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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Panteão Nacional vai ser palco do oratório "O Julgamento Pelicot"

Gisèle Pelicot, de 72 anos, tornou-se num símbolo da defesa dos direitos das mulheres depois de ter decidido que deveria ser público o julgamento do seu marido e de dezenas de homens que a violaram enquanto estava sedada.

10 de outubro de 2025 às 11:27

O Panteão Nacional, em Lisboa, vai ser palco, no sábado, do oratório "O Julgamento Pelicot", de Milo Rau e Servane Dècle, que consiste em quatro horas e meia de leituras de recortes relacionados com o caso da francesa Gisèle Pelicot.

Gisèle Pelicot, de 72 anos, tornou-se num símbolo da defesa dos direitos das mulheres depois de ter decidido que deveria ser público o julgamento do seu marido e de dezenas de homens que a violaram enquanto estava sedada, através de encontros combinados num fórum 'online' ao longo de uma década.

Com o consentimento de Pelicot e dos seus representantes, o encenador Milo Rau e a dramaturga Servane Dècle criaram "O Julgamento Pelicot", a partir de milhares de páginas de documentação gerada durante o julgamento, para "apresentar os factos" do que se passou e contrariar uma "política da memória" em redor de um caso tão recente, como disse Rau à Lusa, esta semana, por videochamada.

"Nós queríamos apresentar os factos, porque uma coisa estranha que aconteceu na comunicação social e muito fora de França -- não tanto em França -- é que estava reduzido a umas poucas frases: 'a vergonha tem de mudar de lado', 'Dominique Pelicot é um monstro', 'ela é uma heroína', e é tudo. E toda a complexidade do que significa [se perde]", afirmou o encenador suíço. 

Para Milo Rau, a complexidade significa olhar para os autores dos crimes e procurar perceber quem são e por que fizeram o que fizeram: "[O espetáculo] foi uma ação contra a política da memória. Quando sais do espetáculo não sabes o que pensar. Desconstrói muitas das ideias fixas que eu pudesse ter. [...] Contraria a possibilidade de educação e civilização. Constata que há uma natureza dos homens. Estatisticamente, se olhares para os materiais não podes dizer nada sobre o porquê de terem feito o que fizeram além do facto de todos serem homens". 

A apresentação em Lisboa antecede uma série de outras datas globais de "O Julgamento Pelicot" e vai ser a primeira num espaço "novo e fresco", depois de Viena, onde se deu a estreia (sete horas que terminaram às 04h00), e Avignon, no festival de teatro que acontece na cidade onde teve lugar o julgamento. 

Dècle explicou à Lusa que se pretende dar "a possibilidade ao público de mergulhar na complexidade do caso e nesta coisa muito particular que é em simultâneo um muito bom exemplo da banalidade da violação e um caso completamente extraordinário".  

"Não é nada banal. Acredito que a verdade está entre estas duas interpretações, que não devem ser opostas. É também acerca destes 5 mil anos de patriarcado e violação e a combinação com algo muito mais recente que é a Internet e a industrialização da pornografia de uma forma que alimenta a violência nas relações", afirmou a dramaturga. 

Servane Dècle mostra-se satisfeita com a escolha do Panteão Nacional para apresentação deste trabalho, "porque estarão no meio de homens mortos, alguns dos quais cometeram muita violência, e onde há apenas duas mulheres [Amália e Sophia]". 

"Podemos dizer, em parte, que é um local do patriarcado, mas é também algo mais. É um local de luz e de beleza e é uma honra trazer as palavras e gestos de Gisèle Pelicot a este espaço, enquanto ela ainda está viva", afirmou a dramaturga. 

Questionados sobre a relação entre o horror de um caso como o de Pelicot e a arte, Milo Rau explicou que "transformar crime em beleza é como a poética do poder funciona". 

"E o que fazemos é desconstruí-la e, ao mesmo tempo, trazemos alguém para este Panteão que não estava previsto, porque ela o mudou. [...] Não é o nome de uma vítima, de alguém destruído, mas de alguém que o ultrapassou", disse Rau, que lembrou a frase em latim 'per aspera ad astra' ("por ásperos [caminhos] até aos astros", na tradução do portal Ciberdúvidas). 

O tributo a Gisèle Pelicot, em Lisboa, insere-se na Bienal de Artes Contemporâneas BoCA e vai ser conduzido por Cláudia Semedo e Cristina Carvalhal.  

Na lista de pessoas que vão fazer leituras na Igreja de Santa Engrácia, onde está o Panteão Nacional, estão, entre muitos outros, a bailarina e coreógrafa Gaya de Medeiros, as atrizes Maria João Luís, Ana Bustorff, Isabel Ruth e Teresa Gafeira, o músico Luca Argel, o jornalista Bernardo Mendonça, o comentador Pedro Marques Lopes e o coordenador do Plano Nacional das Artes, Paulo Pires do Vale. 

A entrada é livre e a sessão decorre entre as 18h00 e as 22h30. 

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