Eric Frattini baseou-se em documentos do FBI para escrever ‘O Ouro do Inferno’, uma obra que fala da possibilidade de Adolf Hitler ter sobrevivido à II Guerra Mundial
Correio da Manhã – Qual a história de ‘O Ouro do Inferno’?
Eric Frattini – É uma novela dividida em três partes: tem 33 por cento de realidade, 33 por cento de ficção e 33 por cento de ficção plausível. Esta última é quando o leitor termina de ler a obra e se questiona se não terá acontecido tal como eu a descrevo. A história tem por base quatro documentos que encontrei. Dois são do FBI, sendo que um está datado de Agosto de 1945 e o segundo de Setembro desse mesmo ano. Estes dois documentos foram os utilizados por agentes do FBI para informar J. Edgar Hoover [chefe da agência norte-americana] que haviam detectado Hitler na Argentina. O terceiro documento é uma declaração de Ernest Baumgart, comandante da Luftwaffe [Força Aérea Alemã], que está a ser julgado por crimes de guerra na Polónia. No seu depoimento, Baumgart afirma que levou, pessoalmente, Hitler e Eva Braun desde Berlim até ao porto de Kristiansand, no sul da Noruega. O quarto documento fala de um submarino alemão, o U-977, comandado por Heinz Schäffer, que desapareceu em combate. Depois da Guerra Mundial, os Aliados dizem que o submarino se afundou. No entanto, volta a aparecer em Dezembro de 1945 em costas argentinas. Heinz Schäffer foi então interrogado pela inteligência naval norte-americana, afirmando que levou um homem e uma mulher muito poderosos durante o Reich, do porto de Kristiansand para a Argentina. Mas não revelou se esse homem era Adolf Hitler. Estes quatro documentos são reais. No entanto, podem não ter nada a ver uns com os outros. O que eu faço neste livro é estabelecer a ligação, fazendo o leitor pensar se terá mesmo sido isto que aconteceu.
– Acredita que Hitler pode ter sobrevivido à Guerra, escapando para a Argentina?
Antes de começar a investigar para escrever este livro, acreditava plenamente que ele morrera no bunker. Depois comecei a duvidar. Os soviéticos recolheram da fossa parte de um crânio e de uma mandíbula. Defendiam que os ossos pertenciam a Hitler. Há dois anos, uma universidade dos EUA fez testes de ADN, determinando que os ossos pertencem a uma mulher, entre os 25 e os 30 anos, uma idade que também não se ajusta a Eva Braun. Esta era uma das provas que existiam de que Hitler morrera na fossa, tendo depois sido queimado. Continuei ler documentos sobre o assunto e, actualmente, acredito apenas em 75 por cento na hipótese de ter morrido no bunker e 25 por cento na teoria de que tenha fugido. Há documentos oficiais enviados à embaixada dos EUA que falam sobre o facto de Hitler ter sido detectado numa zona da Argentina. No primeiro documento dizem que o detectaram. No segundo dizem que sabem mesmo onde ele está. Isto faz-nos pensar: então mas ele não se tinha suicidado no bunker em Berlim? Faz-nos duvidar. Ficção plausível!
– ‘Ouro do Inferno’ estabelece uma ligação entre Nazis e a Igreja Católica, por esta ter ajudado os criminosos de guerra a fugirem do país, arranjando-lhes dinheiro e novas identidades… Tem recebido ‘ataques’ por escrever sobre o assunto?
Os meus livros são sempre atacados. Por exemplo, a Opus Dei faz duras críticas à obra ‘O Labirinto de Água’, tendo escrito uma carta aberta em que dizia: ‘Que vergonha!”. Esta não tem sido atacado por que o alvo principal é a banca suíça, não a Igreja. Porque, durante a II Guerra Mundial, o Partido Nacional Socialista tinha as suas razões (não estou a justificar os seus actos). Os Aliados tinham também motivos e até uma Vaticano tinha um motivo para ajudar os nazis. Só quem não tinha qualquer justificação para apoiar a Alemanha era a banca suíça. Quando a Guerra terminou, é decidido que a banca suíça deve devolver o dinheiro aos herdeiros das famílias judias que morreram nos campos de concentração. Quando os judeus chegam aos bancos para recuperar os bens dos seus familiares mortos, é-lhes dito que necessitam apresentar certidões de óbito. Claro que os alemães matavam a tua família mas não te davam certidões! Assim, a banca suíça manteve o dinheiro em contas ocultas desde 1933 até à chegada do presidente Bill Clinton ao poder. O líder dos EUA terá então dado ordem para que toda a banca suíça deixe o seu país, como castigo por não ter devolvido o dinheiro. Três dias depois de ter sido emitido esse decreto, a banca suíça reconhece ter em sua posse mais de cinco mil milhões de dólares pertencente aos judeus, alegando que iria iniciar o processo de devolução. Penso que o papel mais repugnante no meu livro é desempenhado pela banca suíça. Por gozo, há dois banqueiros suíços que iam sobreviver no final do romance. Mas davam-me tanto asco que acabei por matá-los. Pelo menos mato-os literariamente. (risos)
– Na sua opinião, os nazis que escaparam aos tribunais após II Guerra Mundial deveriam ter sido procurados e assassinados?
Sou partidário de que o melhor terrorista é o terrorista morto. Essas pessoas deviam ter sido castigadas. Em ‘Mossad - Os Carrascos do Kidon’ conto como decorrera a operação de captura de Herbert Cukurs,responsável pela morte de 70 mil pessoas no gueto de Riga. Os israelitas enviaram um comando e, como não puderam sequestrá-lo, deram-lhe um tiro na nuca, deixando uma mensagem: “Aqueles que nunca esquecem”. Sou a favor disso, apesar de parecer pouco político. Mas como não sou político…
– Em 2011 lançou em Portugal a obra ‘Mossad: os Assassinos do Kidon’, um livro mais factual que ficcional. Gosta de variar no tipo de obras que escreve?
Sim, gosto. Num ensaio, numa não-ficção, tens de provar tudo o que escreves, baseando-te em documentos. Tem de estar tudo bem documentado. A tensão de se ter de provar tudo não existe na ficção. Na novela posso dizer o que quiser. Até que Hitler fugiu do bunker. Gosto de ambos os estilos. Quando termino um ensaio estou sempre mais stressado do que quando termino uma obra ficcional.
– No seu Facebook disse que já tem prontos 11 capítulos (192 páginas) de uma nova obra…
Tenho já escritos os capítulos do um ao onze e depois os últimos dois. Falta a parte principal, que é a que vai unir o início ao fim. Em Julho ou Agosto deve ficar pronto.
– Disse também que durante esta passagem por Portugal se iria encontrar com membros da Polícia Judiciária (PJ) e dos Serviços Secretos. O que quer saber sobre eles? Vai incluir estes elementos na sua futura obra?
Uma das minhas especialidades é o terrorismo islâmico, especialmente o tema de penetração de células islâmicas em sociedades ocidentais. Como estas se inserem nas sociedades do Ocidente para preparar ataques. Está previsto que, dentro de poucos meses, Portugal dê um curso a membros da PJ sobre este tema. Além disso, tenho tenho também muita experiência sobre o tema do terrorismo.
– Foi correspondente em vários países quando estes estavam em guerra. Viver de perto esses acontecimentos foi um dos elementos que o levou a escrever as suas obras?
Para escrever é preciso estar muito relaxado. Esse relaxamento é conseguido quando já viveste muito e não tens necessidade de adrenalina. Escrever novelas no meu escritório, em Madrid, é como um descanso. Posso estar à vontade, sem necessidade me barbear… (risos)
– É muito amigo do escritor português Luís Miguel Rocha, que também escreve romances históricos e conspirações religiosas. Costumam trocar ideias para os vossos livros?
A Porto Editora propos-nos escrever uma novela conjunto. Primeiro, ele terá de terminar de escrever o seu livro, que certamente será um êxito como o é ‘A Mentira Sagrada’, e eu tenho de terminar o meu. Depois sentar-nos-emos então para decidir se iremos escrever algo totalmente diferente daquilo a que estamos habituados. Temos em vista algo para o público jovem.
– Já visitou o nosso país várias vezes. Que recordações guarda?
Tenhos dois países que considero amuletos como escritor: Itália e Portugal. Em Itália vendo bastantes, devido às temáticas que abordo. Em Portugal as vendas também correm bem. Por exemplo, ‘Mossad: os Assassinos do Kidon’ foi um êxito aqui. Esteve onze semanas entre os mais vendidos. Espero ter igual sucesso com ‘O Ouro do Inferno’. Recebem-me sempre bem em Portugal. Não sei se deveria dizer isto, mas é como estar noutra província de Espanha. Ou então, quando estou em Espanha talvez seja uma província de Portugal… É como quando vou a Barcelona, a Granada ou a Sevilha. E isso é maravilhoso. Já quando vou a Itália, estou em Itália.
– Quanto a escitores portugueses, algum lhe merece maior atenção?
Como romancista, e com alguma inveja, Luís Miguel Rocha. Odeio-o, porque quando ‘Mossad’ estava em oitava ou nono da tabela de vendas, o livro dele estava sempre acima. Rimo-nos bastante com esse facto. Cheguei a ligar-lhe para lhe dizer que iria enviar uma unidade da Mossad para que tratassem dele. Mas nuncao cheguei a fazer, porque me deu pena. (risos)
– Também escreve guiões para programas de televisão. Há alguma possibilidade de um dos seus romances passar para esse formato?
Possivelmente ‘O Labirinto de Água’, numa co-produção espanhola, alemã, italiana e polaca. Um filme apenas para televisão. Também me foi proposto dirigir um programa na televisão espanhola. Programa este que se chama ‘Vaciones en el Infierno’ (Férias no Inferno). Nesse programa pego num apresentador, alguém com muita experiência, e coloco-o em Kivu (Congo), Grozny (Tchetchénia), Mogadíscio (Somália) e deixo-o, por exemplo, com dois irmãos que se dedicam a resgatar mulheres sequestradas pelas máfias do tráfico de pessoas, que entram em prostíbulos de arma na mão para efectuar resgates. O meu apresentador é então inserido em vários grupos, podendo até visitar Abbottabad, onde mataram bin Laden. É um programa de viagens em que recomenda o hotel onde é mais fácil ser assassinado ou o prostíbulo em que há maior probabilidade de apanhar Sida. É um guia de viagens, mas no Inferno.
– Tem obras traduzidas em mais de 40 países. Qual o segredo para tanto sucesso?
O facto de nunca localizar os romances num local concreto. Para mim é essencial. Depois, tratar temáticas que interessem a um português, a um espanhol, um italiano, um polaco… Depois, desenvolver uma trama em espaços que são próximos do mundo do cinema. Berlim da Alemanha nazi, Nova Iorque dos gangsters, das máfias. Todos estes cenários nos são próximos devido ao cinema. Penso que isso é parte do segredo.
– Costuma recorrer bastante às redes sociais da internet. Sente que é importante manter esse contacto mais ‘próximo’ com os seus fãs?
Há duas coisas algo que as redes sociais e as feiras dos livros nos permitem, que é o facto de poder aparecer alguém e dizer: ‘Não gostei do teu livro’. E não há outro remédio a não ser engolir. Na realidade, um livro tem muita cultura, quando se escreve, quando se vende… As pessoas vêem-te como alguém que escreveu um livro. “Ai que maravilha, escreveu um livro”. Mas no fundo, um livro é como outro produto qualquer, como um detergente. Tens de conseguir vendê-lo. As pessoas que visitam uma feira do livro têm milhares de opções. O escritor tem de tornar o seu produto o mais atractivo possível para o poder vender. Para que as pessoas digam que gostam mais deste do que do outro. As redes sociais permitem que os leitores, que antes tinham dificuldade em falar com os escritores, possam falar directamente com eles. “O teu livro X pareceu-me uma merda”. Há duas opções então: mandá-los passear ou perguntar porquê. Porque não lhe agradou? São leitores, compraram o teu livro. Dizem que não gostaram de uma parte por isto ou por aquilo. É algo que serve para que percebas que talvez tenham razão, de forma a não cometer esse erro da próxima vez.
– Já teve alguma reacção tão negativa a uma das suas obras?
Não. Graças a Deus que não. (risos)
PERFIL
Eric Frattini nasceu há 49 anos em Lima, Peru. Em 2010, lançou em Portugal ‘Mossad – Os Carrascos do Kidon’, livro que conta as origens dos serviços secretos israelitas e lhe garantiu o sucesso nos tops nacionais. Com ‘O Ouro do Inferno’ (Porto Editora), volta a dar que falar, desta vez em redor do tema dos nazis e dos ‘podres’ da Banca suíça.
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