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Correio da Manhã

Desporto
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Duelo de divas

A jornada dos oitavos-de-final de Wimbledon é o melhor dia do ano no circuito tenístico profissional – e no menu constam alguns duelos fabulosos entre grandes campeãs, acérrimas rivais e esperanças nacionais. Após o tradicional domingo de descanso, merecido após uma primeira semana alucinante, a 124º edição do mais prestigiado torneio de ténis do mundo passa da fase selectiva para a fase decisiva.
27 de Junho de 2010 às 18:59
Maria Sharapova volta a defrontar Serena Williams em courts de relva pela primeira vez desde que a russa bateu a americana na final de Wimbledon de 2004
Maria Sharapova volta a defrontar Serena Williams em courts de relva pela primeira vez desde que a russa bateu a americana na final de Wimbledon de 2004 FOTO: EPA

Wimbledon é o único torneio do Grand Slam a ter uma jornada de descanso durante a quinzena competitiva – é uma tradição obrigatória (houve somente três excepções desde 1877, para recuperar um atraso excessivo devido à pluviosidade verificada na primeira semana) com uma jornada sabática!) que permite um dia de descanso para recuperar a delicada relva dos courts, restabelecer as forças dos tenistas e oferecer um pouco de normalidade à vizinhança do All England Club.

E bem que a 124ª edição do mais prestigiado torneio de ténis do mundo precisava de uma jornada sabática de domingo, após uma alucinante primeira semana que incluiu a séria contestação de jogadores ‘menores’ aos campeoníssimos Roger Federer e Rafael Nadal, o mais longo encontro de ténis de todos os tempos que estabeleceu recordes até à eternidade, a primeira visita da Rainha desde 1977, uma cuspidela onerosa e praticamente um quarto dos encontros do quadro individual masculino até ao momento (28 em 116!) a serem resolvidos somente na quinta partida! Para mais, o Reino Unido ficou em suspenso no domingo para assistir ao encontro do Mundial de Futebol entre a Inglaterra e a inimiga fidagal Alemanha… mas não foi preciso ir a penáltis (1-4).

BILHETE DE OURO

Numa jornada que estabelece a ponte entre a fase selectiva e a fase decisiva, o menu tem de ser forçosamente de luxo e os felizes portadores de ingressos (tão difíceis que de conseguir) para o dia de segunda-feira no All England Club terão à sua disposição tanto quantidade como qualidade...

E dos muitos sumptuosos duelos que constam do programa, há um que promete exacerbar ainda mais uma das melhores rivalidades da modalidade: Serena Williams e Maria Sharapova, as duas mais mediáticas tenistas do planeta, defrontar-se-ão em courts de relva pela primeira vez desde que a russa bateu a americana na final de Wimbledon de 2004, embora Serena tenha batido Maria por quatro vezes nos últimos cinco compromissos. Outro duelo fratricida em grande destaque é o confronto entre as rivais nacionais belgas Justine Hénin e Kim Clijsters (empatadas 12-12 no mano-a-mano!), ao passo que no sector masculino os confrontos teoricamente mais explosivos são Novak Djokovic-Lleyton Hewitt e Andy Murray-Sam Querrey.

PROGRAMA REAL

Eis os acasalamentos referentes aos oitavos-de-final no sector individual masculino:

- Roger Federer (Sui, cs1)-Jurgen Melzer (Aut, cs16)

- Tomas Berdych (Che, cs12)-Daniel Brands (Ale)

- Novak Djokovic (Ser, cs3)-Lleyton Hewitt (Aus, cs15)

- Andy Roddick (EUA, cs5)-Yen-Hsun Lu (For)

- Jo-Wilfried Tsonga (Fra, cs10)-Julien Benneteau (Fra, cs32)

- Andy Murray (Esc, cs4)-Sam Querrey (EUA, cs18)

- Robin Soderling (Sue, cs6)-David Ferrer (Esp, cs9)

- Rafael Nadal (Esp, cs2)-Paul-Henri Mathieu (Fra)

Os duelos referentes a igual fase da competição de singulares senhoras:

- Serena Williams (EUA, cs1)-Maria Sharapova (Rus, cs16)

- Agnieszka Radwanska (Pol, cs7)-Li Na (Chi, cs9)

- Caroline Wozniacki (Pol, cs3)-Petra Kvitova (Che)

- Klara Zakopalova (Che)-Kaia Kanepi (Est)

- Kim Clijsters (Bel, cs8)-Justine Hénin (Bel, cs17)

- Jelena Jankovic (Ser, cs4)-Vera Zvonareva (Rus, cs21)

- Marion Bartoli (Fra, cs11)-Tsvetana Pironkova (Bul)

- Venus Williams (EUA, cs2)-Jarmila Groth (Aus).

MILHÕES E REALEZA

A 124ª edição de Wimbledon estabelece um novo recorde de prémios monetários ao oferecer um total de 13.725.000 libras (9,4% de aumento) e 1 milhão de libras exacto para os campeões de singulares (17,6% de aumento); já assistiu à primeira visita oficial da rainha ao evento desde 1977; no que diz respeito à realeza do palmarés, Roger Federer – que ganhou seis de sete finais consecutivas – procura igualar o recorde de Pete Sampras e continua a ser considerado o maior especialista em courts de relva.

Atendendo à cotação das casas de apostas e mesmo tendo em conta as dificuldades inesperadas sentidas por ambos na primeira semana, as probabilidades apontam para uma final entre Roger Federer e Rafael Nadal, à semelhança do que se verificou entre 2006 e 2008. Nas senhoras, as irmãs Serena e Venus Williams também são favoritas para uma terceira final consecutiva entre ambas na Catedral do Ténis.

LENDAS E MITOS

Dos quatro eventos do Grand Slam que constituem os pilares da modalidade, Wimbledon é o mais antigo e famoso – e preserva todo o seu fascínio graças a uma descarada manutenção das suas velhas tradições, como a do domingo de descanso a meio da quinzena… enquanto, veladamente, procura sempre estar na vanguarda tecnológica. Muitas vezes acusado de utilizar procedimentos que não pactuam com as exigências actuais, Wimbledon tem como segredo do seu enorme sucesso precisamente o facto de continuar a investir na diferença.

Na verdade, Wimbledon é um anacronismo voluntário. Ao contrário do US Open e o Open da Austrália, que trocaram a frágil relva por courts sintéticos mais resistentes, o All England Club resistiu à tentação e constitui um autêntico oásis de clorofila no meio dos hardcourts e da terra batida do circuito profissional. O grande mérito da organização foi o de operar mudanças fazendo parecer que nada muda: fala-se muito que o torneio está virado em demasia para o passado, mas os seus responsáveis foram decisivos na passagem à era Open, recusando-se a pactuar com o falso amadorismo vigente até 1968 (amadores que recebiam ‘por baixo da mesa’) e passando a organizar um torneio profissional onde os jogadores seriam pagos pelo seu esforço.

INOVAÇÃO

Para além disso, o futuro está sempre no pensamento dos organizadores — em 1980 fez estrear o primeiro juiz-de-linha electrónico em provas oficiais ao mais alto nível (o cyclops), foi também o primeiro torneio do Grand Slam a instaurar um sistema com 32 cabeças-de-série (o dobro do habitual), foi o segundo evento do Grand Slam a anunciar prémios iguais para homens e senhoras, e se a meio da década passada promoveu a mais cara transformação de uma arena desportiva em Inglaterra (o Court 1), o vetusto Centre Court estreou em 2009 um tecto amovível transparente orçado em 30 milhões de euros! O plano contínuo de remodelação, que ultrapassa os 100 milhões de euros nas suas várias fases, prossegue em 2011 com a estreia do novo Court 3 (que já está pronto mas cuja superfície relvada precisa de mais um ano para ‘amadurecer’).

MAIS CURIOSIDADES

Os primórdios – A primeira edição, jogada em 1877, foi patrocinada... pelos jogadores, que pagaram um xelim cada um para a compra do troféu. Spencer Gore ganhou a prova, mas achava que o jogo de ‘lawn tennis’ não tinha futuro nenhum. Mal sabia ele: na sua 124ª edição, Wimbledon distribui 13,725 milhões de libras;  os campeões de singulares recebem 1 milhão.

Que patrocinadores? – O super-empresário Mark McCormack assegurava que «Nunca ninguém conseguirá patrocinar Wimbledon, tal como ninguém conseguirá patrocinar a cerimónia de coroação da família real inglesa».No entanto, as coisas não são bem assim. Parece não haver publicidade, mas Rolex, Slazenger, Pimm’s e Robinson’s são marcas que têm logótipos discretamente colocados no court central que valem milhões por milímetro quadrado.

90 milhões de lucro – O prestígio do torneio é suficiente para garantir proventos multimilionários (lucros de quase 90 milhões de euros/ano), graças aos direitos televisivos e de exploração de imagem, merchandising, aluguer de camarotes e salas para relações públicas, venda de morangos com chantilly (8 euros a taça, são consumidas cerca de 30 toneladas durante a quinzena), aluguer de almofadas e do parque de estacionamento e venda de bilhetes.

Cariz popular e burguês – O torneio regista mais de 450 mil entradas, mas poderia vender mais ingressos caso abdicasse do dia de folga (o domingo do meio da quinzena); os bilhetes são adquiridos com grande antecedência e muitos são absorvidos pelo mundo empresarial, mas as escassas centenas colocadas diariamente à venda vão para os adeptos puros e duros – que fazem fila durante a noite e à chuva.

Lemas famosos – No corredor à saída da sala de espera para o Centre Court existe uma famosa citação de Rudyard Kipling que passa por ser o ideal do amadorismo: «Se conseguires enfrentar o triunfo e o desaire, e lidar com esses dois impostores da mesma maneira». Outro lema muito conhecido figura orgulhosamente na lapela de muitos casacos: ‘I Queued at Wimbledon’ (estive na bicha em Wimbledon).

Mitos – O Court 2 tinha o cognome de ‘Cemitério’ por se acreditar que ali caem mais cabeças-de-série que em qualquer outro court... e a verdade é grandes campeões já lá perderam, mas isso não voltará a acontecer: foi demolido para dar lugar este ano ao novo Court 3. A crença popular que afirma que em Wimbledon chove sempre também é exagerada: desde 1877, só 31 jornadas foram completamente anuladas devido à chuva e nos últimos anos as quinzenas foram particularmente secas. Mas, em 1991, Nuno Marques começou a jogar a uma segunda-feira… e só acabou na sexta!

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