A história repete-se: a sombra da corrupção regressa ao futebol português, de novo no concelho de Gondomar e com um interveniente já condenado no processo ‘Apito Dourado’. Martins dos Santos, antigo árbitro de futebol, foi detido pelos investigadores da Polícia Judiciária do Porto, depois de ter pedido cinco mil euros à Associação Desportiva de São Pedro da Cova para garantir a permanência do clube gondomarense na Divisão de Honra da Associação de Futebol do Porto. O dinheiro seria, posteriormente, distribuído por árbitros e árbitros assistentes.
O presidente do emblema da distrital contactou a Judiciária e, já em operação conjunta com as autoridades, aceitou desembolsar 1100 euros, alegando não conseguir reunir a tempo a quantia total requerida pelo ex-árbitro de primeira categoria. O encontro foi marcado para as 21h00 de anteontem, num café no centro de Gondomar, e as notas a entregar foram marcadas. Martins dos Santos acabou por ser apanhado, em flagrante delito, na posse das mesmas notas, que estariam dentro de um envelope, num casaco do arguido.
No automóvel do antigo árbitro, foi ainda encontrada uma lista com os clubes que, presumivelmente, teriam direito a benefícios por parte da arbitragem nas últimas jornadas dos campeonatos. Um documento em tudo idêntico aos que foram apreendidos no âmbito do processo Apito Dourado e que indicia manter-se o esquema de corrupção nas divisões inferiores do futebol português.
O agora responsável do Núcleo de Árbitros de Futebol ‘Francisco Guerra' (é vice-presidente do Conselho Fiscal, um órgão presidido por Paulo Paraty) foi indiciado pelo crime de tráfico de influências e foi ontem presente ao Tribunal de Gondomar - o mesmo em que se desenrolou grande parte do processo ‘Apito Dourado' -, tendo saído com termo de identidade e residência.
Martins dos Santos preferiu não prestar quaisquer declarações, nem ao Ministério Público de Gondomar nem ao juiz de instrução.
PRESIDENTE DO SÃO PEDRO DA COVA DIZ QUE TEVE "ATITUDE DE HOMEM"
Vítor Silva é o presidente da Associação Desportiva de São Pedro da Cova, colectividade de Gondomar que ocupa a 13ª posição da Divisão de Honra das Distritais do Porto, o escalão mais alto a este nível, e foi quem colaborou com a Polícia Judiciária na acção que resultou na detenção de Martins dos Santos.
"Tive uma atitude de homem, mas desculpe, não quero falar mais sobre isto", disse, em conversa telefónica com o CM, o dirigente gondomarense, reencaminhando qualquer esclarecimento adicional para o advogado que o representa.
Quer junto ao Tribunal de Gondomar, quer nas proximidades do Estádio do Laranjal, poucos eram os comentários em torno do caso que envolve Martins dos Santos.
Além da equipa sénior, que compete nos Distritais do Porto, o São Pedro da Cova conta com os diversos escalões de formação.
PUNIDO NO 'APITO DOURADO'
Não é a primeira vez que Martins dos Santos está a braços com a Justiça. O antigo árbitro da Associação do Porto conta já com duas condenações - uma delas em recurso - no âmbito de processos ligados ao ‘Apito Dourado'.
No caso do Marítimo-Nacional, de 2003/04, o ex-juiz do Porto foi condenado a 20 meses de pena suspensa, por corrupção desportiva passiva, num julgamento que decorreu em Gondomar, onde Martins dos Santos voltou ontem. Contudo, a Relação do Porto viria a ordenar a repetição do julgamento.
Na segunda situação, estava em causa um jogo entre o Vilaverdense e o Maria da Fonte, da 3ª Divisão, sendo que ao filho de Martins dos Santos - o também árbitro Daniel Santos - terá sido oferecida meia libra de ouro. Martins foi absolvido em primeira instância, mas viria a perder na Relação. Numa decisão justificada como "prémio de carreira", o então árbitro foi nomeado para a inauguração do Estádio do Dragão, recinto do FC Porto, a 16 de Novembro de 2003. Arbitrou o jogo com o Barcelona.
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