'Zeus' está nas salas. Conta a história do presidente-escritor Manuel Teixeira Gomes.
Como e quando nasceu o seu interesse pela figura de Manuel Teixeira Gomes?
Estou a trabalhar neste filme há oito anos. O que começou por me interessar na figura foi o gesto, inverosímil, de largar tudo: a presidência; a coleção de arte; a vida elegante que sempre tinha tido… Partiu no primeiro barco, no cargueiro ‘Zeus’, sem saber sequer para onde ia. Este gesto desmedido seduziu-me imenso. Comecei a investigar sobre a personagem e outras coisas foram vindo…
É uma figura ímpar da nossa História…
É uma figura ímpar no Mundo. Um escritor de literatura erótica que se torna Presidente da República. Onde se viu um caso destes? E depois a sua sensualidade, a sua liberdade, a sua coragem… Houve uma série de temas que se foram juntando e que me fascinaram. A atração pelo Magrebe, em contraponto à atual diabolização do Islão. Até as crises financeiras que marcaram a sua presidência e o combate à especulação da banca – tudo isso é de uma enorme atualidade.
Há muita especulação em torno da sexualidade do Manuel Teixeira Gomes. Foi um tema que o preocupou?
Não me preocupou, mas interessou-me. O filme não foge ao tema. Mas também não é caso para escândalos. Era um homem com uma grande sensualidade – costumava dizer que isso era próprio dos algarvios, por causa da herança árabe. Nos seus escritos eróticos tanto falava nos corpos das mulheres como nos dos homens. Isso valeu-lhe dissabores quando chegou a Presidente. Levaram as obras completas para o Parlamento, para lerem as passagens mais picantes, e correu o boato sobre a homossexualidade dele.
Decidiu colocar isso no filme.
A passagem mais comprometedora de todas pu-la no filme. Pus o inimigo do Teixeira Gomes, o Cunha Leal, a ler essa passagem. O filme não esconde isso. Simplesmente, ao fim de oito anos de pesquisa, a minha sensação é a de que ele nunca praticou.
O Teixeira Gomes nunca praticou a homossexualidade?
É a minha convicção. Que tinha essa sensibilidade mas que havia ali um tabu para passar à prática. Quando o jornalista Norberto Lopes, no fim da vida do Teixeira Gomes, o foi entrevistar à Argélia e lhe colocou a questão, ele soergueu-se da cama, indignado. Cheguei a pôr a hipótese de que teria ido para o Norte de África por causa dos rapazes…
É o que muitos sugerem…
Não seria caso único. O André Gide descobriu na Argélia, justamente, a sua homossexualidade. Mas o Teixeira Gomes era um homem ‘à femmes’, sempre com muitas paixões, muitas mulheres. Só que não se coibia, nos seus escritos, de ser livre. E como tinha essa sensibilidade homoerótica não tinha problemas em escrever sobre o assunto. Mas na vida de homem dele, não me parece que tenha praticado.
Demorou tanto tempo a concretizar este projecto por dificuldade em encontrar financiamento?
Não. Demorei oito anos porque havia muita pesquisa a fazer. Mesmo na parte portuguesa este período do fim da Primeira República é pouco estudado. A pesquisa da parte argelina da vida do Teixeira Gomes foi ainda mais difícil, porque nem mesmo os biógrafos dele alguma vez lá foram. Foi difícil escrever um guião sobre um homem tão sozinho, um homem que se isolou no Norte de África.
Esteve na Argélia?
Sim. Em 2010 fui para Bugia, a cidade onde ele esteve, e consegui encontrar pessoas, velhotes que ainda se lembravam do tempo do Teixeira Gomes, consegui reconstituir a vida do nosso protagonista argelino, o empregado do hotel onde ele ficou e que o ajudou muito quando estava muito velhinho. Falei com os filhos desse homem. Depois, a montagem de um filme de época é sempre complicada… Parece um filme de grande produção, mas na verdade foi feito com meios modestos.
Teve um milhão de euros para fazer ‘Zeus’?
Sim. Um milhão: 600 mil portugueses e 400 mil argelinos. Não é muito para fazer um filme de época. Tivemos de filmar a um ritmo duas ou três vezes superior ao que é habitual e razoável. Mas não se nota muito, acho eu.
Como escolheu o elenco? Foi para si óbvio que o Sinde Filipe iria fazer de Manuel Teixeira Gomes?
Sou ator e encenador, conheço muito bem os meus colegas. Foi fácil encontrar alguns elementos, para outros papéis fiz audições. Sou muito exigente a nível das interpretações, portanto fiz audições até encontrar as pessoas certas. O Sinde foi uma pessoa certa. Hesitei na questão das idades. Punha o homem nos 65 anos, quando parte de Portugal? Ou nos 81, que é quando morre? O Sinde não é pequeno nem franzino como era o Teixeira Gomes, mas em boa hora o escolhi porque tem uma interpretação esmagadora. O Eduardo Lourenço disse que ele é o nosso Mastroiani. A distinção, a elegância, a inteligência… O que este filme vai revelar é um Sinde que há muitos anos não se vê: de uma sensibilidade extrema, com imensas cambiantes.
O restante elenco foi escolhido com que premissas? O que procura num ator?
Pesquiso muito sobre uma nova forma de representar. E acho que se deve procurar uma nova forma de representar tanto nos palcos como no cinema. Uma presença de outro tipo… O que procuro é o ator que não se nota que está a representar. O ideal é que pareça que estamos a filmar um documentário. Como se a câmara estivesse ali a filmar pessoas que existem mesmo e não atores que decoraram um texto. E há outra coisa: gosto quando os atores fazem uma espécie de dança… Diz-se que são precisos dois para o tango. Atores que se escutam e improvisam um pouco. Gosto de atores que saibam escutar e interagir com os outros.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.