAL"
CM – ‘Eat Me, Drink Me’ é um ritual da liturgia cristã. Não é uma contradição para alguém apelidado de ‘Anticristo’?
M.M. – A ambivalência existe em todos nós. A metáfora está relacionada com a personagem do vampiro. Quando era miúdo e ia à missa, sempre achei que havia algo de canibalesco naquela imagem de beber o sangue de Cristo e comer-lhe o corpo. ‘Consumir’ alguém sempre foi um acto quase espiritual. Era também essa a ideia da escrita de Lewis Carrol.
PERFIL
Brian Hugh Warner nasceu a 5 de Janeiro de 1969, no Ohio. Filho de pai católico e mãe de culto episcopal, Brian foi educado na religião da mãe. Antes de chegar a estrela rock foi estudante no Broward Community College, enquanto escrevia artigos de música para a revista ‘25th Parallel’. Foi assim que conheceu muitos músicos que haveriam de influenciar o seu reportório. Já na Florida, no final dos anos 80, funda a sua primeira banda, Marilyn Manson & the Spooky Kids.
O primeiro disco enquanto Marilyn Manson foi ‘Portrait of an American Family’, em ‘94, mas foi com ‘Antichrist Superstar’ (’96) que atingiria o estrelato. Foi acusado de satanismo e até de influenciar o massacre na escola de Columbine, em ‘99. É também pintor e está ainda ligado ao cinema. Na música, é autor de alguns dos maiores êxitos da última década, casos de ‘Beautiful People’ ou ‘Disposable Teens’.
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