Alice: a menina que foi refém do pai

Para se vingar da ex-mulher, Paulo Guiomar fugiu do país com a filha.

21 de setembro de 2014 às 17:14
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Alice  foi  raptada pelo pai no dia 12 de  setembro  de 2012.  Este  caso teve o seu epílogo no  passado  dia  11,  quando a PJ deteve Paulo Guiomar em Caneças.

Alice foi passar férias com o pai  e  no  final  destas,  Paulo Guiomar  informou  Carla Evangelista, a mãe, através de uma SMS, que não entregaria a filha e que ela passaria a viver consigo.  Durante  dois  longos anos,  Carla  nunca  mais  teve notícias da filha, até à semana passada.  Este  caso  é,  afinal, igual a muitos outros.

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Quando existe uma separação, centra-se o problema nos filhos, na sua relação com os pais e ainda entre ex-cônjuges. Mas, na verdade,  o  problema  são  os adultos, os pais, sendo as crianças meras vítimas. Os pais, por vários motivos, tais como problemas económicos, não aceitam a separação e na incapacidade de aceitar a felicidade do ex-companheiro(a),  infernizam-lhe a vida, utilizando de forma miserável os filhos, fazendo-os sofrer, obrigando-os a escolher entre o pai ou a mãe, como se eles fossem responsáveis pelo fim daquela relação.

Paulo  Guiomar  cresceu  em Caneças com os pais. Depois de entrar para a Polícia Marítima, foi colocado em Tavira. Aí conheceu Carla, por quem se apaixona, casando-se em 2004. Em 2005  nasce a primeira e única filha do casal: Alice. Entretanto, como acontece com muitos casais, as coisas não correm bem. Segundo Carla, a  convivência deteriora-se, por isso, em 2006, separam-se e, em 2007, divorciam-se. No seguimento do divórcio, o tribunal decide sobre a Regulação do Poder Parental, ficando  definida  a  relação  da criança com os pais. Paulo Guiomar continuava a prestar serviço em Tavira, onde residia e onde residiam também a ex-esposa  e a filha, pelo que podia vê-la diariamente  e  acompanhar  o  seu crescimento. Porém, o problema  não  estava  na  partilha  das responsabilidades relativamente à vida de Alice, mas sim na relação com a ex-esposa. Segundo os  relatos  públicos  feitos  por Carla, entre a separação (2006) e a fuga com a criança (setembro de 2012), Paulo Guiomar tentou repetidamente reiniciar a relação, ameaçando Carla, caso esta não o aceitasse, com a luta pela alteração do poder paternal.

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É claro que o problema não era Alice, mas sim a relação do casal que, pelo menos da parte de Paulo Guiomar, não estava de todo resolvida. Paulo utilizava a filha para a pressionar a ex-companheira. A menina, Alice, viu-se atirada para uma batalha sobre a qual ninguém lhe pediu opinião.

Pressão aumenta

Quando  Carla  encontra  um novo companheiro, a situação complica-se  e  a  pressão  feita por Paulo aumenta. Entretanto, Carla engravida e este terá sido o  detonador  da  fuga.  Quando sabe que a ex-esposa está grávida, Paulo perde qualquer esperança de reconciliação e decide fugir com a filha.

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A mãe de Paulo Guiomar, Maria Dolores, afirmou que o filho tinha decidido levar Alice porque ela não queria voltar para casa  da  mãe.  Isto  até  pode  ter sido  verdade.  Contudo,  todos sabemos  que  as  crianças  têm uma opinião volátil e uma forma hábil  de  se  posicionarem  num conflito  deste  tipo.  Aprendem rapidamente a arte da ‘chantagem’, querendo ou tentando tirar benefícios da luta dos pais. Mas mesmo que Alice não fosse bem tratada ou fosse infeliz a viver com a mãe, esse facto não dava o direito a Paulo Guiomar de fugir com a filha. A ser verdade, dava--lhe não o direito, mas a obrigação de levar estas informações ao tribunal e aí lutar pela guarda da  criança.  Mas  esta  versão, dada  a  conhecer  pela  mãe  de Paulo Guiomar, é toda ela pouco credível. Custa a acreditar que um pai que em agosto foi buscar a filha para passar as férias e que ao ser informado por ela de que não gosta de viver com a mãe tenha decidido de imediato e de forma  simplista  fugir  do  país com a menina. Com esta decisão deixou de comparecer no trabalho, sem apresentar justificação, caminhado para o despedimento. Esta não é uma decisão que se tome de ânimo leve, mesmo que estivessem em causa os mais altos interesses da criança. Se a situação vivenciada por Alice fosse muito grave, então a mesma deveria ter sido comunicada  às autoridades  competentes  –  o tribunal e a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens – a fim de serem tomadas as medidas  necessárias em defesa do interesse da menor.

Mas é estranho que Paulo, durante os sete anos de vida da pequena Alice, nunca tenha dado por  qualquer  problema.  Viu  a sua  filha  crescer,  vendo-a  nos períodos em que ficava com ela ou quando a visitava na escola. Aparentemente, a criança estava bem tratada, não apresentava problemas escolares, nunca foram  detetados  maus-tratos  e nas idas ao médico nunca foi assinalado  nada  de  anormal.  A Alice nunca foi referenciada por nenhuma entidade como criança em risco, não existindo denúncias,  nem  do  pai,  para quem  os  únicos  problemas existentes e que o impediam de ter  um  maior  contacto  com  a criança advinham da separação com  a  mãe  da  menor.  Assim, tudo aponta para que a causa do rapto de Alice resida na incapacidade de Paulo Guiomar lidar com o facto de a sua ex-mulher ter refeito a vida e por perceber que a gravidez de Carla impediria  uma  reconciliação  de  ambos.  Não suportando, acima de tudo, a "nova felicidade"  vivida por ela, decide vingar-se, retirando-lhe  o  que  ela  tinha  de mais precioso: a filha.

O exílio belga

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E foi assim que, há cerca de dois anos,  Paulo  Guiomar  decidiu desobedecer à decisão do tribunal sobre a regulação das responsabilidades parentais e fugiu com Alice.  Abandonou o trabalho, mesmo sabendo que tal poderia acarretar a expulsão da Polícia Marítima. Para fugir com Alice contou com o apoio da sua mãe, que recorreu às poupanças de uma vida e acompanhou o filho. E para poder ter êxito era necessária preparar a fuga. Paulo Guiomar tinha de ter documentos pessoais falsos para si, para a sua mãe e para Alice, com ligações familiares entre os três, que justificasse a vivência em conjunto.  Nada  disso  aconteceu, pelo  que  as  possibilidades  de êxito eram nulas.

Não tendo outros documentos além dos verdadeiros e como eram procurados pela Interpol estavam impedidos de trabalhar.  Esta situação arrastou Alice para uma situação dramática, causando-lhe danos. A fuga impedia a menor de frequentar a escola. Se Paulo Guiomar decidisse matricular a filha numa escola teria de a identificar e de informar de que escola provinha, para que se procedesse à transferência. Isto significaria que Alice seria de imediato localizada. Foi para o evitar que o pai impediu Alice de frequentar a escola.

Um papel relevante neste processo,  ainda  não  suficientemente apurado, é o da mãe de Paulo Guiomar. Será que ela se limitou a acompanhar de forma passiva o filho? Nesse caso, não teria nenhuma responsabilidade, pois enquanto mãe não é obrigada a fornecer informações às autoridades que pudessem levar à localização do filho. No entanto, se participou ativamente no plano de fuga  poderá ser considerada coarguida ou cúmplice  do  filho.  Mas  isso  é matéria  para  ser  apurada  durante a investigação em sede de processo-crime. Nesta fase podemos apenas fazer um juízo de valor ético/moral sobre o comportamento de Maria Dolores.

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É verdade que os únicos dados de que dispomos para essa análise é o brilhante trabalho feito pela jornalista Magali Pinto para o ‘Correio da Manhã’. Ouvido o testemunho de Maria Dolores sobre estes últimos dois anos de vida, passados ao lado da neta, ficamos com a sensação de que ela é a personagem principal da trama. Foi curioso ouvi-la utilizar a primeira pessoa do plural para se referir a si e à neta; "nós íamos ao jardim", "nós íamos às compras"  e  assim  sucessivamente. Por vezes, lá se recordava que existia outra pessoa na vida delas, o filho e pai de Alice, corrigindo de imediato: "Bem, nós e o meu filho já se vê". Afirmou também que era ela que estava sempre com a neta e lhe ensinava "gramática", "contas" e "cópias". Ensinava-lhe também "francês", porque considerava que isso era importante para o futuro. As matérias que ensinava eram escolhidas por si e não pelo pai de Alice.

Maria Dolores moldou a neta à sua imagem. Nos dois anos, foi sempre ela quem cortou o seu cabelo  e  o  de  Alice.  A  menina deixou de usar o cabelo comprido, que tinha quando vivia com a mãe, passando a usar o corte da avó. Começou a vestir essencialmente calças porque, como afirmou a avó à jornalista Magali  Pinto,  ela  não  gostava  de saias. Até as armações dos óculos usados por Alice deixaram de  ter  cores  garridas  próprias das crianças para passarem a ser parecidas com as dos óculos da  avó. Segundo contou Maria Dolores, ensinou a neta  a ser uma mulherzinha, tendo-lhe ensinado o valor do dinheiro e o custo de vida, a fazer renda e malha, a costurar roupa e a cozinhar – Alice  aprendeu  a  fazer  umas omeletas excelentes.

Durante dois anos, Alice não teve  nenhuma  criança  para brincar. Dado o receio de serem localizados,  Paulo  Guiomar, Maria Dolores e Alice viveram num  sótão  na  cidade  belga  de Liège. Alice nunca teve nenhuma outra criança na sua casa, nem foi a casa de alguma. Os raros contactos com crianças da sua idade ocorreram num parque onde ia com a avó. A única ligação ao mundo infantil era a boneca a quem chamava ‘irmã’. Alice deixou de ser criança e aos sete  anos  transformou-se  na mulherzinha  idealizada  pela avó.  Segundo a própria avó, durante estes dois anos Alice  nunca foi ao médico, nem da vez em que esteve constipada.

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O regresso

Agora que foi localizada, Alice regressou a casa. Pouco resta da menina que desapareceu a 12 de setembro  de  2012.  Regressou outra  criança  com  o  mesmo nome. Uma criança que viveu uma vida que não escolheu. Regressou à sua escola e à sua turma,  contudo  nada  é  igual. Quando desapareceu, Alice era uma menina igual às suas amiguinhas, mas a ausência fê-la perder tudo o que elas entretanto aprenderam. Hoje, Alice não sabe quem é ‘Violetta’ e nunca viu os  desenhos  animados  da moda, mas sabe fazer renda e malha, costurar e cozinhar. Mas uma criança com nove anos não tem de saber estas coisas.

E para quê tudo isto? Será que Paulo Guiomar acreditou que tudo daria certo? Que conseguia organizar a sua vida, assente num crime? Como pensava ele sobreviver e criar a sua filha?

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Estas são porventura perguntas para as quais o próprio não terá hoje resposta. Mas no meio desta loucura, Paulo Guiomar é aquele que mais perdeu. Alice é muito nova e com ajuda de profissionais competentes vai recuperar. Vive agora com a mãe e um irmão de 18 meses que não conhecia. Carla recuperou a filha. Voltou a casar-se e foi mãe novamente, da criança de que estava  grávida  quando  Alice desapareceu.

Quando  Alice  foi  localizada, Carla Evangelista ter-se-á sentido uma das mulheres mais felizes do Mundo. Já Paulo Guiomar está preso e tem de acertar contas com a Justiça. Tem ainda pendente um processo disciplinar e dificilmente escapará à expulsão  da  Polícia  Marítima  e  perdeu  certamente  a  hipótese de voltar a estar sozinho com a filha, pelo menos até esta atingir a maioridade, pois existe risco de uma nova fuga.

Para todos nós, adultos, que por  vezes  nos  comportamos pior do que as crianças, fica este caso. É igual a tantos outros, em que  entretidos  com  orgulhos perversos  e  sentimentos  de posse  desajustados  se  correu para  o  precipício,  arrastando  outras pessoas.

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Neste caso, Paulo Guiomar levou consigo a ex-esposa, a filha, a mãe, os avós maternos, entre muitas outras pessoas. E para quê? Para dois anos depois ter a sua vida muito pior do que estava antes. Todos devíamos pensar nisto.

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