Júlio Machado Vaz: "As férias são um desafio para o casal? A solução é sempre uma boa comunicação. "
Especialista faz o diagnóstico para os casais que encontram dificuldades quando a rotina se altera.
Ao longo de cinco décadas, Júlio Machado Vaz “entrou” em casa dos portugueses – através da televisão, rádio e imprensa – para quebrar tabus sobre relações, afetos e sexualidade. Em entrevista ao suplemento ‘Domingo’, o conceituado psiquiatra recupera lições de cinco décadas de prática clínica e aborda os desafios que o período das férias coloca aos casais; qual o diagnóstico e quais as eventuais soluções.
Estamos em período de férias, o que muitas vezesé um desafio para os casais. Muitos especialistas falam das dificuldades que surgem com as alterações da rotina.Podemos afirmar que as férias são um momento revelador para uma relação a dois?
Gosto de termo que usou: “Revelador”. Acho que concordo com essa ideia. Gostamos todos de acreditar que as férias nos permitem sair da rotina, ter menos preocupações, ter mais tempo para os outros. As pessoas, regra geral, pensam que isso representa uma vantagem para a relação, para que as coisas corram melhor, quer ao nível do diálogo, quer a nível erótico… O que acontece, por vezes, é que, como em todas as generalizações, isso acaba por não corresponder totalmente à verdade. Não é raro que as férias se tornem numa oportunidade para que as pessoas percebam que, afinal, a relação está a definhar, que falta assunto entre o casal quando este está a dois. E isso, naturalmente, começa a preocupar as pessoas. As modificações que surgem com as férias podem aproximar um casal, mas também afastá-lo.
Isso significa, portanto, que o quotidiano pode disfarçar os problemas que já existem numa relação?
Sim, claro. Atualmente, para mais, as pessoas vivem rotinas cada vez mais frenéticas. Imaginemos um casal com filhos, as pessoas vão de casa para o trabalho, do trabalho para casa, depois têm de levar as crianças ao ballet ou ao futebol, a seguir elas crescem e é a fase das festas de aniversário… As pessoas não têm tempo e espaço para nada, nem sequer para repousar. Não é algo bom para o casal, não é? As pessoas quase não têm tempo para refletir. E isso acaba por só acontecer nas férias, passado muito tempo. Por vezes, está tudo bem, mas, outras vezes, descobre-se que não está.
Existemestudos sobre o assunto. Há, de facto, evidênciasde de um aumento do número de divórcios após os períodos de férias – nomedeamente, em março(depois das férias de inverno e festas natalícias) e em agosto e setembro (depoisdas férias de verão). Isto é mesmo assim? E, se sim, qual a razão?
Pode dizer-se que acontece, sim. E acontece exatamente pelas falsas expectativas, objetivos não alcançados, quando as pessoas percebem que as férias não resolveram os problemas que já existiam. É importante referir isto: o mal-estar, nestes casos, já existe; o que o casal faz é colocar uma grande esperança nas férias e depois descobre-se que as coisas não mudam só porque estamos de férias.
Isso também não poderá acontecer quando os filhos saem de casa? Casais que estão habituados a viver com os filhos e depois voltam a morar sozinhos, em casal, passados vários anos…
Exatamente. Isso até tem um nome: “Síndrome do ninho vazio”. Acontece quando os filhos levantam voo e, de repente, o casal descobre que a comunicação entre os dois só existia através das preocupações e das alegrias motivadas por eles; e, então, as pessoas estão numa idade por volta dos 50 anos, e descobrem que há uma espécie de calma nas suas vidas, não uma calma agradável, mas apenas falta de tema e de sentido.
Além das férias e dessas mudanças, há outros exemplos de momentos em que a mudança pode provocar alterações na vida do casal?
A pandemia [de Covid-19], por exemplo, foi terrível neste aspeto. O que podemos concluir é que qualquer alteração no nosso quotidiano pode levar a alterações e definições. Na pandemia, houve casais que estavam prestes a terminar as suas relações e que, com o confinamento, acabaram por dar uma nova oportunidade à relação; por outro lado, houve casais que achavam que tinham uma relação a navegar em águas calmas e, fechados em casa, descobriram que, afinal, ela já se tinha esgotado.
As coisas de que estamos a falar sempre foram assim, isto vale para todas as gerações?Com o passar dos anos, identificou alterações comportamentais dos casais, da forma como se relacionam e lidam com estes desafios?
Houve mudanças. Vejo isso perfeitamente no meu exemplo pessoal. Eu tenho 76 anos, os meus netos têm 25 e 23. Na minha geração, havia quem tivesse uma namorada no verão. Depois, ao longo do ano, eventualmente, tinham uma ou duas oportunidades – numa festa, num baile – de estar com aquela rapariga. E, portanto, as férias eram idealizadas, e aquele período, de 30 ou 60 dias, era aguardado com enorme expectativa o ano inteiro. O que significa que a idealização era muito grande, a todos os níveis. As pessoas não se conheciam verdadeiramente. Hoje, observo a naturalidade com que os meus netos encaram estar com as suas amigas, as suas namoradas. Não há necessidade dessa idealização porque o contacto é muito mais frequente. E, portanto, com todos os problemas que possam surgir, há hoje também uma enorme vantagem – os afetos, a sexualidade, tudo isso é saboreado de uma maneira completamente diferente, mais livre e natural. Não há comparação com o que se passava há 20, 30 ou 40 anos atrás.
Para os casais que possam estar a passar por uma situação mais difícil, não há ferramentas para que estas disrupções, chamemos-lhes assim, quando surgem, possam ser evitadas e ultrassadas; e, claro, a relação ser salva?
Se se analisar 30 mil influencers das redes sociais é possível concluir que todos estão de acordo numa coisa: a importância da comunicação entre o casal. Sabemos que existem dificuldades colocadas pelos desafios e pelo frenesi do dia-a-dia; as exigências quando chegam os filhos. Mas se o casal consegue manter o diálogo, de abordar as dificuldades que podem surgir, o prognóstico é sempre mais positivo. A solução é sempre uma boa comunicação. Costumo ouvir pessoas a dizerem assim: “Estou à espera das minhas férias para poder ter tempo para ter uma conversa séria sobre a minha relação”. Isto é compartimentar a vida, adiar conversas. Não é assim que as coisas devem funcionar. Até posso arriscar em fazer uma comparação: as férias são um bocado como as reformas. Se alguém entra na reforma sem ter hobbies, interesses, descobre que aquilo que pensou que ia ser bestial, afinal, não é assim tão bom. Acaba por sentir-se um bocado nu perante o dia à sua frente. A reforma, prepara-se; eu arriscar-me-ia a dizer que as férias também.
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