Cinema de facto
‘Argo’ de Ben Affleck é feito à medida dos Óscares, mas não é isso o mais importante. O filme prova que a realidade pode ser muito boa no cinema
E pronto: está encontrado o filme que vai limpar os Óscares de 2012. Merecido? Indiferente: o mérito nunca teve grande papel nos prémios da Academia. Porque Hollywood gosta sobretudo de se celebrar a si própria – uma sessão de onanismo com centenas de convidados e milhões de testemunhas no mundo inteiro.
‘Argo’ cumpre esse papel. Superficialmente, é um bom filme, com um Ben Affleck discreto (o rapaz aprende devagar, mas aprende) e uma trama com carpintaria competente, a lembrar o tom sóbrio dos grandes filmes políticos da década de 70 (Lumet, Pakula, etc.).
A MENSAGEM
O maior trunfo do filme é a sua mensagem, digamos, metanarrativa: o cinema é mais forte do que a política. Melhor: o cinema é a salvação da realidade.
No caso de ‘Argo’, isso tem um significado literal. Em 1979, um ano que ficará para a história do terrorismo como 1917 ficou para a história do totalitarismo, Khomeini regressou do exílio (parisiense, "comme d’habitude"…) para capitanear a sua revolução islâmica. No caudal da revolução, a embaixada americana em Teerão foi tomada por radicais – durante 444 dias –, mas seis altos funcionários diplomáticos conseguiram fugir e encontrar refúgio na casa do embaixador canadiano. O desafio que se gerou em Washington era saber como retirá--los do Irão antes que os radicais detectassem a sua falta.
A resposta foi ‘Argo’, um filme de ficção científica imaginário, que permitiu a um operacional da CIA entrar no Irão (com passaporte canadiano), fingir que procurava cenários para o seu filme, e sair do país com a sua ‘equipa’ de produção (os seis diplomatas, convertidos em técnicos de cinema). No fundo, quem resistiria ao supremo glamour de ter Hollywood a cobiçar-nos as vistas? Nem um aiatola fica indiferente à fábrica de ilusões americanas.
Claro que, no final do filme, Affleck abusa um pouco da credulidade alheia e coloca Jimmy Carter, presidente à época e um reconhecido inapto para lidar com a crise dos reféns, a exortar o "pacifismo" com que tudo foi feito. Era escusado: os 444 dias de sequestro só terminaram quando Ronald Reagan era o senhor que se seguia na Casa Branca. E depois do mesmo Reagan ter prometido que arrasaria Teerão se os radicais não desamparassem a embaixada.
Affleck podia ter respeitado este pormenor ‘histórico’ sem que isso retirasse o essencial do seu filme: depois de Hollywood ter resgatado os seis diplomatas, foi preciso um ex-actor de Hollywood para resgatar todos os restantes. É obra.
RESUMO
A 4 de Novembro de 1979, a embaixada norte-americana em Teerão é tomada de assalto por um grupo revolucionário iraniano que faz 52 reféns. Aos saber que os seis funcionários fugitivos ao sequestro serão executados caso sejam encontrados, a CIA envia para o terreno Tony Mendez, um agente especialista em fugas. Filme inspirado em factos históricos.
Realizador: Ben Affleck
Intérpretes: Ben Affleck, Bryan Cranston, John Goodman, Clea DuVall e Alan Arkin
Em exibição nos cinemas
LIVRO: ‘RAZÃO E LIBERDADE: O PENSAMENTO POLÍTICO DE JAMES MADISON’
Neste tempo de crise na Europa, ler o pensamento político de James Madison, um dos pais fundadores dos Estados Unidos, é perceber como um modelo federal só é viável – e desejável – se for capaz de respeitar a essencial liberdade dos europeus para determinarem o seu destino. Alguém devia enviar este livro para Bruxelas.
Autor: José Gomes André
Editora: Esfera do Caos
LIVRO: ‘KEYNES/HAYEK: O CONFRONTO QUE DEFINIU A ECONOMIA MODERNA’
Hoje, na ressaca da crise financeira de 2008, continuamos a perguntar: qual o papel do Estado numa economia livre? Para Hayek, o papel seria modesto. Keynes jogava na equipa contrária: o investimento público é fundamental, sobretudo em momentos recessivos. Os herdeiros de ambos continuam por aí.
Autor: Nicholas Wapshott
Editora: Dom Quixote
FILME: ‘MOONRISE KINGDOM’
Sam e Suzy apaixonaram-se e, como convém às histórias de amor, decidiram fugir de casa. O facto de serem pré-adolescentes significa pouco: no cinema de Anderson, todos os personagens habitam um tempo arcádico. O facto da fuga e da perseguição aos foragidos se passar numa ilha só reforça a singularidade de Anderson no cinema americano.
Realizador: Wes Anderson
Intérpretes: Bruce Willis, Frances McDormand, Edward Norton, Tilda Swinton, Jason Schwartzman e Bill Murray
FUGIR DE...
‘ARISTIDES DE SOUSA MENDES – O CÔNSUL DE BORDÉUS’
Sazonalmente, a pergunta inevitável: com uma história tão rica, por que motivo o cinema português não se debruça sobre ela? A resposta pode ser encontrada neste filme: e para quê? A vida de Aristides, que salvou milhares de judeus contra as ordens de Salazar, tinha tudo para funcionar. Se houvesse uma produção à altura e não este museu de cera."
Realização: João Correa e Francisco Manso
Em exibição
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt