Droga conhecida como K4 é pulverizada na correspondência, não deixa cor, nem cheiro e é difícil de detetar.
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Há uma nova droga a circular nas cadeias portuguesas que pode ser 80 a 100 vezes mais potente que a canábis natural e que chega aos reclusos na maior parte das vezes pulverizada em cartas de amor. Trata-se de uma droga sintética, conhecida como K4, que pode provocar surtos psicóticos, ataques cardíacos e até a morte. O primeiro caso conhecido pelas autoridades em Portugal foi em 2020, e desde aí que os números não param de aumentar. É uma droga bastante difícil de detetar por não deixar cor ou cheiro nas cartas, o que se está a tornar um pesadelo para o corpo da guarda prisional. "É impossível de ver. Ou o trabalho é mal feito e deixa algumas marcas nas letras e linhas da folha ou então parece uma carta totalmente inofensiva", contou ao CM Frederico Morais, presidente do sindicato dos Guardas Prisionais.
Em 2020, o primeiro caso conhecido foi na cadeia do Funchal, na Madeira. Na altura, com a pandemia da Covid-19, as visitas estavam suspensas e a droga começou a chegar aos reclusos em forma de correspondência. "Detetámos 26 substâncias diferentes embebidas nas cartas. A maior parte delas são canabinoides sintéticos e depois tem aparecido também substâncias medicamentosas. Passámos de cinco amostras analisadas em 2020, para cerca de 307 no ano passado e este número ainda não está fechado.
Por ser difícil de detetar pelos guardas prisionais os números devem ser muito maiores do que aquelas que são apreendidas. Estamos ainda a falar de um produto muito fácil de encontrar à venda na internet", explicou Maria João Caldeira, chefe do setor de Drogas e Tóxicos do Laboratório científico da Polícia Judiciária. Uma folha A4 impregnada com esta substância pode variar entre dois mil a quatro mil euros dependendo da oferta e da procura. Já um centímetro quadrado pode custar cinco euros. Essa dose, depois de fumada, pode deixar os reclusos totalmente fora de si.
"Eles ficam agitados e muito, mas mesmo muito agressivos. Agressivos uns com os outros mas também com os guardas prisionais", contou Carlos Sousa, guarda prisional . Além disso, existem já casos de reclusos que tiveram alucinações, ataques cardíacos e até mortes associadas a este fenómeno da K4. "Já tivemos um caso de um recluso que se agarrou às pernas do meu colega e que lhe queria beijar as botas. Outro começou a andar em círculos. E ainda outro que ficou completamente paralisado e que se encontra assim até aos dias de hoje", disse Frederico Morais.
Muitas das substâncias que compõem a K4 escapam ao enquadramento legal em Portugal. "Pelo ponto de vista legal, para existir crime é necessário que essas substâncias constem nas tabelas anexas da lei da droga. O que acontece é que a maioria delas escapam a esse enquadramento, a esse controlo legal", explicou Maria João Caldeira. Por enquanto, as cadeias não têm qualquer mecanismo que os ajude a detetar se as cartas que chegam estão ou não contaminadas. "Eram necessárias medidas urgentes para tentar parar isto. Podia passar mesmo por as cartas serem fotocopiadas antes de chegarem aos presos", concluiu Carlos Sousa.
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