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Hóquei em patins, remo, judo, luta, atletismo, vela e futebol são alguns dos desportos onde Bóia competiu. Carlos Oliveira, com 61 anos recusa-se a parar e, no passado mês de Setembro, conquistou o título mundial de remo em veteranos. Um verdadeiro caso de longevidade no desporto.
Não há nada de mais gratificante para uma pessoa do que ser reconhecida publicamente pelo seu trabalho, independentemente da sua área. Mas também há aqueles que não se contentam com uma única actividade e que procuram fazer tudo ao mesmo tempo. No mundo do espectáculo, o ‘homem dos sete instrumentos’ sempre cativou miúdos e graúdos e até já serviu de inspiração a uma música do compositor Sérgio Godinho. Esta música acabou por ser publicada em 1972, num ano em que Carlos Almeida Oliveira, mais conhecido por Carlos Bóia, redireccionava este conceito para uma outra vertente: a do mundo do desporto.
Nascido no Barreiro, em 1943, Carlos Bóia sempre mostrou grande apetência para o desporto, fosse ele qual fosse. Podia ter ou não bola, envolver maior ou menor esforço físico, ser colectivo ou individual. O Bairro da CUF - Operário era, em meados dos anos 50, uma das grandes fábricas portuguesas de excelentes atletas. As condições existentes faziam inveja às grandes instituições desportivas e Carlos Bóia desfrutou delas ao máximo. Não se contentou com apenas uma actividade e, ao longo da sua vasta e recheada carreira, deu o melhor de si em desportos diferentes.
Começou a deslizar no hóquei em patins, passou pelo remo, seguindo-se o judo, a luta greco-romana, o atletismo, a vela e também o inevitável futebol, modalidades onde competiu sempre como atleta federado. Os títulos e respectivas taças e medalhas amontoam-se na sua casa do Barreiro e são precisas muitas páginas para se escrever o currículo deste atleta multifacetado. Teve uma participação olímpica, conseguiu num ano ser campeão em três modalidades diferentes, e, actualmente com 61 anos, continua a somar títulos mundiais de remo sénior.
CAMPEÃO AOS 61
Apesar da sua carreira recheada de sucesso, Carlos Bóia continua, nos dias de hoje, a marcar o panorama desportivo português. Os 61 anos de idade nunca foram impedimento para Bóia, e isso ficou bem patente na recente conquista do título mundial de remo, categoria de veteranos, no passado mês de Setembro, em Hamburgo, Alemanha.
Um verdadeiro caso de longevidade no desporto nacional. “Andei aproximadamente seis meses a treinar para esta competição e consegui sagrar-me, finalmente, campeão mundial”, explicou ao Correio da Manhã. Antes já havia participado na competição, tendo sido em 2002 medalha de bronze (Sevilha), no ano seguinte alcançou a prata (em Vichy) e em Setembro passado conseguiu chegar ao tão ambicionado título mundial nas águas germânicas, representando as cores do Clube Naval Setubalense.
“Se há modalidade que eu amo é o remo. Hoje em dia treino quase tantas horas como quando era atleta sénior. Tenho uma boa alimentação, como e durmo bem, e levo uma vida sem grandes excessos.” Sem tempo a perder, Bóia lá vai dividindo os seus treinos entre o Rio Tejo e o ginásio, e tudo já a preparar a sua participação nos Jogos Olímpicos de veteranos (Edmonton, Canadá), no Mundial (Escócia) e na Taça Intercontinental (Barcelona).
DESPORTO NO CORAÇÃO
A vida de Carlos Bóia nunca foi fácil. Barreirense de gema, Bóia teve no grupo Desportivo da CUF a sua segunda casa, quando a instituição atravessava momentos de grande prosperidade no panorama luso. Nas suas instalações lançou-se para o desporto, já que tinha todas as condições de treino à sua disposição, e nelas cresceu para a vida. “Vivíamos todos no Bairro da CUF, que tinha um complexo desportivo fantástico, e aí eram-nos oferecidas uma grande variedade de desportos. Foi aí que comecei a encarar o desporto de uma forma mais séria”, adiantou Bóia ao Correio da Manhã.
A família já se encontrava ligada ao meio desportivo, mas outra razão levou este barreirense a dedicar-se de alma e coração. “O desporto serviu também para fugir à vida, que naquela altura era bastante complicada para todos. Ainda mais a minha mãe faleceu quando eu tinha três anos”, explica. Irrequieto e inconformado por natureza, Bóia considera-se um “dotado para o desporto” e adianta que tão cedo não vai parar a sua actividade desportiva, rendendo-se ao inevitável envelhecimento. “Ainda tenho muita força para dar. Parar é morrer e vou continuar a competir até que as forças parem. Só se está velho quando se morre.”
Mas como qualquer habitante do Barreiro, o Rio Tejo faz parte integrante da vida de Bóia. Serviu não só para alimentar a família quando os tempos eram difíceis, mas também por aguçar-lhe o apetite para a modalidade que ainda hoje, aos 61 anos, faz dele um verdadeiro campeão. “O remo sempre foi o meu desporto predilecto e é o mais completo que há”, avança este campeão, que começou a dar primeiras remadas no tanque da Doca da CUF, quando tinha apenas 16 anos. “Ia muitas vezes com o meu pai, que era pescador, e era eu que levava a canoa e puxava as redes.”
Foi por essa altura que começou a nascer mais um grande valor no desporto português. Da inocência dos seus 16 anos até aos vividos 61 de hoje em dia, Carlos Bóia, que actualmente detém no centro do Barreiro um ginásio com o seu nome, fartou-se de conquistar vitórias com as suas vigorosas remadas. “Pelas minhas contas, tenho mais de 60 títulos na modalidade, desde campeonatos nacionais, bem como luso-brasileiros, mundiais, entre outras competições”. No que diz respeito a internacionalizações, já contabiliza 143.
MULTIFACETADO
Apesar de ter no remo o seu desporto de eleição, Carlos Bóia mostrou toda a sua raça em mais seis desportos – aqueles onde era federado, já que praticava outros mas como simples passatempo, casos da ginástica, basquetebol, andebol, halterofilismo, bem como o ténis de mesa, que servia de forma de distracção quando cumpriu serviço militar no Ultramar.
Em 1973, Bóia cometeu a proeza – ao que parece única no panorama nacional – de conquistar, no mesmo ano, o título nacional em três modalidades diferentes: judo, luta greco-romana e remo. Mas, além destas três, conseguiu ser igualmente campeão no lançamento do disco. No que diz respeito a títulos, foi quatro vezes campeão nacional de luta, ao qual junta seis internacionalizações, e conquistou outros tantos ceptros enquanto judoca.
E, pelo meio de tanta actividade desportiva, Carlos Bóia ganhava a vida no trabalho pesado da metalomecânica pesada, na inevitável CUF, onde exercia a função de caldeireiro. A dar no duro, e aproveitando a experiência que adquiriu na sua função profissional, concebeu e desenhou alguns dos equipamentos que actualmente equipam o seu ginásio. O tempo para as simples distracções do dia-a-dia não existiam, mas Bóia não se importava. “Em tudo o que me metia era para ser campeão”, confessa. E conseguiu-o.
"HOJE ERA CAMPEÃO OLÍMPICO"
Um dos sonhos de qualquer atleta é participar nos Jogos Olímpicos. Carlos Bóia teve a oportunidade de, em 1972, competir em Munique, no remo, juntamente com o colega Manuel Barroso, também ele do Barreiro. A dupla portuguesa, contudo, não conseguiu ir além das eliminatória em ‘double scull’. A embarcação com que haviam conquistado oito títulos nacionais só chegou na véspera à prova, com esta a pesar mais 20 quilos que as da concorrência. Antes da prova, estagiaram na Doca de Alcântara.
Hoje em dia, Bóia acredita, de forma categórica, que tudo seria diferente. “Se eu tivesse agora 25 ou 30 anos, não tenho dúvidas que seria campeão olímpico”, avança o atleta barreirense. Os Jogos de Munique acabaram por ficar marcados pelo terrorismo. “Não assisti ao que sucedeu na Aldeia Olímpica, mas toda aquela situação deixou-me triste. Fiquei um pouco chocado na altura. Se calhar, aquela acção terrorista deu início ao começo desta era”, explicou Bóia, que na cerimónia de abertura desfilou, juntamente com a comitiva lusa, junto da URSS e da RDA.
No Alentejo a mais conhecida história de longevidade desportiva diz respeito a Filipe Manuel, ou se preferirem ‘Sacalhar’, jogador que se mantém no activo apesar dos 51 anos. Este transtagano está inscrito na AF de Évora e dá o seu contributo como médio defensivo à equipa da sua terra, o Valenças, da Divisão de Honra.
Filipe Manuel já representou um sem número de clubes ao longo de 30 anos. Entre 77 e 81, viveu a sua época ‘dourada’ pelo U. Montemor. A voracidade do tempo não perdoa e ‘Sacalhar’ já foi confrontado com uma situação caricata: tinha o filho como colega.
TRIO DE LONGEVIDADE
O pugilista Foreman, o futebolista Stanley Matthews e o basquetebolista Parish são três casos de longevidade. No dia em que apagar as 51 velas, em Janeiro próximo, Foreman quer celebrar o aniversário dentro do ringue. ‘Sir’ Matthews marcou o futebol inglês depois de ter jogado como profissional até aos 50 anos, retirando-se em 1965. Parish ‘afundou’ na NBA até aos 45 anos, tendo conquistado três títulos.
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