O Teatro da Cornucópia regressa ao tons de comédia com ‘Os Desastres do Amor’, espectáculo que Luís Miguel Cintra concebeu a partir de vários textos de Marivaux (1688-1763) e que se oferece ao espectador como um delicioso mergulho no mundo dos deuses, da luta entre o Bem e o Mal, do confronto entre as virtudes e os defeitos humanos. Mas este é também um espectáculo em que se repensa o amor e a forma como a moral vigente condiciona a felicidade individual.
Luís Miguel Cintra, que reuniu, cortou e coseu os textos em dez dias, pretende que ‘Desastres' seja um convite à fruição da "inteligência, leveza e liberdade" que existe na obra de Marivaux, mas que desperte também a reflexão.
"Os artistas não podem resignar-se a fazer espectáculos fáceis", diz ele, que convidou para cúmplices desta proposta actores como Rita Blanco, Teresa Madruga, Vítor D'Andrade, Rita Durão ou Nuno Nunes.
"Os actores foram fundamentais neste processo - e se não tivesse este elenco não poderia ter feito o espectáculo", diz. "Este trabalho, que parece simples, é muito difícil de fazer, porque estamos sempre a jogar entre o que é explícito e o que é oculto, entre aquilo que o espectador sabe mas a personagem não pode saber."
ESPECTÁCULOS PARA UMA NOVA ERA
No texto com que apresenta ‘Os Desastres do Amor', Luís Miguel Cintra fala do nascimento de uma "nova Cornucópia", desde ‘Miserere', em 2010. Uma companhia mais livre, que passou a levar à cena cada vez menos peças de autores e cada vez mais colagens de textos desses mesmos autores. Uma companhia que, fazendo jus ao seu nome (cornucópia = corno da abundância, fonte de onde tudo brota), junta agora em palco textos que são de teatro com diálogos filosóficos, música de Nino Rota com Verdi e Zézé di Camargo, figurinos de diferentes épocas e estilos, deuses do Olimpo com simples mortais, num puzzle destinado a desafiar qualquer espectador.
São muitas as histórias que aqui se contam e se cruzam, mas a principal é a de Felícia (Rita Blanco), uma mulher que interiorizou a moral vigante ao ponto de não se atrever a questioná-la, perdendo assim a possibilidade de ser feliz.
Pelo meio, há discussões filosóficas entre os deuses e uma corrida ao Jardim da Fortuna, ao qual se chega apenas depois de ignorar um senhor chamado Escrúpulo (!).
Luís Miguel Cintra diz que lhe apeteceu falar sobre a decadência da cultura e a morte dos valores que edificaram, ao longo de séculos, a sociedade ocidental. O que fez foi construir um mundo cénico onde, apesar do cinismo, nos apetece estar porque nos faz sorrir e nos exercita o raciocínio. ‘Desastres' é uma brincadeira muito séria que nos diverte e nos questiona e que termina a 25 de Novembro.
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