A emigração de Maria João Pires para o Brasil – que se desconhece ainda se é temporária ou definitiva – causou “alguma surpresa” e “indiferença” em Castelo Branco, onde a pianista fundou, há sete anos, o Centro de Estudos das Artes de Belgais (CEAB). As reacções devem-se, sobretudo, ao facto de estar assegurada a continuidade do projecto e porque a artista apenas deixou a presidência da associação.
Maria João Pires diz que foi viver para o Brasil por ter sido “vítima de uma verdadeira tortura” para realizar o projecto e para se “salvar dos malefícios de Portugal”. A pianista refere ainda que sofreu fisicamente pela dedicação ao CEAB. Deixou a sua presidência há um mês numa assembleia geral em que indicou o coordenador artístico, o maestro César Viana, como novo responsável directivo.
No entanto, César Viana referiu ontem que Maria João Pires “não vai deixar Portugal”. Está no Brasil “em repouso devido à recente operação” a que foi sujeita e apenas deixou de tratar das questões administrativas. “Agora é a responsável pelas áreas artísticas e pedagógicas, integral e exclusivamente”, adiantou, considerando que a nova situação até é melhor, porque, assim, a pianista vai poder dedicar-se em exclusivo às áreas mais importantes. Não está em causa a continuidade do CEAB, explicou, que “ainda vai ter mais qualidade”.
Apesar destas declarações, a verdade é que Maria João Pires viu as autoridades brasileiras aceitarem o pedido de imigração autorizando-a a viver no Brasil, na residência que adquiriu nos arredores de São Salvador, capital da Bahia, onde quer dar corpo a uma ideia semelhante à de Belgais.
A pianista queixa-se da pouca importância que Portugal dá à Cultura e da falta de apoio às suas actividades, mas o Ministério da Cultura revelou ontem que apoiou o CEAB em 2003 com 65 mil euros – “no âmbito da missão de descentralização cultural” – e que “até hoje essa verba nunca foi justificada”. Já o Ministério da Educação revelou um apoio de 1,8 milhões de euros desde 2000. O CEAB é ainda apoiado por outros organismos nacionais e estrangeiros.
Em sete anos, Belgais, que muitos consideram “algo elitista”, foi-se impondo e abrindo à comunidade local, ganhando maior visibilidade com o Coro Infantil. Mesmo assim, a situação actual é vista com alguma “indiferença” pela população da zona. No CEAB, a anunciada emigração de Maria João Pires causou “surpresa”. Em qualquer dos casos, com a garantia da continuação do projecto, os maiores receios não chegaram a avolumar-se.
O presidente da Câmara de Castelo Branco, Joaquim Morão, escusa-se a fazer considerações sobre o assunto, adiantando apenas que “Castelo Branco sempre a tratou bem e apoiou os seus projectos e sempre esteve na primeira linha de defesa de Belgais”.
Por outro lado, o maestro António Vitorino d’ Almeida afirmou “compreender” a posição da pianista. “Foram prometidos mundos e fundos e depois faltaram-lhe ao prometido. Acho que ela fez muito bem e, apesar do grande investimento feito, tendo o centro sido ideia dela, não deve continuar”.
Quanto ao maestro da Sinfonieta de Lisboa, Vasco Pierce de Azevedo, diz compreender as queixas de Maria João Pires, pois “Belgais nunca foi muito bem entendido pelos agentes culturais”. “Em Portugal os artistas são ignorados pelas instituições e pelos públicos”, referiu, por outro lado, o maestro Pedro Ferreira, da Associação Miso Music. “É natural (a escolha da pianista), pois lá fora há um outro público e um outro reconhecimento”.
Aos 62 anos, é uma das maiores pianistas da actualidade. Maria João Pinheiro Pires da Silva Guimarães nasceu em Lisboa e estreou-se em público aos quatro anos, dando o primeiro recital um ano depois. Aos sete, já interpretava concertos de Mozart. O reconhecimento internacional veio com o Primeiro Prémio do Concurso do Bicentenário de Beethoven, em 1970, em Bruxelas. Toca, ou já tocou, com as maiores orquestras mundiais e nas mais conceituadas salas de concertos.
'NÃO ESTÁ A SER JUSTA'
“Portugal sempre acarinhou muito Maria João Pires e sempre acarinhou muito o projecto educativo de Belgais”, afirmou a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, respondendo também na RDP às queixas da pianista sobre “os malefícios que Portugal” lhe estava a fazer.
Segundo a ministra, “Maria João Pires não está a ser justa para o seu País”, já que teve “muitos apoios, muitos mesmo”, do erário público quer através do Ministério da Educação, como da Cultura, da Câmara de Castelo Branco e dinheiros comunitários do INTERREG”, e “uma coisa é a artista e outra a gestão do projecto Belgais”.
OS OUTROS EMIGRANTES
José Saramago - Em 1991 abandonou o País para se fixar em Lanzarote, Ilhas Canárias, depois de ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ ter sido retirado da lista de nomeados para o Prémio Literário Europeu, pelo então sub-secretário da Cultura, António Sousa Lara.
Paula Rego - Vive desde 1975 em Londres. É viúva do artista britânico Victor Willing.
Maria de Medeiros - Sente-se em casa em França.
Eduardo Lourenço - Várias vezes galardoado em Portugal, vive em Vence, França.
- 65 mil euros do Ministério da Cultura
- 1,8 milhões de euros do Ministério da Educação
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