À moda de um casal lusitano

Nenhum mestre lhes ensinou. Nem precisava. O prazer deu-lhes o dom. Marco, publicitário esporádico, e Odete, ajudante de enfermagem, mal acendem as luzes das câmaras transformam-se em ‘Pedro’ e ‘Diana’. Ela já encarnou uma mulher que para saciar o voo da fantasia do parceiro vestiu a bata de enfermeira.

17 de fevereiro de 2008 às 00:00
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Também protagonizou, com asas mais ousadas, uma respeitável senhora que quis salvar o casamento tendo desinibidas relações sexuais com outros cavalheiros. Ele desempenha, invariavelmente, o papel de querido companheiro o que nesta senda, claro, não equivale a exclusividade carnal. Não há crise.

Apesar de ciumento, os ciúmes não fervem. “No momento em que entramos em cena deixamos de ser nós próprios.” Nascem papéis. Mais nada. A realidade morre à porta. Nunca lhe apeteceu rachar o queixo a alguém que, em plena cena, toque na sua senhora. Nunca se sentiu tentado em dar um estalo ao actor do lado, da frente ou o do meio da festa libidinosa.

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Sabe que as criaturas que integram as filmagens sustentam um propósito: Trabalhar. Ganhar dinheiro. Em cash. “Pensam que é fácil.” Errado. É o contrário. Só quem passou pela experiência compreende o estorvo que representa manter acesa uma intimidade perante flashs e gente estranha. Laborioso. É. Bastante. Constrangedor que se farta. Sobretudo para os homens.

Marco acende um cigarro. Odete abraça-o. “Na primeira vez, a coisa não correu muito bem, mas depois tudo foi ao lugar.” Um amigo médico prescrevera-lhe, pelo sim, pelo não, um medicamento específico para a disfunção eréctil. Ora bem. Tudo mal. Essa dificuldade de funcionamento representa, para todo o sempre, uma ave rara para o másculo de Queluz. Os efeitos do santo remédio só conseguiram ter os efeitos secundários. Fortes dores de cabeça. E enxaquecas misturadas com o nervoso da estreia deram para o torto. Por momentos. A natureza não é um elevador. É amiga.

'A ENFERMEIRA PORTUGUESA'

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Entre as cassetes de vídeo “A Enfermeira Portuguesa “ e “As Orgias de Diana” e a vida real no Penedo, Parede, mora um elo em comum: Marco e Odete estão casados. São marido e mulher perante a lei há dois anos e meio e engenhosos da pornografia desde Dezembro de 2006. “Não tivemos outra escolha.”

A moça alentejana e o ex-Testemunha de Jeóva não esquecem a verdadeira odisseia que, asseguram, não lhes deu mais nenhuma alternativa. O percurso de cada um uniu-os com laços rijos de caminho difícil. Odete é natural de Beja e em Maio fará 28 anos. Aos 17 anos decidiu que o seu destino assentava em Elvas. “Não foi fácil.” Ao mesmo tempo que trabalhava numa residencial, frequentou, em Évora, o curso de auxiliar de enfermagem. Conheceu o ex-marido. Tem um filho.

O enlace amoroso deteriora-se. É traída. Fica desempregada. A sua mãe morre. Odete decide partir com o pequeno Armando para Portalegre, para procurar sustento. Os braços de Marco sabem, desde os 13 anos, o que é ser servente de pedreiro. A pobreza retirou-o da escola. Uma divisão sem espaço para seis adultos constituiu a sua juventude. Até à maior idade seguiu os ensinamentos de Jeóva.

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Depois, não mandou a religião dar uma curva, afastou-se. A reforma forçada do pai empurrou a família para Portalegre. Um rebento é a consequência de uma relação fugaz. Mais tarde, conhece a segunda companheira e nasce o segundo rapaz. Deixa a construção civil e vai para uma fábrica de borracha. É no meio fabril que o destino de Marco e Odete tem encontro marcado. “O nosso amor foi à primeira vista”, dizem em coro. Contudo, à vista dos olhos dos familiares de Marco não foi o amor que surgiu. Foi o diabo que veio. Juram que o matrimónio vai para a tumba com o defunto. Marco ignorou a sentença. Divorcia-se.

A 1 de Junho de 2005 já são marido e mulher. Os irmãos de Odete, residentes na Suíça, convidam-nos para tentarem a sorte no país dos chocolates. Aceitam. Despedem-se dos empregos. Vendem o recheio da casa. Entregam o apartamento ao senhorio. Marcam três bilhetes de avião. Mas todos ficaram em terra. “Na hora H disseram que ainda não era a altura.” Fecham-se umas portas e escancaram-se outras. O irmão de Odete, que vivia em Beja, diz-lhes para irem ter com ele. Mais: Uma obra esperava por Marco.

E um restaurante pela Odete. “Ao princípio tudo correu às mil maravilhas, mas depois veio o pior.” O prédio em construção ficou embargado. E um homem desempregado no Alentejo é um clone da lepra. Todos fogem de ele. “À meia-noite puseram-nos na rua.”

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Dormiram num carro comprado em terceira mão e antes de o nascer do Sol nasceu a decisão: sairiam daquele íman de azar. A esperança que os retiraria do frio encontrava-se na mala de Odete; a chave da antiga habitação de Portalegre. É verdade que nunca a poderiam rodar para abrir.

É verdade que estão conscientes de essa infracção. “Mas naquela aflição, não nos sobrava outra alternativa.” Marco accionou a ignição e os pedais só pararam na entrada do edifício. No interior de um espaço vazio, sem luz e água, havia o principal: um chão para uma criança dormir.

E as boas-novas chegavam. O padrinho de casamento quis suavizar o tormento. “Disse-nos para irmos para Lisboa, que num ápice arranjar-me-ia trabalho”, relembra Marco. Os últimos cinquenta euros encheram meio depósito de gasolina.

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O automóvel seguiu em direcção ao Cacém. “Ficámos num lugar que cheirava a mijo de gato.” Muito pior do que o olor dos animais inocentes foi o facto do animal do padrinho ser um mentiroso de luxo.

Conseguiram sobreviver com um montante enviado por uma parente de Odete, mas a sobrevivência duraria pouco. Sobejava pouca comida e a higiene eram toalhetes. “Além do mais, o miúdo tinha que entrar na escola.” Terá sido este carrossel de desgraças o responsável para que dessem um passo gigante.

Lembraram-se dos bons tempos. Esses tempos em que a intimidade sexual era como um trovão. No pouco que lhes restava havia uma cassete onde estavam gravadas instantes da prática de essa intensidade amorosa. Trinta segundos de sexo conjugal sem barreiras. “Perguntei à minha mulher até onde ela estava disposta a ir.”

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Pelo filho, Odete faria tudo. O tudo que sobrava era levar a cassete à NaturalVídeo, uma produtora que no passado, por graça, tinham vasculhado na internet. Naquela hora, a brincadeira passara a um caso sério. Já não fariam marcha-atrás. Dirigiram-se aos estúdios na Póvoa de Santa Iria.

“Tivemos sorte.” O director estava lá. Após ter visto o conteúdo, a reacção do boss ultrapassou as expectativas: “Adorou.” E pronto.

O convite chegou e foi aceite. Marco e Odete tornar-se-iam vedetas do reino porno. Para que se saiba. O contrato para cada filme não é elaborado às três pancadas. O candidato submete-se a uma pequena entrevista. Se é bissexual ou heterossexual, se sente algum chilique em actuar com pessoas de outras raças, se fazem assim, assado, frito e cosido.

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A questão da saúde é colocada e permanece nas mãos dos intervenientes. “Perguntam-nos se queremos fazer com ou sem preservativo.” No calo que lhes toca, Marco e Odete dispensam métodos contraceptivos.

Mas nas vezes em que contracenam com outros indivíduos, nem pensar. O mercado nacional ainda põe à-vontade os actores deste ramo. Já nos Estados Unidos da América a paisagem muda de figura. Quando uma produção decide que não haverá camisas-de-Vénus ou de Marte, o séquito artístico sujeita-se a análises clínicas.

Uma coisa é certa. “Eu só sou pago se chegar ao fim.” E não é da linha. A anatomia deve dar a prova final. Não é o caso de Odete, mas as senhoras podem ser favorecidas. Fingem um, vinte orgasmos que nem um detector de mentiras as apanha. Ainda falam de machismo.

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“Numa película pornográfica de carácter heterossexual a mulher é a rainha. O homem é apenas um adereço” assegura Marco. São as damas que mais brilham e são elas que decidem qual é o procedimento sexual.

Os senhores, apesar de carregar o fardo da obrigação de estarem operacionais, durante, valentes, quase seis horas, têm competências secundárias e se quiserem entrar em cena só devem acatar os desejos femininos. Não. Não há guião. Não há diálogos a decorar.

Palavras para o quê? O realizador revela o tema e os artistas improvisam. “Ganha-se bem.” E uma tosse seca para despistar a pergunta. Quanto? Cinco mil euros? “Talvez não tanto.” Talvez não queiram revelar a quantia. Simplesmente afirmam que não recebem por filme e sim por cena.

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Cada uma, filmada em estúdios ou em casas particulares, atinge os cinquenta minutos. “Um jornal escreveu que nós tínhamos feito um filme em nossa casa. É mentira. Nem podíamos.”

Por respeito ao filho. “Ele está a par da nossa actividade.” Marco explicou-lhe numa conversa que mais parecia de homem para homem. Não esperam pela fama. Nem a fama por eles. “O que nós esperamos é só uma coisa”: entrar num café e os olhares saírem do canto do olho. É para o lado que dormem melhor. Os frutos é que são o mais importante: Armando retomou os estudos.

Alugaram um apartamento. Há televisão. Computador portátil. PlayStation. Pergunta-se. Sem reticências. Até quando é que continuarão com este biscate? “Até atingirmos os nossos objectivos.” Dar o melhor ao filho. Liquidar dívidas. Comprar uma casa. Ter uma vida desafogada. “Em Portugal, o mais importante não é a saúde.” Nem o Sporting. “É o dinheiro.” E quem ultrapassa os trinta anos sem poiso profissional “está tramado.”

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Por tal, continuarão a actuar em filmes onde o corpo é a personagem principal. Muito menos agora, com a sólida hipótese de Odete penetrar a esfera internacional. Não foi para a Suíça, mas irá para os Estados Unidos da América. O convite não se estendeu a Marco. Ele não se zanga. “Lá fora, os produtores só contam com os actores habituais.” Para não haver surpresas em campo, os americanos não arriscam em talentos desconhecidos.

Marco entende. Conhece de cor as meias horas que o físico teima em não levantar voo. “Geralmente é quando o produtor diz que quer esta ou aquela posição.” Mais para a direita, ou menos para a esquerda.” Mas o ser humano recupera”. Sem truques. Basta que Odete esteja por perto.

"O ACTOR DE UM FILME PORNOGRÁFICO É UMA PESSOA NORMAL"

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Paulo Costa está à frente da NaturalVídeo, a editora de filmes pornográficos que desde a sua existência - 1 Março de 1999 - já produziu 600 filmes para adultos, nos formatos VHS e DVD.

- Como define a produtora?

- A NaturalVídeo produz filmes para adultos com a regularidade possível e de acordo com as respostas do mercado. Fomos nós quem decidimos muitas das regras, como o lançamento de filmes temáticos.

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- Comercializam só em Portugal?

- Por agora só, mas estamos a desenvolver esforços para chegarmos junto de outros mercados, nomeadamente os países lusófonos.

- Qual é o staff necessário para a produção de um filme pornográfico?

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- Depende do número e do tipo de cenas que o filme terá. Só após a ideia ter sido elaborada é que fica definido o número de actores.

- De que forma é feito o casting?

- Temos no site um link onde as pessoas se podem candidatar. De acordo com as filmagens a fazer, há uma primeira selecção. De seguida, marcamos entrevistas para aferir o perfil dos candidatos. Em caso de ser seleccionado, é assinado um contrato.

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- Há requisitos para se ser um actor de filmes pornográficos?

- Em 1º lugar, a vontade do próprio. Deve ser uma pessoa normal, e que o produtor considere que se enquadra no que pretende e no que agradará ao público.

- Quantos actores colaboram convosco?

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- Não temos actores residentes. Apenas temos alguns com quem contamos habitualmente.

- Os actores são portugueses?

- São só portugueses.

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- Quanto é que ganha um actor de filme pornográfico?

- Depende do número e do tipo de cenas, mas isso é um assunto que só diz respeito ao actor e à produtora.

- É verdade que uma actriz pode auferir mais do que um actor?

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- Sim, porque é ela a estrela.

- Há diferença entre a produção nacional e a internacional?

- A diferença baseia-se nos meios de produção e no número de candidatos. Quero acrescentar que todas as produções que a NaturalVídeo realiza são profissionais, baseadas em contratos e licenciadas pela IGAC.

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Relativamente aos preços, pouco ou nada ficámos a saber. Nem os actores dizem quanto recebem por cada cena de sexo, nem o produtor revela quanto lhes paga. “É um compromisso verbal. E se contarmos podemos não ir para o estrangeiro”, afirma Marco Pinto. Por sua vez, Paulo Costa, o rosto da NaturalVídeo, recusa-se, determinantemente, a adiantar as remunerações pagas. A razão é simples: “Há quem ganhe mais e quem ganhe menos” - e para não evitar melindres fecha a boca e não diz nada. Apenas assegura que tudo varia do tipo de cenas.

MINI-HISTÓRIA DA INDÚSTRIA PORNO

Os filmes pornográficos existem desde o cinema mudo, mas só se popularizaram nos anos 70, nos EUA, graças a alterações legislativas e à abertura de cinemas próprios. É dessa altura o clássico ‘Garganta Funda’ (1972), protagonizado por Linda Lovelace, que custou 25 mil dólares e rendeu 600 milhões.

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A indústria norte-americana cresceu com a abertura de vários estúdios, a grande maioria deles em Porno Valley (Los Angeles), que é considerado o maior centro de produção de filmes pornográficos do Mundo. A banalização dos gravadores de vídeo e, depois de DVD, deu novo impulso ao negócio, considerado hoje em dia um dos mais globais e lucrativos. À frente da difusão mundial destes conteúdos está, actualmente, a internet, que beneficia da expansão do ‘home video’, o grande motor do porno amador.

A RAINHA DO 'SET' É A MULHER

O homem é mero adereço, com trabalho pago, digamos, à peça. Marco explica que só recebe se “chegar ao fim”, o que nem sempre é fácil. Mas apesar do esforço, o protagonismo num filme pornográfico hetero é todo da mulher. “São elas que brilham e que decidem qual é o procedimento sexual”, refere o actor secundário de filmes como ‘A Enfermeira Portuguesa’ e ‘As Orgias de Diana’.

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