Depois de passar pelo Rock in Rio-Lisboa, a cantora Angelique Kidjo esteve no Algarve a mostrar o seu novo disco, ‘Oyaya’. Ficou fascinada pelo sol e pelo calor porque lhe fez lembrar o seu país natal, o Benin.
Correio da Manhã – Veio apenas para este concerto no Pine Cliffs?
Angelique Kidjo – Sim, e é a minha primeira vez no Algarve. É como o meu país: com muito sol e calor. Adoro ouvir os pássaros, o que não acontece nas grandes cidades, onde só ouvimos carros e aviões. Não se sente a natureza que eu amo.
Conhece outras cidades portuguesas? O que pensa deste País?
– Já estive no Porto e em Lisboa. É a terceira vez que estou em Portugal. Não conheço muito mas fico preocupada quando começa o Verão e a floresta arde; entristece-me. Estamos a perder muito da natureza e preocupo-me com isso. Sempre que ouço essas notícias, faço ‘figas’ para que os incêndios acabem. É muito perigoso.
Como correu a sua actuação no Rock in Rio-Lisboa?
– Foi maravilhosa. Percebi que o público era muito intuitivo e muito jovem. Fiquei surpreendida e agradada. É importante que os mais novos descubram diferentes tipos de música, de arte, porque a sua mente será mais aberta no futuro.
Já trabalhou com Gilberto Gil e Carlos Santana, entre outros. Guarda boas recordações?
– Muito boas. Ainda há pouco tempo actuei com o Carlos Santana no Festival de Montreux. Conheço Caetano Veloso, Daniela Mercury e Carlinhos Brown. Trabalhamos muitas vezes juntos, escrevemos canções em parceria… Há dois anos cantei com Gilberto Gil em Montreux e fiz um dueto com ele e com a Daniela Mercury no Brasil.
Conhece cantores portugueses?
– Não muitos, mas gosto de fado. Tem algo de muito parecido com os blues, música que tocamos no meu país quando alguém morre e que encontrei na América. Tenho a mesma sensação quando ouço fado: é uma música que consegue exprimir o que a saudade e a dor podem ser. Para mim, a música é a memória da natureza humana; um legado para o novo mundo que não tem cores nem raças. É a diversidade que a enriquece. Por isso, gostaria de trabalhar com qualquer músico português para partilhar a minha música e aprender mais.
O que a inspira para compor?
– Em todos nós, na condição humana, na vida em geral. Apercebi-me, nas minhas viagens, que todos partilhamos os mesmos valores, a forma como os abordamos e como os usamos é que é diferente. Acredito nas qualidades humanas, que somos capazes do melhor e do pior. Todas as vidas são importantes e essa é uma das minhas lutas como embaixadora da UNICEF, porque todas as crianças nascem da mesma forma. E eu tenho descoberto, através desse trabalho, como falhámos na preservação das crianças. Elas não estão protegidas e nós estamos a preparar um futuro de desastre.
Como está a correr a apresentação do seu disco, ‘Oyaya’?
– Muito bem. Comecei a digressão em Abril no Canadá e ainda não parei. Onde quer que vá, as críticas são boas e o público gosta, o que para mim é o mais importante. Preparo-me sempre para dar tudo o que tenho, porque a reacção do público nunca é garantida. Adoro estar em cima de um palco, é o maior desafio da minha vida.
Natural do Benin e actualmente a residir em França, Angelique Kidjo mistura quase tudo o que está ao seu alcance: afro-funk, reggae, samba, salsa, gospel, jazz, rumba, zouk e makossa.
A sua estreia nos discos aconteceu em 1988 com o álbum ‘Pretty’, totalmente feito por si. A verdade é que a partir daí a Imprensa nunca mais a largou, considerando-a uma das maiores divas da música do mundo. Seguiram-se ‘Parakou’, ‘Lagozo’, ‘Aye’, ‘Fifa’, ‘Oremi’ e ‘Black Ivory Soul’.
“Dificilmente terá existido uma cantora negra com tanto poder e que tenha conseguido ligar tão bem as tradições africanas à música soul americana”, escreveu um dia o jornal norte-americano ‘The New York Times’.
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