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Correio da Manhã

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PAULO OLAVO E CUNHA: ESPERAVA UM PRESIDENTE MAIS FORTE

Paulo Olavo e Cunha, Presidente da Mesa da Assembleia Geral do benfica, defende que os dirigentes eleitos devem ser remunerados, reconhece que no mundo do futebol o que hoje é verdade pode, amanhã, ser mentira e diz que o estádio é a grande mais-valia desta direcção. A um mês de deixar o cargo, fala dos últimos três anos do Benfica.
11 de Setembro de 2003 às 00:00
Paulo Olavo e Cunha
Paulo Olavo e Cunha FOTO: João Trindade (Record)
Correio da Manhã – Um balanço deste mandato.
Paulo Olavo e Cunha – Há dois balanços. O Benfica reconquistou credibilidade, pagou os impostos, iniciou o processo de estruturação e de saneamento financeiro, fez um estádio. O balanço desportivo, é evidente que não é bom. Esta direcção herdou uma equipa enfraquecida mas a política inicial também não foi a melhor. Esvaziou-se a equipa com as saídas do Maniche e do van Hooijdonk, que foi só o melhor marcador do campeonato holandês, na época seguinte. Isto para não falar do Marchena. Neste caso, o Benfica deixou sair um grande activo.
–A saída de Mourinho foi um erro?
– A saída do Mourinho, cuja capacidade e competência me parecem inquestionáveis, também não ajudou. Mas as culpas não são imputáveis à direcção. Mourinho saiu porque quis. Sem grandes meios financeiros disponíveis foi difícil colmatar as deficiências e, em 2000-2001 o SLB obteve o pior resultado final de sempre da sua história: um 6.º lugar.
– Preferia Mourinho a Toni?
– Mourinho saiu também porque quis. Na altura falava-se no Sporting e curiosamente, o seu empresário à época é aquele que hoje mais jogadores representa no Benfica. É uma ironia.
– E o que pensa dessa ironia?
– Para responder a essa pergunta teria que fazer um juízo crítico acerca de um dos prováveis candidatos às próximas eleições do clube e não quero fazê-lo.
– Acha que após uma classificação tão má no campeonato, o Benfica deveria ter feito logo alterações?
– Sem querer pôr em causa os dirigentes, impunha-se uma imediata alteração no comando da equipa. Mas estava em causa o treinador do presidente...
– Esperava um presidente mais interventivo?
– Esperava sobretudo um presidente mais forte, mais autoritário e mais presente. Mas penso que o próprio dr. Vilarinho não perspectivou devidamente a dificuldade do cargo a que se candidatou. Mas tem o grande mérito de se ter empenhado decididamente na recuperação económica e financeira do clube.
– Ficou desiludido com Manuel Vilarinho?
– Eu não conhecia o dr. Vilarinho. Percebi, mais tarde, que é um homem muito preocupado em conseguir consensos e isso, por vezes, não é positivo. Os adeptos gostam de pais fortes, que sejam até um pouco autoritários.
– Hoje, a figura do Benfica que mais diz aos sócios é um espanhol. Concorda?
– Concordo. Não está em causa a nacionalidade mas a verdade é que os sócios vêem no treinador a tal figura forte, decidida, que se preocupa mais em fazer e dizer aquilo em que acredita do que em promover consensos.
– É o seu treinador?
– É o treinador dos sócios. A pergunta que os sócios mais vezes me fizeram foi de longe se o Camacho assinava ou não mais um contrato. Isso revela o anseio da massa associativa.
–Aposta na vitória do Benfica nas Antas?
– Não me passa pela cabeça que o Benfica perca.
– Acredita nesta equipa?
– Desde que se mantenha uma ossatura, como faz, por exemplo, o FC Porto, penso que é possível.
– Os resultados desportivos são determinantes para eleger o próximo presidente?
– Penso que não, da mesma forma que, para mim, não foi Jardel quem elegeu Manuel Vilarinho, que ganhou com dois terços dos votos.
– Vai votar, a 31 de Outubro?
– Ainda não decidi se vou ou não exercer o meu direito de voto. Mas não vou revelar simpatias ou antipatias porque quero manter a isenção.
– Disse uma vez que estava desiludido com o dirigismo desportivo. Porquê?
– Os clubes são grandes empresas. Quando vim para o Benfica julgava que vinha encontrar uma empresa organizada, aquele Benfica organizado e grande e o que o vi foi uma estrutura muito ténue. Aí tive uma grande surpresa. Percebi, então, que não basta ter grandes jogadores e pagar-lhes bem. É preciso uma estrutura humana e logística capaz. Por outro lado, também percebi que é realmente um mundo onde o que hoje é verdade pode amanhã ser mentira.
– Que más recordações guarda destes anos?
– Posso dizer que 2000 foi um ano em que tive de gerir situações complicadas. Até a questão do estádio não foi simples.
– Foi um defensor do estádio...
– Se o Benfica não tivesse construído o estádio, como é que os sócios iriam encarar a realidade – que desportivamente foi má – quando comparada com os outros clubes, nomeadamente o FC Porto e o Sporting? O estádio é a grande mais-valia desta direcção.
Mas eu diria que a haver um homem do estádio ele chama-se Mário Dias. Sem o Mário Dias não teria havido estádio.
– Voltando às más recordações...
– Houve crises desagradáveis. E começaram desde logo em Novembro de 2000 quando tivemos quem não aceitasse os resultados eleitorais. Em Junho de 2001, quando Vítor Santos voltou do Brasil e ‘partiu a loiça’, criou-se um ambiente muito tenso assim como não foi fácil gerir a demissão de Luís Nazaré.
– Vieira chamou-lhe papagaio...
– O autor dessa infeliz e descabida frase pediu pessoalmente desculpa.
– E Vítor Santos acusou-o de ter espírito de merceeiro...
– Sabe que, em Portugal, as asneiras não pagam imposto.
– Que mudaria nos estatutos?
– Os estatutos precisam de uma actualização.Por exemplo, defendo que é mais legítimo remunerar as pessoas que são eleitas do que as que as que são escolhidas, como entendo que o Conselho Fiscal deve ter um papel mais activo ao nível de todo o grupo empresarial.
– Vai dirigir uma penúltima Assembleia em plena campanha eleitoral. Teme o pior?
– Não tenho medo. Quem tem medo compra um cão.
PERFIL
Paulo Olavo Cunha nasceu 1961 e é sócio do Benfica há mais de 30 anos.
Advogado e mestre em Direito foi convidado por Manuel Vilarinho, que não conhecia – para encabeçar a lista concorrente à presidência da Mesa da Assembleia Geral nas eleições de 2000, nas quais Vale e Azevedo saiu derrotado.
Ao contrário de outros elementos da lista com quem, de resto, tinha afinidades na forma de conduzir o clube, como é o caso de Luís Nazaré, Paulo Olavo Cunha sempre afirmou que estava disposto a cumprir o mandato.
A um mês de abandonar o clube e o dirigismo desportivo diz que não se arrepende de ter aceite o convite de Manuel Vilarinho.
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