“Estou farto deste Carnaval de cadáveres”: 'Cartas de Amor e de Dor' conta episódios da guerra
Novo livro da jornalista Marta Martins Silva revela parte da correspondência entre África e a Metrópole. Entre 1961 e 1975 circularam 376 milhões de aerogramas.
Porque a guerra não é um acontecimento estritamente bélico, é “também um acontecimento social e emocional”, a jornalista Marta Martins Silva regressou a esta evidência e depois de ‘Madrinhas de Guerra’ publica agora ‘Cartas de Amor e de Dor’. A empreitada foi maior, centenas de cartas, postais, aerogramas e telegramas entre África e Portugal, e Portugal e África, entre soldados e os que ficaram na terra, retalhos de afetos, desgraças, quotidianos, singelezas, futilidades, promessas e desabafos. “Arrepiei-me muitas vezes durante a escrita do livro porque é impossível não me imaginar na pele daquelas pessoas. Nas que foram e nas que ficaram. No filho que num aquartelamento em Angola, depois de 15 dias no mato a sofrer emboscadas, recebe uma carta a dizer que a mãe morreu e se confronta com o facto de não se poder despedir dela; na mulher com um bebé nos braços que na metrópole recebe uma carta a dizer que o marido foi morto na guerra. As cartas, os aerogramas e os telegramas eram na guerra o veículo do bom e do mau, da alegria e da tristeza”, explica a autora.
No prefácio, o general Pedro Pezarat Correia, que participou em seis comissões durante a Guerra Colonial (Índia, Moçambique, Angola e Guiné) e depois também, na movimentação militar que deu origem ao 25 de Abril, define melhor o livro editado pela Desassossego: “É a guerra na primeira pessoa.”
À correspondência, aos extratos de diários pessoais de ex-combatentes, às memórias, aos desabafos em blogues e às entrevistas junta-se a necessária contextualização da época, a dos homens que partiram para África na alvorada da década de 60 - a maioria das histórias recolhidas - mas também daqueles outros que a amargaram nas trincheiras da Grande Guerra. “Acho que se vê sempre o país nas cartas, sobretudo nas cartas de quem está em Portugal, mesmo que as cartas não abordem questões políticas. Mas, na verdade, eu não acho que haja tantas diferenças assim entre as cartas trocadas nos dois períodos, apesar dos anos que separam umas e outras. Nos dois conflitos, as cartas, sobretudo aquelas que são escritas para as famílias, espelham sobretudo as questões emocionais. Em ambas as épocas também se percebe em muitos combatentes a preocupação com a terra – se as batatas cresceram, como vai o laranjal, se vai haver fartura nas colheitas, o que demonstra por um lado a importância da agricultura (que nos anos 60 e 70 ainda tem um papel importante na subsistência das famílias) e, por outro, a necessidade que tinham os soldados de se afastar da guerra através das cartas. Talvez seja uma forma de se manterem vivos, ligados a quem eram e a quem têm esperança de voltar a ser - e isso é transversal. Outra característica comum, pelo menos nas cartas que analisei, é o facto de nos dois conflitos a maioria dos combatentes optar por esconder da família as agruras maiores, os perigos que passavam, a verdadeira guerra. Onde se notam as diferenças é sobretudo na questão da alfabetização, que na altura da I Guerra Mundial ainda era uma miragem para a maioria da população e, por isso, quem escrevia eram sobretudo combatentes e familiares de famílias mais abastadas”, diz Marta Martins Silva.
Entre 1961 e 1975 circularam 376 milhões de aerogramas. “Não raras vezes os combatentes disseram-me que os momentos mais difíceis eram aqueles em que havia atrasos na chegada do correio – mais do que as emboscadas e os ataques”, conta a autora de ‘Madrinhas de Guerra’, que depois da publicação deste seu primeiro livro, em outubro de 2020, recebeu “várias mensagens de pessoas que tinham guardado cartas desta época e que queriam também contar as suas histórias”. Rapidamente mostraram a inevitabilidade do segundo livro, para o qual se socorreu ainda de blogues, através dos quais chegou a mais correspondência e outras histórias, e a arquivos históricos, bibliografia ou até a memória de familiares vivos, no caso dos combatentes da Grande Guerra. “Mas não deixei de contar uma boa história quando os protagonistas já não tinham consigo as cartas”, diz quem se sentiu “um bocadinho ‘voyeur’” porque “uma carta é um objeto extremamente íntimo”. “E estas cartas ainda têm o adicional de serem trocadas por pessoas que estão inevitavelmente a sofrer, o que torna ainda mais íntimo o que é escrito. Tal como os diários. Isto para dizer que, efetivamente, não publiquei tudo… por muito que as pessoas tenham posto à minha consideração o que devia ou não usar –, sobretudo cartas em que a questão da sexualidade era muito explícita: nestes casos fui até onde achei que podia ir sem melindrar os meus protagonistas, a quem devo este livro.”
“Escapei por milímetros a balas, houve uma que passou tão rente que me queimou os lábios”; “Tanta miséria, pulhice, vergonha, Maior que o mundo. Já sei histórias que dariam belos poemas, enredos para contos, narrativas. Vida, viva e morta. Se eu tivesse força e jeito para os escrever, talvez”; “Primeiro peço a Deus que te encontres de saúde”; “Recebi a tua carta e a tua fotografia, como estás linda meu amor, vejo que mudaste o penteado, salvou-se o caracol que cortei no dia em que te deixei, beijo-o todos os dias”; “Estou farto deste Carnaval de cadáveres” - lê-se nesta enciclopédia de vidas suspensas pela guerra.
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